Tribunal do Júri condena assassino de missionária a 36 anos de prisão

Réu, que já havia cumprido pena por estuprar enteada de 12 anos, matou missionária de forma bárbara e cruel (Foto: Cláudio Lahos)

O Tribunal do Júri condenou o réu Francisco Lopes Ferreira, de 66 anos, a 36 anos de prisão em regime fechado por ter brutalmente assassinado a missionária Simone Moura Facini Lopes, de 31 anos. O crime, que causou comoção regional e mobilizou a imprensa, aconteceu no dia 12 de março de 2017, na chácara Santa Helena, no Jardim Planalto, na região Norte de Rio Preto.

Simone era integrante da Igreja Adventista do Sétimo Dia e atuava como voluntária, dando aulas de alfabetização para Francisco. Segundo depoimento dele à polícia na época, o criminoso estava apaixonado e havia se declarado em uma carta que escreveu para a professora. O manuscrito estava guardado com uma foto da vítima com os dizeres: “Eu gosto da Simone; a Simone é gostosa; eu amo a Simone”.

Após a declaração, a missionária teria dito que não iria mais ao local para ensiná-lo. No dia do crime, Francisco a golpeou com uma marretada na cabeça, a acorrentou na cama, passou as mãos em suas partes íntimas e a matou asfixiada. O corpo da mulher foi encontrado seminu e coberto de sangue.

Depois de matá-la, o idoso fugiu levando a calcinha da vítima no bolso e foi encontrado por populares, oito dias depois, nos fundos de uma empresa nas proximidades do bairro Distrito Industrial. Ele estava debilitado e mal conseguia se levantar, foi encaminhado para um hospital e confessou a autoria. A conjunção carnal não foi consumada porque Francisco não teve ereção.

“Nas fotos em que ele estava com a família da vítima, em uma festa de aniversário que ela organizou para ele, não vemos um idoso debilitado. Vamos um homem forte e com a saúde aparentemente normal. A forma que ele matou esta missionária, que queria ficar mais perto de Deus fazendo caridade, mostra o total desprezo que ele tinha por mulheres”, afirmou o promotor Marcos Antônio Lelis Moreira, do Ministério Público.

Francisco entrou na sessão com o corpo curvado, mancando e arrastando as correntes das algemas pelo chão. O réu já havia cumprido pena de 11 anos de prisão por ter estuprado a enteada de apenas 12 anos, em São José dos Campos.

Ainda de acordo com o representante do Ministério Público, Francisco abusava sexualmente da enteada e do irmão dela, filhos da mulher com quem ele havia se casado. Ele os ameaçava de morte caso contassem para a mãe. Certa vez ele trancou a mãe e os filhos em um cômodo da casa, os ameaçou com uma marreta e estuprou a menina no quintal.

Para o advogado João Dias, escalado pela defensoria pública e que representou a defesa do réu, Francisco deveria ter passado por exames para atestar possíveis problemas mentais. “Ele já havia cometido um crime da mesma espécie, teria que ser analisado para sabermos se deveria ir para a cadeia ou para o manicômio, mas a Justiça negou meu pedido”, justificou-se.

Ainda segundo o advogado, a vítima teria facilitado a conduta de Francisco que resultou no assassinato. “A Simone sabia que ele havia cumprido pena por estupro, mas proibiu que contassem isso ao marido dela, ela escolheu continuar visitando o Francisco mesmo sabendo do risco que estava correndo. Isso me faz questionar por qual motivo ela preferia ficar horas se dedicando em cuidar do Francisco do que do filho dela, que tinha 11 anos”, afirmou.

Ao ser ouvido durante a sessão, o marido de Simone, César Augusto Lopes, disse que havia encontrado com Francisco pessoalmente duas vezes e que soube do conhecimento de Simone em relação ao passado criminoso do réu apenas no dia do enterro dela.

“Ela não queria que me contassem sobre o passado dele. Ela era uma criança, não tinha maldade no coração e não via maldade nas pessoas. Ela queria ganhar uma estrelinha no céu, ficar mais perto de Deus”, emocionou-se.

Simone ia à casa do criminoso para lavar, passar, cozinhar e tratar dos animais da chácara. Ela chegou a providenciar uma festa de aniversário para Francisco e pagar em torno de R$ 500 em uma dentadura para presenteá-lo.

“O cérebro humano tem grande dificuldade em aceitar pessoas más. Este crime nos mostra que o mal existe. Simone foi assassinada de forma bárbara pelo homem que ela estendeu a mão”, disse a juíza Gláucia Vespoli dos Santos Ramos de Oliveira, quando pronunciou a sentença.

Emocionada com o resultado da sentença, a sogra de Simone, Vilma Lopes, relembrou a memória doce da nora. “Era uma nora filha, ingênua, a infância nunca saiu dela. Era muito gostoso estar junto com ela e a humildade dela era muito grande. Eu esperava mais, mas temos que aceitar”, lamentou.

Ainda de acordo com Vilma, o filho da vítima passou por tratamento psicológico, mas se tornou um adolescente fechado e triste. “Ele e o pai enfrentam uma depressão”, relatou.
Francisco Lopes Ferreira foi condenado por homicídio quintuplamente qualificado com base em cinco qualificadoras – motivo torpe, meio cruel, traição e surpresa, recurso que impediu defesa da vítima e feminicídio. Ele retornou ao presídio de Iaras/SP, onde estava preso.

Por Karolina GRANCHI 

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