Conexão Capivara: ‘Não me permito sentimentos negativos’

Foto Guilherme Batista

Em busca do terceiro mandato consecutivo na Assembleia Legislativa, o deputado estadual Orlando Bolçone (PSB) segue dando uma boiada inteira para não entrar em bola dividida.
Questionado sobre a postura de vereadores de seu partido que decidiram trabalhar para a candidatura de um adversário, ele filosofou. “O homem se curva diante do poder, mas se ajoelha diante da bondade.”

No campo ideológico, Bolçone se classifica como “centro-esquerda”. Posiciona-se contra privatizações de setores estratégicos como Petrobras e Correios, contra a liberação do uso de armas para a população, contra a redução da maioridade penal e favorável à política de cotas para negros em universidades públicas, por exemplo.

Dhoje Interior

Mas ao mesmo tempo faz defesa contundente de Geraldo Alckmin (PSDB) à Presidência da República, presidenciável que tenta justamente se posicionar como alternativa a Jair Bolsonaro (PSL) no chamado campo azul, alinhado ao espectro “centro-direita”. Confira abaixo, na entrevista concedida à coluna na manhã desta terça (4), por que ele acha que merece um novo voto de confiança.

O que chega para o cidadão comum do trabalho do deputado estadual acaba sendo o que ele destinou às cidades e instituições por meio de emenda parlamentar. A função do deputado estadual se resume a isto?
Orlando Bolçone – Não. O trabalho do deputado estadual basicamente fica em três frentes. Ele legisla, ou seja, ele faz leis que possam ajudar a criar políticas públicas, ajudar a população, ajudar a região. Corrigir e avançar em diversos projetos do Estado. Segundo: ele fiscaliza, acompanha a aplicação de recursos. Eu, por exemplo, sou vice-presidente da Comissão de Finanças, Orçamento e Planejamento. Eu tive a honra de ser o relator do PPA, o Plano Plurianual que culmina no ano de 2019. São quatro anos onde se trabalhou com recursos de R$ 960 bilhões de reais, que é a movimentação do Estado de São Paulo nesse período, visto que passa, inclusive, de um governo para o outro, dentro de um conceito de continuidade. Então você fiscaliza. Você acompanha as obras públicas. Eu participei das comissões de CPI dos pedágios, participei da CPI dos acidentes ferroviários. E a terceira atribuição do deputado é a representação. Nessa você atua com as emendas, mas emendas eu acho que é a menor parte.

Mas é a que acaba aparecendo mais, não?
Bolçone – Acaba. Mas o deputado não pode ficar só nisso. Eu diria que ele reduz o mandato. Eu fui o deputado que mais liberou emendas nos últimos dois mandatos. Isso atestado pelo jornal Estado de São Paulo, que fez o levantamento. Mas ainda assim, eu intermediei uma dívida de mais de 30 anos entre Funfarme\Famerp com a Santa Casa. E nós conseguimos resolver através de uma negociação. É uma dívida que estaria nos números atuais em mais de R$120 bilhões. Passamos por todas as secretarias. É uma construção que se fez aí. Então o governador enviou um Lei para a Assembleia que autorizou o Estado a permutar uma área, quitando totalmente a dívida, e o HB pode respirar tranquilo, a Famerp respirar tranquila e a Santa Casa passou a ter seu patrimônio.

Os deputados estaduais decidiram, em função do período eleitoral, reduzir o número de sessões para um único dia da semana. O senhor acha correto os deputados diminuírem suas atribuições porque estão em campanha?
Bolçone – Em primeiro lugar, eu não diminui minhas atribuições. Tão logo eu encerre esta entrevista eu estou me dirigindo para São Paulo para participar da sessão. E eu, por exemplo, tenho audiência toda semana e mantenho as minhas audiências nas secretarias de Estado. Vou, por exemplo, dar sequência a tratativas na Secretaria de Planejamento, para destinar um prédio de Mirassol doado no passado pelo governo do Estado para a Opas, uma organização como a nossa Arprom que acabou se extinguindo. Vou dar sequência nesse trabalho. Então essa decisão não mudou a minha rotina.

Os vereadores Peixão e José Carlos Marinho são do partido do senhor, mas estão apoiando um de seus adversários, o deputado Vaz de Lima (PSDB). Como fica essa situação?
Bolçone – Eu não faço patrulhamento. Tem uma frase que eu gosto muito de um filósofo chamado Alexander Gottlieb que diz que o homem se curva diante do poder, mas se ajoelha diante da bondade. Então eu não vou me impor. Nunca comuniquei para as instâncias partidárias, tenho respeito e gozo, inclusive, da amizade dos vereadores.

Por que, na avaliação do senhor, eles se voltaram contra dois nomes do partido nestas eleições: o Valdomiro Lopes, candidato a deputado federal, que eles também não apoiam, e o senhor? É consequência da última eleição municipal?
Bolçone – Não. Eu fui muito solidário a eles, que podem testemunhar.

O senhor se sente traído?
Bolçone – Não, não, não. Eu não me permito sentimentos negativos. Isso é princípio de vida. Ainda no último sábado eu estive com o governador Márcio França (PSB) e discutimos isso. Esperamos que, passado esse período, possamos reconstruir o sistema partidário, onde os princípios maiores vão ter de permanecer. As coligações deixarão de existir e, aí, os partidos terão uma essência.

O senhor disputou duas vezes como prefeito de Rio Preto, inclusive em 2016. A prefeitura continua no radar?
Bolçone – Não. Eu vou falar com muita humildade e serenidade do meu sentimento de dever cumprido. Quero avançar mais ainda e pegar os próximos grandes desafios. Por exemplo, a questão da Floresta do Noroeste Paulista. Só os meus netos e os filhos dessa geração vão entender a importância. Uma área verde de quatro milhões de metros quadrados entre Rio Preto e Mirassol. Nem os técnicos perceberam o seguinte: dois terços da água de Rio Preto, e mais ou menos isso em Mirassol, são obtidos de poços artesianos ou poços profundos. E para se ter essa água, é preciso área verde e solo permeável. Então a água que bebemos é em parte água da chuva que cai sobre a Floresta do Noroeste Paulista, que vai chegar até o aquífero Guarani. Consegui intermediar isso como deputado. E eu me sinto muito bem fazendo esse trabalho. De novo, eu quero fazer ainda um mandato melhor do que os que eu já fiz. E olha que eu acho que fiz bons mandatos. O primeiro, se vocês lembram, eu fui o último e tive 31.274 votos. No segundo, eu tive o maior crescimento da legislatura na Assembleia Legislativa, com 76.909 votos.

O PSB não fechou apoio oficial na disputa para a Presidência. Em quem o senhor vai votar para presidente?
Bolçone: Eu vou votar no ex-governador Alckmin. Para esse momento do País, precisamos de uma pessoa que tenha experiência, que tenha tranquilidade, porque os próximos quatro anos vão ser difíceis. É a pessoa que eu vejo com credibilidade e respeito internacional. Então eu voto nele.

Em quem o senhor não votaria de jeito nenhum para a Presidência?
Bolçone – Eu penso sempre do lado positivo. No momento atual eu voto no governador Alckmin sem nenhuma dúvida. Acho que você teria que fazer uma análise por exclusão e só deveria ser feita se você não tivesse em quem votar.
Quanto o senhor pretende gastar na sua campanha e de onde virão esses recursos?
Bolçone – A gente sempre coloca o limite máximo e fica na expectativa de onde conseguir recursos, o que também é uma surpresa. Na eleição passada, fui um dos deputados eleitos com o menor gasto, de R$ 300 mil. Eu trabalho neste ano com o horizonte de R$ 500 mil, mais ou menos, acho que vai ser um bom valor.

Quanto o PSB vai investir na campanha do senhor?
Bolçone – Eu espero o reconhecimento pelo trabalho. Mas não tenho isso fechado. Eu também não faço esse tipo de negociação. Por que, primeiro, nós temos um projeto maior que é o projeto da eleição do governador Márcio França. E eu tenho convicção e falo do fundo do meu coração: é uma oportunidade de continuarmos tendo um governador que em quatro meses já demonstrou o seu vínculo com os municípios, com o Interior. É uma pessoa com forte vínculo social, pessoa de histórico de família e esse é o projeto maior.

Quanto o senhor vai gastar do seu patrimônio na sua campanha?
Bolçone – Inicialmente coloquei R$ 20 mil. Na campanha passada para deputado foi perto de R$ 100 mil. Para prefeito, mais de R$ 200 mil. Porque foi sendo necessário. Você assume compromissos e depois a palavra tem que ser levada muito a sério, tem que cumprir.

‘Uma das principais bandeiras que eu defendo é o desenvolvimento econômico regional. Eu queria que o senhor falasse um pouco sobre isso. Se o senhor é a favor ou contra a transformação da nossa região em uma região metropolitana, envolvendo aí 30 municípios. O que o senhor pensa sobre isso?’ (pergunta do candidato Edinho Filho a Bolçone)
Bolçone – Esse é um tema que vem sendo discutido muito na Assembleia Legislativa e tem todo um histórico. Tecnicamente a nossa região teria uma característica de Aglomeração Urbana, que fiz um projeto. O deputado João Paulo Rillo (Psol) fez um projeto de Região Metropolitana. E nós combinamos de forma ética que caminharíamos juntos em torno daquele que fosse à frente, um apoiaria o outro. O de Região Metropolitana caminhou e eu votei, trabalhei. Participei de todas as reuniões, todas as votações, todas as manifestações. Eu fui, inclusive, à Comissão de Administração Pública representar meu partido para, inclusive, dar número para poder votar a favor. Eu acho que é uma construção que fatalmente nós vamos fazer no próximo mandato pela característica, inclusive, do próximo governador, que espero que seja o governador Márcio França.

Quais são as suas propostas para o eleitorado jovem, esse eleitorado que está insatisfeito, buscando mudanças e com muito pouca confiança na política. O que há de novo a oferecer?
Bolçone – Primeiro você tem que levar em questão a confiança. Eu sou professor e eu estou permanentemente junto com os jovens. Eu leciono desenvolvimento sustentável e políticas públicas. Então, primeiro, confiança é fundamental. E como você consegue a confiança? Através do exemplo. Então você não pode falar uma coisa e fazer outra diferente. Tem que dar exemplo. Eu atuo na comissão que constrói o futuro do País. Sou presidente da Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação. É a comissão que cuida do Sistema Paulista de Parques Tecnológicos, como o que temos aqui. Além deste, temos em São Carlos, São José dos Campos, Botucatu, Sorocaba, Ribeirão Preto. O objetivo é construir e gerar empregos justamente para a população jovem. Emprego de qualidade.

O senhor se coloca hoje mais no campo da esquerda ou da direita?
Bolçone: Centro esquerda.

Vamos para um rápido teste, então?
1) É contra ou a favor do Bolsa-Família?
Bolçone: A favor.
2) Política de cotas para negros em universidades públicas?
Bolçone: Também a favor.
3) Universidade pública gratuita?
Bolçone: A favor. Esses programas são importantes até o momento em que sejamos um País que não tenha desigualdade. Até então, nós temos que fazer políticas públicas afirmativas para reduzir as desigualdades.
4) Redução da maioridade penal?
Bolçone: Totalmente contra.
5) Privatização da Petrobras?
Bolçone: Sou contra. Além da Petrobras, sou contra privatizar Banco do Brasil, Caixa Federal e Correios, que são estratégicos.
6) Porte de arma para o cidadão comum se defender?
Bolçone: Sou totalmente contra, também. As experiências demonstram que não diminui a violência.

Porque o senhor acha que merece o voto de confiança do eleitor?
Bolçone: Quero ser candidato para continuar esse trabalho. Nós vencemos muitos desafios. Nós vencemos, por exemplo, a dívida histórica da Funfarme\Famerp com a Santa Casa, nós criamos a Floresta do Noroeste Paulista, que tem que ser toda concretizada a sua instalação e vai mais alguns anos. Quero continuar desenvolvendo as políticas na área de tecnologia. Quero continuar nossos trabalhos com as entidades assistenciais, como as Apaes, os hospitais filantrópicos. A atenção com a pessoa que é dependente químico, para que seja tratada como uma questão de saúde pública. Quero poder estar sempre disponível, sempre junto da população. E promover, em especial, o desenvolvimento regional e social voltado para as pessoas mais simples e mais humildes, que são as que mais precisam.