O agressor não tem cara

Claudio Lahos

O ditado popularmente conhecido “O perigo mora ao lado”, às vezes, pode estar mais próximo e dentro de casa. Casos de agressões velados e nunca relevados podem ser vividos por anos pela vítima. Com a chegada das festividades de fim de ano, segundo informações fornecidas pela Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Rio Preto, as agressões contra as mulheres aumentam neste período, a ingestão de bebida alcóolica é a principal aliada para culminar no crime.  “A gente observa um aumento das denúncias, entendo que os problemas de consumo excessivo de drogas e de bebida alcóolica acarretam conflitos familiares. Mas o real motivo mesmo é o machismo exacerbado, essa cultura que ainda é muito forte, de domínio, de mando”, afirma a delegada da Delegacia de Defesa da Mulher Dálice Aparecida Ceron.

Somente em 2018, de janeiro a 30 de novembro, foram registrados 644 lesões corporais contra mulheres, 983 ameaças, 102 crimes contra honra (difamação, calúnia e injúria) e 12 assassinatos. “O indivíduo que se apresenta bonzinho, às vezes, carrega uma fúria. É preciso cuidado, então não existe uma receita, a orientação é sempre denunciar”, explica a delegada.

Segunda a psicóloga Francini de Araújo Daniel, as agressões evoluem de gravidade e intensidade com o passar do tempo. “Começa de forma bem sutil de maneira verbal, às vezes, até imperceptível para maioria das vítimas e isso vai evoluindo com o passar do tempo até chegar a uma agressão mais grave, que seria a agressão física e que pode ser percebida até por outras pessoas”.  A profissional pondera que as agressões iniciais chamadas de psicológica “É um xingamento, uma humilhação, uma ameaça, uma tentativa de controle, um ciúme excessivo, um comportamento com os próprios filhos do casal para poder intimidar a vítima e depois evolui para uma agressão física, nesta fase geralmente, começa com um tapa, um beliscão, um empurrão e evolui para uma lesão corporal mais grave até em casos extremos a morte”.

Estar sempre alerta é importante para identificar o grau e dano que a ação do outro indivíduo tem causado. Segundo a especialista, a mulher antes de ser uma vítima fatal, ela viveu anos de agressões. “As vítimas que são assassinadas, já viveram em torno de dois a cinco anos dentro de um relacionamento onde havia agressões físicas e psicológicas até evoluir para algo mais grave, a morte”, afirma a psicóloga.

O medo da denúncia gera um círculo vicioso de agressões. “O senso comum baseado na ideia de que a mulher apanha porque ela gosta ou julgá-la que fez algo para ter sido agredida são ideias que foram construídas ao longo do tempo e baseadas em fatores culturais, isso demonstra de como há a diferença entre gênero homem e mulher, que acaba havendo uma supremacia do homem e sua hipervalorização, o que não ajuda porque constrói-se a ideia de que a mulher ajuda a situação que ela vivência de agressão, o que não é verdade”, explica Daniel.

Há várias situações que mantém a mulher no relacionamento abusivo: dependência financeira, dependência emocional, ameaça contra a própria vítima ou contra a família. “É preciso ter a desmistificação de que a mulher a responsabilidade da mulher pela agressão que é exposta e submetida, mas que existem múltiplos fatores complexos que mantém ela dentro desse ciclo abusivo e violento”, conta.

O apoio social e familiar dará o suporte para a vítima sair da situação violenta. “O amparo é necessário, pois com esse amparo é mais fácil para a mulher sair desse relacionamento, é mais fácil buscar ajuda e verbalizar o que está acontecendo”, finaliza.

Por Mariane DIAS

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