EM RIO PRETO: Assédio sexual no transporte coletivo vira pesadelo para mulheres

Em Rio Preto, não há levantamento estatístico sobre a situação. Segundo a delegada Dálice Aparecida Ceron, da DDM (Delegacia de Defesa da Mulher), muitas vítimas deixam de registrar o boletim de ocorrência por medo ou constrangimento. Foto: Fábio CARVALHO

“Eu fiquei ali parada, com medo, enquanto ele terminava o ‘serviço’. Quando ele ejaculou ali no chão mesmo, saiu do ônibus, ou seja, ele entrou com a intenção de se masturbar e ir embora”.
O relato enojado, que revela frustração diante de punições brandas que cercam os crimes de assédio e importunação sexual, é da analista de comunicação Gabriela (nome fictício para preservar a identidade da vítima), de 24 anos.
A jovem conta que usava o transporte público rio-pretense para ir até a instituição. Apesar da superlotação, cansaço e a longa jornada até chegar em casa bem após a meia-noite, a experiência nunca havia se tornado tão traumática como no dia em que um rapaz, aparentando ter entre 17 e 18 anos, entrou no veículo, viu que ela estava sozinha e se masturbou na frente dela.

“Eu peguei o ônibus no ponto da faculdade e, quando parou no terminal para a troca de motorista, fiquei lá sozinha sentada, descansando. Esse homem entrou e ficou me encarando, sorrindo. Em determinado momento, começou a se masturbar. Fingi que nada estava acontecendo, congelei e senti muito medo dele reagir e fazer algo contra mim. Peguei meu celular discretamente e mandei mensagem pra minha mãe chamar a polícia. Depois que ele ejaculou no chão, ele desceu”, recorda-se constrangida da experiência.

Gabriela não está sozinha nessa. O depoimento da analista é parecido com o da estudante Débora (nome também fictício), de 18 anos. Na semana passada, na manhã do dia 17, ela foi importunada sexualmente por um homem de 25 anos que ficou esfregando as mãos na calça enquanto a encarava.
Segundo informações do boletim de ocorrência registrado na Central de Flagrantes, o suspeito também passou a língua na lata de cerveja que estava segurando, riu da cara da jovem e foi retirado do veículo por outros passageiros.
Não satisfeito, depois que Débora desceu no ponto desejado, o desempregado H.R.S. a seguiu na rua. Uma mulher que estava observando a ação conseguiu contê-lo até a chegada da Polícia Militar. Ele foi detido, encaminhado até a delegacia onde foi ouvido e liberado.
“Nós somos cristãos e rezamos para que Deus tenha misericórdia desse moço. Minha filha é uma menina muito delicada, nunca sai sozinha, somos sempre nós que a levamos de carro nos lugares que ela precisa. Ela sempre me manda mensagem avisando onde está. Naquele dia ela precisou usar o ônibus. É lamentável porque estava estudando, estava usando um recurso que deveria garantir a proteção dela”, desabafou I.A.S., mãe da vítima, que preferiu que a filha não desse entrevista para preservar a segurança da jovem.
Débora e Gabriela fazem parte das 97% das mulheres brasileiras que dizem já ter sido vítimas de assédio em meios de transporte.
Os dados fazem parte de uma pesquisa dos Institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, em parceria com uma empresa de transporte por aplicativo, divulgada recentemente. Ainda de acordo com o levantamento, outras 71% conhecem alguma mulher que já sofreu assédio em público.

Dhoje Interior
Segundo a delegada Dálice, muitas vítimas não registram queixa. Foto Arquivo DHoje

Em Rio Preto, não há levantamento estatístico sobre a situação. Segundo a delegada Dálice Aparecida Ceron, da DDM (Delegacia de Defesa da Mulher), muitas vítimas deixam de registrar o boletim de ocorrência por medo ou constrangimento.
“Existe um pudor, a vergonha e o medo muito grande de denunciar os casos à polícia. Essas situações provocam um sofrimento muito grande para as vítimas, mas é preciso enfrentar com valentia”, encorajou.
A delegada titular da DDM orienta as mulheres que passam pelo constrangimento e ressalta a união feminina para combater o crime.
“É importante que as mulheres estejam atentas a tudo o que acontece ao redor. Essa cumplicidade entre as mulheres deve ser fortalecida pelas mesmas. A vítima deve sinalizar com olhares, gestos e até mesmo um simples toque na orelha ou passar de mão nos cabelos. Os motoristas dos coletivos urbanos devem estacionar o transporte público em frente à delegacia mais próxima imediatamente. Só assim a polícia consegue prender o autor em flagrante”, ressaltou.
Em nota, a Ouvidoria do Transporte Coletivo de Rio Preto informou que os motoristas são orientados a acionar a Polícia Militar toda vez que há denúncia de casos de assédio nos coletivos urbanos.
O consórcio armazena as imagens do veículo e disponibiliza para a posterior investigação.
A Guarda Civil Municipal destacou que mantém rondas periódicas no Terminal e uma central de monitoramento de onde é possível acompanhar a movimentação no local. Toda vez que há algo fora da normalidade, uma viatura é acionada e vai até o local.

Redação Jornal DHoje Interior – Karolina GRANCHI