Rio-pretense na Suécia fala de tensão após país acenar à OTAN

Os países nórdicos que eram neutros formalizaram pedido de adesão à Organização do Tratado do Atlântico Norte. Processo ainda pode levar cerca de um ano

Desde que a Ucrânia foi invadida pela Rússia, a Finlândia e a Suécia passaram a repensar a neutralidade.

Na última quarta-feira, 18 de maio, foi formalizado o pedido de adesão à OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) por parte dos países nórdicos.

Bianca Betinelli, tradutora e intérprete rio-pretense, reside em Estocolmo, capital sueca, há sete anos. Para a jovem, essa aliança a longo prazo pode minimizar a chance de futuros conflitos e aumentar a segurança, mas lidar com a tensão que paira no ar tem sido bastante desafiador.

“De certa forma, pode ser interessante, mas também pode ser muito arriscado, uma vez que, enquanto a situação entre a Rússia e a Ucrânia não for resolvida, é muito preocupante tomar qualquer tipo de decisão que possa influenciar na escalada da guerra. Não diria que não sinto medo, pois tudo pode acontecer visto que seres humanos estão no controle e vivemos um momento de extremismo no mundo inteiro. Me incomoda ver o quanto ideologias defasadas ainda são ressuscitadas”, desabafa.

A tradutora enfatiza o quanto a decisão é complexa, afinal, existem benefícios de um lado, mas a interpretação que o presidente da Rússia pode ter diante de tal escolha deixa os suecos e finlandeses receosos.

“Muitos acreditam que aderir ao grupo traz segurança, mas a possibilidade da Rússia atacar a Finlândia deixa muitos dos meus amigos em pânico. Muitos já falam em deixar a capital até as coisas ‘melhorarem’”, acrescenta.

Bianca acredita que, para a Suécia, integrar o grupo neste patamar da situação, pode ser um problema desnecessário, em função de que a Finlândia está sendo ameaçada, o que faz do contexto ainda mais frágil.

“A Suécia já é aliada de vários países que fazem parte da OTAN e, portanto, não acho que faça alguma diferença esperar esse conflito se resolver”, analisa.

Samuel Freschi Decresci, professor e doutorando em Ciências Sociais, diz que o fato de a Suécia e a Finlândia serem países muito próximos da Rússia lhes trazem temores por conta de todo o histórico de práticas imperialistas da Rússia.

Fracos militarmente, esses países nórdicos estão atemorizados; por isso repensam sua neutralidade. “O DNA da Rússia sempre foi autoritário e imperialista. É tudo uma questão de geopolítica. Mas a OTAN também quebrou algumas promessas ao chegar aos países bálticos e outros países que pertenciam ao Pacto de Varsóvia, extinta organização militar capitaneada pela União Soviética. Talvez a Ucrânia também tenha errado em querer adentrar para a aliança. Respeitar a soberania de um país é fundamental, porém, algumas escolhas parecem incitar uma disputa”, pondera.

Em suma, o grande problema, para o professor, é um artefato nuclear ser lançado. Pode representar um efeito dominó e um aumento da dimensão do conflito. Freschi ainda ressalta que, em geral, o processo de adesão pode levar até um ano e não ser concluído.

Daniela MANZANI