Preguiça de ler e falta de tempo causam proliferação de “Fake News”, que pode render processo

A ânsia de participar de todos os assuntos, sem o mínimo conhecimento, querer ser o primeiro a avisar toda a família ou amigos curtindo ou compartilhando notícias falsas e espalhando elas pelas redes sociais, como se aquilo fosse verdade, pode custar caro. Segundo Fernando Martins Silva, coordenador de pós-graduação no Senac e advogado na área de direito digital, as “fake news” (notícias falsas) podem render processos por calúnia e injúria, além de ser um crime, mesmo que virtual.

“A tecnologia está em todas as áreas da nossa vida e a proliferação do “fake news” aumenta porque temos uma dificuldade de checar as informações. Tomamos qualquer informação como verdade e acabamos compartilhando aquilo. Questões polêmicas geram isso nas pessoas. A necessidade de participar, expor a opinião sobre determinado assunto sem, às vezes, não ter nenhum conhecimento, pode voltar-se contra a própria pessoa que pode estar cometendo um crime, mesmo sem saber”, explica o advogado, que orienta.

“A pessoa tem que refletir antes de curtir ou compartilhar. Diante da dúvida fique quieto, cheque primeiro. Se a dúvida ainda permanecer, pare. Assuntos polêmicos, como política, que inflama muito as pessoas, causam isso”, afirma.

De acordo com Fernando Martins, a falta de tempo das pessoas e até a preguiça de clicar para verificar uma notícia, que normalmente vem com o título chamativo, não é uma prática somente da era digital.

“Muito do que está acontecendo hoje já existia há muito tempo. O “fake news” sempre existiu, mas a tecnologia deu voz para todo mundo se manifestar e expor sua opinião. A impressão que se tem é que se a pessoa não falar nada ela estará fora do mundo, distante do que seus amigos, ou conhecidos, estão debatendo naquele momento. Pelo fato da diminuição de tempo, a pessoa acaba sentindo a necessidade de chamar a atenção a todo o momento e essa necessidade de opinar acaba causando a ele uma série de riscos”, diz.

CRIMES E CONSEQUÊNCIAS

Entre os riscos citados pelo especialista, até justa causa já foi aplicada por conta de “fake news”. “A rede social está sendo utilizada pelas empresas para dar justa causa. Já tivemos casos de funcionários que compartilharam notícias falsas contra a própria empresa onde trabalham e foram demitidos posteriormente por conta disso”, afirmou.

Outro ponto levantado por Fernando Martins é o excesso de exposição familiar nas redes sociais. “Se questionar a polícia, por exemplo, vamos encontrar uma série de assaltos, que o bandido entra na casa da pessoa depois que ela publicou algo dizendo que estava viajando, ou seja, dizendo que não tem ninguém em sua casa. Aquilo vira um convite, um alvo fácil. No “fake news” pessoal, dependendo daquilo que compartilho, as pessoas podem ser minhas amigas, ou não. Nós mesmos é que criamos o nosso “fake news”, porque outras pessoas podem usar aquilo que compartilhamos, ou postamos, de forma que pode nos prejudicar”, complementou.

Segundo o advogado, o maior desafio diante dos crimes virtuais é a aplicação da legislação. “Poucas pessoas sabem que temos o direito de publicar a apagar aquilo que dissemos na internet. Isso é público por algum tempo, mas se a pessoa quiser retirar ela tem esse direito. A internet não mais terra sem lei. O crime é aplicado em cima do comportamento da pessoa. Só muda o meio como aconteceu. Porém, a grande dificuldade que temos é localizarmos o território, onde está, onde está o servidor que saiu aquele possível crime. As pessoas precisam entender que liberdade de expressão é um direito constitucional garantido, o que não podemos fazer é ofender o outro”, finalizou.

Por Marcelo Schaffauser

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