Primeira criação online da Cênica, ‘Sala de Espera’ reflete sobre fazer artístico na pandemia

Foto: Guilherme Di Curzio

Experimento que une as linguagens do teatro e do audiovisual concebido durante a pandemia, “Sala de Espera”, a mais nova criação da companhia Cênica, faz temporada de estreia de 12 a 17 de outubro (terça a domingo), ao vivo e online, com sessões às 21h, na plataforma Zoom. A transmissão acontece diretamente do espaço da companhia. Os ingressos são gratuitos e devem ser reservados pelo Sympla. Após as sessões, a equipe artística conversa com o público sobre a montagem.

Sob direção de Fabiano Amigucci e Fagner Rodrigues, a produção é a primeira para o ambiente virtual do grupo, que lança mão da metalinguagem e da autoficção. Nela, o público acompanha quatro atrizes que, depois de 18 meses de encontros mediados pelas telas, e com os teatros ainda fechados, aguardam para entrar em cena. Na espera, mergulham em seus processos criativos, em suas memórias, urgências, dilemas e enfrentam um embate com o tempo, as ausências, as novas formas de presença e com os (in)cômodos de uma casa que agora também lhes serve de palco.

Dhoje Interior

A metalinguagem presente no trabalho propõe um diálogo com o absurdo do universo do irlandês Samuel Beckett (1906-1989), trazendo à pesquisa e à cena a peça “Esperando Godot”, com suas incontáveis possibilidades de representação da espera. As atrizes-criadoras são Andrea Capelli, Beta Cunha, Márcia Morelli e Suria Amanda. O elenco conta ainda com participação especial de Ivete Morelli.

“Sala de Espera” é uma criação coletiva que partiu de reflexões de integrantes da companhia relacionadas à arte, especialmente ao fazer teatral, e à vida no contexto da pandemia da Covid-19, de isolamento social e desarticulação no enfrentamento e prevenção à doença no país. Relatos trazidos pelas atrizes serviram de base para a construção da dramaturgia, dividida entre os solos “Tentativas”, “Processo”, “Vida” e “Ofício”. A narrativa é ambientada entre quatro cômodos de uma casa – quarto, cozinha, sala e banheiro – e a transmissão ao vivo acontece integralmente em plano-sequência, com a câmera acompanhando cada atuante sob perspectivas distintas, estética que propõe à plateia uma experiência imersiva.

O projeto nasceu em abril de 2020, momento no qual a Cênica, como tantos outros grupos e artistas, teve suas apresentações canceladas. O processo de criação levou 18 meses e a maior parte dos encontros se deu de forma remota. Segundo os diretores, em meio a todo o desolamento que o momento impôs, e ainda impõe, entre perdas humanas, políticas e sociais, foi proposto às pessoas integrantes da companhia o início de uma pesquisa artística experimental a partir de ferramentas virtuais de comunicação, com o desejo de manterem-se vivos e vivas artisticamente e resistindo.

Sobre o processo, a atriz Beta Cunha afirma: “Foi um grande desafio, enquanto mulher, artista, enquanto parte desse coletivo que é a Cênica, produzir em meio a uma pandemia de forma remota, de forma individualizada na construção, porém, sempre compartilhada, nos ensaios, foi e tem sido um grande aprendizado, dos últimos tempos talvez o maior, em meio a toda essa situação na qual nos encontramos. É possível afirmar que a arte cura, que a arte mantém a sanidade”.

Capelli pontua: “O Sala de Espera para mim é uma paixão, com todos os ingredientes que uma paixão possui, a possibilidade de estar viva, do encontro, enquanto tudo era medo e isolamento”.

Para Morelli, estar no projeto “foi como receber um colete salva-vidas” – “tempo de pandemia trouxe tristeza, medo e incerteza e eu, com 12 anos de grupo, estava acostumada a conviver com essa ‘segunda família’, e ficamos com os trabalhos paralisados, ficamos apartados, e Sala de Espera possibilitou estarmos juntes, ainda que de modo virtual”.

Já Amanda assinala, sobre o trabalho: “Daquelas coisas que mexem e transformam a gente dos pés até a cabeça. É uma constante sensação de inesperado”.

À criação somam-se ainda os diretores, além de Homero Ferreira e Ana Magalhães, artistas convidados. Léo Bauab assina a direção de arte e a cenografia; Amigucci, figurinos e adereços; e Luis Fernando Lopes, iluminação.

O projeto é viabilizado pelo Edital Proac Expresso Lei Aldir Blanc nº 36/2020, “Produção e temporada de espetáculo de teatro com apresentação online”.

Sobre a Cênica

Fundada em 2007, a Cênica é uma companhia teatral de repertório sediada em São José do Rio Preto cujas pesquisas e ações são realizadas a partir dos seguintes eixos: o popular não apenas como linguagem, mas como meios de produção e difusão cultural; dramaturgia autoral; música ao vivo enquanto elemento dramatúrgico; ocupação de ruas e espaços não convencionais e compartilhamento de saberes e formação de público. Atualmente, possui onze espetáculos em circulação, concebidos para palco, rua, espaços alternativos e ambiente virtual.

SERVIÇO:

Sala de Espera

De 12 a 17 de outubro (terça a domingo), 21 horas, na plataforma Zoom Reserva de ingressos pelo Sympla, em www.sympla.com.br/cenica

Duração: 40 minutos. 16 anos. Grátis

Mais informações: http://ciacenica.com.br/sit/; @ciacenica no Instagram e @cia.cenica no Facebook

SINOPSE: Após dezoito meses de encontros mediados pelas telas, quatro atrizes esperam para entrar em cena. Enquanto isso, submergem em seus processos criativos, em suas memórias, urgências, dilemas. Enfrentam um embate com o tempo, as ausências, as novas formas de presença e com os (in)cômodos de uma casa que agora também lhes serve de palco.

Da REDAÇÃO