Profissões que resistem ao tempo e a modernização

"Enquanto as músicas românticas existirem sempre terão pessoas que vão cultivar a história" - Diz Leomar Lacerda

Barbeiro, alfaiate, sapateiro, marceneiro, relojoeiro, afinador de piano e entre outros. Estas são algumas das profissões que resistem ao tempo e aos avanços da tecnologia. São trabalhos feitos à mão e com muito amor e dedicação dos profissionais, sempre mantendo a velha tradição. Em muitos casos, os instrumentos de trabalho os acompanham desde os primeiros aprendizados até os dias de hoje, mesmo com a vinda da tecnologia.

"Comecei ainda criança, ajudando em uma sapataria e lá aprendi a fazer tudo" - Diz Orlando Bachi, 90 anos sapateiro
“Comecei ainda criança, ajudando em uma sapataria e lá aprendi a fazer tudo” – Diz Orlando Bachi,
90 anos
sapateiro

Esse é o caso do sapateiro Orlando Bachi, 90 anos, que exerce a profissão desde que tinha 10 anos de idade. Com uma loja há 40 anos na rua Marechal Deodoro, o aposentado conta que sempre trabalhou na área e se orgulha da profissão que escolheu para a vida.
“Comecei ainda criança, ajudando em uma sapataria e lá aprendi a fazer tudo, desde concerto à confecção de sapatos e botas. Na época todo mundo procurava as sapatarias para fazer um calçado novo, mas com o passar do tempo e com o surgimento das fábricas especializadas na confecção, isso foi se perdendo. Hoje a sapataria é vista somente para conserto, mesmo assim, a procura é muito pouca.”

Segundo ele, há 40 anos, nem todas as pessoas tinham a possibilidade de comprar sapatos com frequência, hoje em dia, isso se tornou comum, a mão de obra diminuiu com a chegada das máquinas e assim, se tornou cada vez mais fácil trocar um produto pelo outro. “Ninguém vai gastar R$ 40 em um conserto de um sapato, se ele pode comprar um novo. Além disso, já não é em todo o lugar que encontramos peças para o uso e quando encontramos é bem mais caro. Hoje em dia, as formas de pagamento com o uso do cartão, também tem sido um dos atrativos dessa migração para os produtos novos”.

Depois de todos esses anos dedicando a vida a profissão, ele tem repassado a sua experiência para um funcionário da loja, que deve continuar no trabalho, no ano que vem. “Essa é uma profissão que infelizmente vai acabar em breve, ninguém mais dá mais valor a produtos usados, é mais fácil e benéfico um novo do que velho e assim que vai ser”, concluiu.

 

Técnico de máquina de escrever resiste à profissão há 42 anos

MAT MAQUINA DE ESCREVER - FOTO RAPHAEL COSTA (11)Para uma geração que aprendeu a buscar e transmitir informação arrastando os dedos em telas de celulares e tabletes, ainda existe quem prefira a moda antiga de se comunicar através da máquina de escrever. Apaixonado pela profissão, Jorge Carlos da Silva, de 57 anos, trabalha há 42 anos, como mecanógrafo, técnico que conserta máquinas de escrever, em sua loja, no bairro Boa Vista, em Rio Preto.

Ele conta que a paixão começou ainda na adolescência, quando começou a trabalhar em uma assistência técnica, onde hoje é a sua loja, ainda na década de 70. “Na época a máquina de escrever e as calculadoras antigas eram bastante usadas, então sempre teve muito serviço e fui aprendendo aos poucos como arrumar, trocar a tinta e entre outras coisas. Na década de 80, meu patrão resolver vender o ponto, foi então que eu e um amigo resolvemos assumir a loja. Atualmente trabalha eu e o meu filho”, conta.

Entre o público que busca assistência técnica na área, está empresários, donos de escritórios de contabilidade e até advogados. “Mesmo depois de quase 50 anos de criação ainda é fácil encontrar peças espalhadas por empresas e até bancos. Mesmo muitas vezes usada como artigo de decoração por falta de manutenção, é cada vez mais fácil encontrar peças e até tintas para serem substituídas por novas”.

 

A arte de afinar pianos

PIANOS - FOTO RAPHAEL COSTA (2)Mesmo acreditando que a profissão pode acabar nos próximos anos, ele tem influenciado o filho, Cleber Silva, 40 anos, seu companheiro no serviço desde que tinha 15 anos de idade. “Acredito que a profissão deve continuar por alguns anos, pois a demanda ainda é grande. Muitas pessoas nos procura interessados na compra da máquina”.

Leomar Leon Lacerda, 58 anos, é outro exemplo de quem acredita na profissão e segue na assistência técnica, manutenção e afinação de pianos. Os 35 anos dedicados aos instrumentos musicais, Leomar afirma que tudo começou com a iniciativa de um amigo que tinha uma loja musical em Rio Preto. De tanta insistência, ele acabou indo a São Paulo, se formou e voltou a trabalhar na cidade. Desde então, nunca mais parou. O músico afirma que o perfil do público que busca pelos seus serviços vem mudando de alguns anos para os dias atuais. Antigamente, os pais influenciavam na decisão dos filhos de aprenderem algum tipo de instrumento. Hoje, os jovens o procuram por iniciativa própria e, os pais de anos atrás que hoje já estão na faixa etária dos 60 anos, voltam a se interessar pela música. “Nos dias atuais existem dois tipos de jovens: um totalmente desconectado e o outro preocupado com tudo e antenado na arte e na política”.

Legado
O trabalho é feito por ele, pelo filho e pelo genro. Ele conta que o filho tem 25 anos, mais ou menos a idade em que ele começou a se interessar pela música, e acredita que esse trabalho deve continuar. “Essa é uma das coisas que mais gosto de fazer. Pode não ser muito rentável, mas me faz ver que tudo vale a pena.”

Mesmo com o avanço da tecnologia, aulas de piano e até mesmo de afinação pela internet, não vão fazer com que a magia musical se transforme apenas em máquinas. “Vai sempre existir um grupo de pessoas que prefere pedalar do que acelerar; enquanto as músicas românticas existirem sempre terão pessoas que vão cultivar a história.”

 

Por Letícia CARDOZO

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