Novo Governo: ‘Lua-de-mel’ deve durar seis meses, afirma cientista político

O tempo para que o capital político do presidente Jair Bolsonaro seja preservado é de seis meses. Após a ‘lua-de-mel’, seu governo terá que mostrar a que veio, melhorando a economia, caso não queira enfrentar desgastes na sua popularidade. É o que defende o cientista político Araré Carvalho, professor Doutor na área.

“Hoje (quarta), já foram implementadas duas medidas de impacto. Extinguiu o MinC (Ministério da Cultura) e passou da Funai para o Ministério da Agricultura a demarcação de terras. Nenhuma dessas medidas foge do padrão do discurso de Bolsonaro. O presidente sempre deixou claro suas intenções, que agora estão sendo detalhadas”, analisa.

Segundo o especialista, ao combater o viés ideológico das coisas – como escola sem partido, ideologia de gênero e defesa da família, o novo chefe do Executivo do país trouxe para discussão pública questões de interesse privado.

“Bolsonaro tem um discurso muito forte, mas até por conta do atentado que sofreu não houve muito debate de proposituras técnicas, ficando a discussão em assuntos menores, de cunho moral. As questões práticas passaram à margem”, acrescenta.

De acordo com Carvalho, o valor do novo salário mínimo, um pouco abaixo do esperado, vai na direção do que já sinalizava o ministro da Economia, Paulo Guedes.

“O neoliberalismo prevê uma política de austeridade, com reformas, retomada de investimentos da iniciativa privada e geração de mais emprego e renda. O Brasil atravessa uma grave crise há três anos e a população espera que isso chegue ao fim”, argumenta.

Para o cientista político, o brasileiro enxerga a política através da economia. “Se o poder de compra está em alta e as pessoas de menor poder aquisitivo podem comprar uma televisão, um carro ou outro bem em 48 vezes o governo terá respaldo popular. Agora, de nada vai valer para o trabalhador a defesa da família ou o combate ao comunismo se não houver solução ou melhora no curto prazo para a crise”, ressalta.

Carvalho salienta que o Governo Bolsonaro não se sustenta com a imagem do presidente em alta se não houver uma diminuição nos 12 milhões de desempregados, nos 50 milhões na pobreza e na desarmonia construída sobre o consumo.

“O presidente terá que propor e aprovar reformas. Por mais que temas ideológicos façam barulho, o que importa para o povo é ter mais segurança, salário e trabalho. Não sei até onde o discurso de que não terá troca de favores se sustentará, ainda mais agora com o apoio do PSL à reeleição de Rodrigo Maia como presidente da Câmara”, observa.

Na opinião do cientista político, o cenário internacional também é algo com que o novo governo deve se preocupar. “Bolsonaro flerta com os Estados Unidos, sinaliza afastamento dos Brics e aproximação com Israel. Na prática, pode gerar retaliação de países árabes, grandes compradores de carne do Brasil, e da China, nosso maior parceiro econômico”, frisa.

De acordo com ele, o entendimento liberal de que o Estado deve intervir menos, ser menor, ter menos políticas afirmativas, melhorando a distribuição de renda, pode gerar uma política de enfrentamento com categorias.

“Ao propor demissões, cortar salários e por fim à estabilidade de funcionários, Bolsonaro que já falou em mexer na eleição de reitores e no modelo pedagógico de universidades federais, de interferir nos Correios, privatizar outros setores, o BB, pode enfrentar resistência e trazer o clima de tensão e enfrentamento para as ruas novamente. O presidente vai ter que dar o exemplo e cortar na própria pele os gastos públicos, diminuindo os privilégios do Judiciário e acabando com mordomias”, afirma.

A expectativa, segundo Carvalho, é a mãe das frustrações. “Moro quer leis mais duras para diminuir a criminalidade e violência no âmbito nacional. Essa questão de garantir mais segurança à população foi uma bandeira de Bolsonaro, que vai ser fortemente cobrado por isso”, finaliza.

Da REDAÇÃO

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