SAÚDE CARDIO – Medicina não é exata, mas tem lógica: entenda casos de Szafir e Bolsonaro

Quando a evolução clínica de uma pessoa é complicada, repleta de ocorrências e sobressaltos, começamos a analisar a lógica por trás dos fatos.

A medicina não é uma ciência de exatidão e precisão, existem muitas variações e possibilidades. No entanto, os eventos e ocorrências devem ser correlacionados de acordo com algumas lógicas, como a relação temporal entre as coisas e a influência que um certo evento pode exercer sobre outro.

Dhoje Interior

Estamos convivendo nestes dias com fatos relativos a dois casos médicos: do ator Luciano Szafir e do presidente da República Jair Bolsonaro.

Em ambos os casos podemos notar um encadeamento de fatos e ocorrências, gerando um curso natural e sequencial, ainda que complicado, de algumas doenças.

Analisando o caso específico de Szafir, sabemos que seu problema de saúde gira em torno da infeção pela Covid-19. Aliás, como ele foi vítima desta infecção por duas vezes, podemos já deduzir que existe algum tipo de propensão genética ou mesmo algum fator de imunidade. Independentemente disto, o caso dele reflete nitidamente uma sucessão lógica de eventos.

Para ficar mais fácil a compreensão desta sucessão de fatos, vamos apresentar os aspectos principais:

Aspecto 1 – Infecção pela Covid-19

Quando esta infeção se propaga pelo organismo humano, sabemos que o primeiro órgão afetado será o pulmão. Neste órgão, ocorre uma importante reação inflamatória, que prejudica a oxigenação e gera sintomas limitantes como a falta de ar.

Em casos mais extremos, como foi com Szafir, esta reação inflamatória é muito intensa e exige intubação.

Aspecto 2 – Inflamação pulmonar e sistêmica

Na prática, esta inflamação compreende uma imensidão de toxinas que invadem nossa circulação sanguínea e partem para o ataque contra nossos órgãos. As consequências são imprevisíveis e podem ser inclusive letais.

No caso de Szafir, houve uma consequência muito séria: a embolia pulmonar. Estas toxinas podem causar mudanças na fluidez do sangue e provocar a formação de coágulos dentro de vasos sanguíneos. A embolia pulmonar no ator aconteceu por este mecanismo.

Além disso, o processo que acometeu o intestino dele – a diverticulite – também pode ter relação com estas toxinas inflamatórias dispersas na circulação.

Aspecto 3 – Embolia pulmonar

Dependendo da magnitude e da extensão da embolia pulmonar, a pessoa pode morrer em poucas horas, devido a queda súbita de oxigenação e subsequente falência orgânica.

Desta forma, uma das primeiras medidas será garantir a oferta contínua de oxigênio. Paralelamente, existe a preocupação quanto a não ocorrer o agravamento da embolia e também a formação de novos trombos em outros territórios do corpo.

Além da oferta de oxigênio, usualmente deve ser utilizado algum tipo de medicamento anticoagulante.

Aspecto 4 – Uso de anticoagulantes

Quando se usa este tipo de medicamento, existe risco real de algum sangramento pelo corpo. Considerando que este medicamento melhora o fluxo sanguíneo por um lado, ele pode também propiciar hemorragias leves ou mais intensas, por outro lado.

Algumas pessoas apresentam hematomas pelo corpo, que podem desaparecer espontaneamente ou pelo uso de algum produto tópico. Outras pessoas acabam apresentando hemorragias internas ou hematomas dentro de cavidades como tórax e abdome. No caso de Szafir, houve a formação de um hematoma dentro de seu abdome.

Aspecto 5 – Diverticulite perfurada

Este processo inflamatório do intestino, conhecido como diverticulite, pode evoluir para a perfuração e ocorrer a contaminação da cavidade abdominal com fezes. Esta condição clínica, conhecida como peritonite, exige uso de antibióticos bem potentes e medicamentos para manutenção da pressão arterial.

No caso do presidente Bolsonaro, tudo se inicia com aquela facada em 2018, durante o período eleitoral. Os aspectos que seguem este evento traumático são os seguintes:

Aspecto 1 – Intestino perfurado por uma faca

Inevitavelmente este fato promove a contaminação da cavidade abdominal e ocorrerá peritonite. No caso do presidente, além do uso de antibióticos potentes, foi necessária uma cirurgia de urgência, com remoção da parte ferida do intestino.

Como a faca é considerada um instrumento “sujo”, recomenda-se não retirar o segmento de intestino ferido e logo de imediato fazer a reconstrução definitiva. Dessa forma, deixa-se uma bolsa de colostomia, na qual o intestino está preso a parede abdominal e as fezes são depositadas nesta bolsa adaptada.

Aspecto 2 – Reconstrução definitiva do intestino

Após meses de esfriamento do processo inflamatório causado pela facada, pode-se fazer uma nova cirurgia para recolocar o intestino na sua função original. A colostomia então é desfeita.

Aspecto 3 – Hérnia no local da cicatriz

Em geral, abrir a barriga na urgência exige um corte grande, para facilitar a rápida exposição e acesso às estruturas internas. O excesso de manipulação e a fragilização dos tecidos provocada pela cirurgia agressiva podem levar a formação gradativa de um abaulamento ou hérnia na linha da cicatriz.

Aspecto 4 – Correção cirúrgica da hérnia

Mais uma cirurgia, com nova abertura abdominal, provocando inflamação das alças intestinais. Mas não tem outro jeito, pois há necessidade de reforçar a parede abdominal com uma tela ou malha de contenção.

Caso contrário, permanece aquele abaulamento formado anteriormente, no qual estão acumulados vísceras e gordura.

Aspecto 5 – Obstrução intestinal

Quando é necessário abrir o abdome várias vezes, ou seja, várias cirurgias no mesmo local, devemos considerar o risco de formação das aderências entre alças do intestino, tal como a possibilidade de obstrução intestinal total ou parcial.

Trata-se de um processo gradativo, que pode levar a sintomas muito desconfortáveis como forte dor abdominal e mudanças do hábito intestinal.

No caso de uma obstrução total com grande repercussão de sintomas, a terapia acaba sendo mais uma cirurgia abdominal para reparo do problema e provável retirada de um segmento de intestino. Em caso de uma obstrução mais branda, tenta-se descomprimir órgãos digestivos por meio de sondas e implementa-se certo período de jejum para dar repouso aos intestinos. Com estas medidas menos invasivas, pode -se evitar a necessidade de nova cirurgia.

Tanto o caso de Szafir como do presidente Bolsonaro refletem o curso natural e complicado de alguns problemas de saúde, que se acumulam e acabam se sobrepondo ao longo do tempo.

Notem que, neste curso evolutivo, ocorre uma piora progressiva da gravidade dos fatos, impondo risco de vida às pessoas, caso o tratamento não seja iniciado rapidamente.

Mais do que isto, temos a perfeita percepção de que os eventos seguem uma ordem lógica, mostrando que as coisas não acontecem de forma aleatória ou sem nexo. Esta percepção é fundamental para direcionar cada decisão clínica no tocante aos medicamentos, procedimentos ou cirurgias que eventualmente serão necessárias.

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Prof. Dr. Edmo Atique Gabriel – Cardiologista com especialização em Cirurgia Cardiovascular, orientador de Nutrologia e Longevidade e coordenador da Faculdade de Medicina da Unilago – www.coracaomoderno.com.br