Número de feminicídios em 2019 já é igual ao do ano passado

A mulher que não denuncia e mantém ou reata a relação pode sofrer novas investidas e até ser vítima de feminicídio, afirma a delegada Dálice Ceron

Três casos de violência registrados recentemente contra mulher reacendem a questão sobre o feminicídio em Rio Preto e região. Nos últimos anos houve aumento deste tipo de crime, conforme revela estatística da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM).

Segundo dados divulgados pela DDM, no primeiro semestre de 2019 foram constatados três homicídios e duas tentativas. No ano passado, foram três mortes e quatro tentativas de homicídio. Em 2017, apenas um caso de feminicídio foi consumado em Rio Preto, além de cinco tentativas.

Segundo a delegada Dálice Aparecida Ceron, da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), o aumento do feminicídio tem relação direta com os valores socioculturais da sociedade.

“São costumes que precisam ser derrubados, tais como o machismo exacerbado. O homem aprende que a violência é normal e a mulher é educada para ser submissa. A ideia de machismo fragiliza a mulher que entende que deve obediência ao homem, esses extremos que alimentam a diferença. É necessário mudar a educação base, os valores que a mulher tem e a dificuldade em se impor”, observa.

O feminicídio pode atingir diversas vítimas: relacionamento íntimo, da convivência doméstica ou em razão de discriminação à mulher. “A mulher que sofre violência doméstica, que não denuncia e mantém ou reata a relação pode sofrer novas investidas e até ser vítima de feminicídio. O motivo pelo qual elas permanecem nesta situação é por dependência emocional e ou financeira. Em uma pesquisa de campo que a DDM realizou, a mulher vítima de agressão tem dificuldade em romper o vínculo, seja por solidão ou medo de que a denúncia significa mais risco”, comenta a delegada.

Apesar do levantamento da DDM apontar os feminicídios registrados no distrito policial, Dalice explicou que os dados não traduzem a realidade de Rio Preto.

“A Delegacia de Investigações Gerais (DIG) também registra os casos, tanto de autoria desconhecida como os de autoria conhecida e mesmo quando o inquérito é finalizado os casos não chegam até a Delegacia da Mulher”, informa.

De acordo com a secretária dos Direitos e Políticas para Mulheres, Maureen Leão Cury, as mulheres estão mais informadas sobre a importância em denunciar. “A partir da campanha do Feminicídio, realizada em alusão ao Dia Internacional da Mulher, registramos aumento de mulheres procurando ajuda e os serviços do município. A mulher vítima de violência está em constante situação de vulnerabilidade. O receio em denunciar ocorre principalmente a questões culturais, muitas vezes esta mulher tem dependência econômica e afetiva e evita denunciar o parceiro. Outro fator que impede muitas vezes que a denúncia aconteça é o machismo enraizado na sociedade brasileira e a naturalização da violência. Porém há um avanço acontecendo, pois as mulheres estão conquistando espaços na sociedade que antes eram majoritariamente masculinos”, afirma.

Para a psicóloga Josana Kiffer Erlacher, normalmente quando as vítimas procuram auxílio as agressões já são recorrentes. “Elas possuem dificuldades de se expor com medo de julgamentos sociais, baixa autoestima e por se sentirem desprotegidas quanto a novas ameaças dos parceiros. O primeiro passo é acolher essas mulheres para que se fortaleçam de que não são merecedoras dessa condição, pois muitas trazem extrema culpa e justificativa para a ação do parceiro na relação abusiva”, diz.

Segundo Josana, buscar orientação da justiça para se preservarem e serem recolhidas do contexto ameaçador é de extrema importância. “É muito comum mulheres que se mantêm em silêncio por não terem para onde ir caso se separem de seus parceiros. O acompanhamento psicológico nesses casos é extremamente necessário para que se recupere o amor por si próprio e se sintam merecedoras de amor e respeito”, orienta.
Para as mulheres que estão passando por violência doméstica e precisam de orientação, a Secretaria dos Direitos e Políticas para Mulheres, após escuta qualificada feita pela equipe técnica do Centro de Referência e Atendimento à Mulher (CRAM), e conforme o desejo e autonomia da mulher são encaminhados para os serviços de garantia de direitos, como a DDM, Defensoria Pública e rede de atendimento do município conforme a necessidade apresentada.

Outra medida de proteção é a Casa-Abrigo, um programa da Secretaria dos Direitos e Políticas para Mulheres em favor da mulher que sofre violência doméstica e familiar. “É um local sigiloso, onde a mulher e seus filhos menores têm segurança, acompanhamento psicossocial e jurídico. Assim são orientadas através de cursos, palestras e grupos de reflexão que ajudam a mulher melhorar a autoestima, conquistar autonomia, rompendo assim o ciclo de violência. Os filhos menores que acompanham suas mães na Casa Abrigo têm acesso à escola e todos os atendimentos necessários na rede de proteção do município: saúde, educação, assistência social, emprego e trabalho etc. As mulheres são muitas vezes orientadas quando desejam retornarem à sua família/ cidade de origem”, explica Maureen.

Recentemente o município conseguiu uma antiga reivindicação: a instalação do Anexo de Violência Doméstica no Tribunal de Justiça (TJ).

“O município está avançando nas questões sobre a violência contra a mulher, pois a instalação do Anexo contribui para dar celeridade às ações. Já o trabalho realizado pelo Município com a Secretaria dos Direitos e Políticas para Mulheres com psicólogas e advogadas fortalecem as mulheres vítimas de violência e criam condições para que elas retomem as suas vidas”, finaliza a delegada.

Por Suelen PETEK

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