Mulheres, negros e homossexuais não são minorias, afirma ator

O ator em cena em Castelo Ra Tim Bum (Foto: Divulgação)

Em entrevista concedida ao DHOJE, o ator e professor de biologia, Eduardo Silva, 54 anos, comentou sobre o começo de sua carreira, a relação do negro no meio artístico, sua paixão pela biologia e também fez referências à cidade de Rio Preto.

O intérprete do personagem icônico Bongô, do Castelo Rá Tim Bum, falou sobre suas experiências nos palcos e na vida e ainda deu detalhes de seu personagem na nova série da Netflix que tem estreia mundial prevista para 2020.

O ator destacou que nos anos 90 a importância de iniciar uma movimentação para as chamadas minorias, “que não são minorias”, como os homossexuais, as mulheres, os negros teve uma importância muito grande de solidificação desse movimento.

Esse trabalho foi se solidificando, se estruturando, reverberando no que a gente vê hoje com “a conquista da porcentagem de mulheres no mercado de trabalho, principalmente na política. As cotas que estão sendo batalhadas há um tempão e não só isso também, nos últimos anos tem a preocupação da porcentagem de deficientes físicos nas empresas”.

DHOJE – Qual era o peso dos papéis que você exercia ainda na juventude e por que hoje não existem mais atores negros (jovens) com tanta expressividade como no seu tempo?

EDUARDO SILVA – No passado o negro para aparecer nas peças tinha que ser acima da média e hoje já não é mais assim porque tem mais espaço. Hoje tem mais gente trabalhando e, portanto, não é mais destaque. Na década de 1960 com Zezé Motta, Milton Gonçalves, eles eram feras. Na década de 1940, Grande Otelo, Ruth de Souza eram todos enlouquecidamente brilhantes, todos os negros que apareceram nessa época eram estupendamente maravilhosos. Aqui em São Paulo Lizette Negreiro, Ataíde de Queiroz, eram todos brilhantes porque tinha pouco espaço e pra arrebentar nos palcos tinha que ser pra lá de maravilhoso e hoje já não é assim.

DHOJE – Qual é o legado que os seus personagens imprimiram na sociedade? Qual é o feedback que seus fãs lhe trazem?

ES – As pessoas confundem muito o personagem com o ator. Quando você faz um personagem alegre elas pensam que você é alegre, quando você faz um personagem sacana, as pessoas pensam que você é sacana. Eles não acabam vendo que você é bom ator, por exemplo, quando eu fazia um personagem sofredor, as pessoas achavam que eu estava sofrendo ou quando eu fazia o Bongô que era sempre alegre, as pessoas me viam como o personagem. Por um lado é bom que você muda de personagem e as pessoas acabam vendo primeiro seus trabalhos depois enxergando o ator, então é muito bom receber de volta esse feedback do público.

DHOJE – O que é mais fácil, ser professor ou ator? A escolha para se tornar um professor de biologia teve a ver com algum ídolo em especial ou foi uma escolha aleatória?

ES – Gostaria de fazer uma coisa paralela com atuar. Queria ser médico, mas medicina não daria, então optei por algo de biológico. Tudo que gostava era na área de biológicas. Tinha preferências como odontologia, veterinária, educação física e acabei fazendo biologia porque iria estudar um pouco de tudo isso.

DHOJE – O senhor conhece São José do Rio Preto? Pretende passar uma temporada por aqui?

ES – Gosto muito da cidade, fiz aí uma gravação da novela da extinta Manchete, Ana Raio e Zé Trovão, que utilizávamos a boiada do Paulo Emílio e acabei gostando da cidade, do calor (risos)…mas com o pouco tempo que tenho livre acabo procurando cidades litorâneas de praia. Gosto mais de praias do que do campo.

DHOJE – Em nossa cidade temos uma comunidade negra pujante, mas carente de incentivo e representatividade política, por exemplo. Que mensagem o senhor pode transmitir a eles?

ES – Eles não podem desistir, por exemplo. A diferença do Sudeste e do Nordeste é que no Nordeste você tem a massa unida, os blocos, o pessoal de rua, mas não tem representatividade política também. O individuo não acaba se destacando muito. No Sul você tem as personas isoladas, você tem o trabalho individual das pessoas e a massa não está junta e quando não há essa junção da população não tem representatividade e nem liderança.

DHOJE – Fale sobre sua vida pessoal e como isso convergiu para que trabalhasse com arte?

ES – Eu nasci ator. Quando tinha 6 anos de idade, me fizeram o convite para fazer filmes. O pessoal do Moacyr Franco me chamou pra fazer uns programas com ele e gostei muito. Moacyr franco tinha programas com crianças onde foi que comecei a gravar, depois participei do programa de Roquette Pinto. Com onze anos comecei a fazer comercial e depois com 14 anos iniciei na novela ‘Solar Paraíso’. Ainda com seis anos fiz teatro ganhando inclusive prêmios de ator revelação e desde então não parei mais. Na escola eu fazia peças, cantava. Cada um nasce com um dom diferente.

DHOJE – Qual é a dica que o senhor dá para algum ator(a) negro(a) que esteja começando ou querendo ingressar nessa área?

ES – A dica é dedicação e aprimoramento constante. Se o personagem não te desafia você tem que encontrar uma forma de desafiá-lo. Sabe aquela coisa de fazer academia e se não tá doendo não está certo (risos), então precisamos sair da zona de conforto.

DHOJE – Você colaborou na série da Netflix chamada ‘3%’. Como foi essa experiência?

ES – Foi maravilhoso trabalhar nesse primeiro projeto na Netflix, umas meninas novas aqui da ECA (Escolas de Comunicações e Artes) demoraram uns quatro anos para conseguirem patrocínio e felizmente conseguiram. Até mesmo o filho do Fagundes (Antônio), na semana passada estava dando uma entrevista numa rádio falando da peça que ele está fazendo e citou algumas séries da Netflix como essa 3%. Agora a Netflix está querendo vir pra São Paulo fazer séries, novelas, e isso é muito bom. O mais legal eu senti na escolha do elenco que não teve um teste com muitas pessoas. Fui eu sentado na mesa com os diretores, fiz a leitura das frases de duas personagens que eles estavam em dúvida, o primeiro seria o papel de pai dessa menina que eu peguei ou se eu ia fazer o pai de um cadeirante. Foi muito legal o respeito que nesse caso eles tiveram. Em alguns casos, você pode ter 10, 20, 30 anos e não existe esse respeito, você acaba se tornando mais um número. As gravações eram em ritmo de cinema, demorava tipo o dia inteiro pra fazer uma ou duas cenas. Em televisão você grava 10, 20 cenas por dia. A primeira temporada foi um sucesso no mundo inteiro e nos EUA ficou por um longo período a série não-americana mais assistida.

DHOJE – O ator contou sobre seu personagem na próxima série Spectros, da Netflix, com lançamento mundial prevista para o próximo ano. A atração gira em torno de cinco adolescentes e se passa no bairro da Liberdade, em São Paulo, conhecida pela sua grande comunidade japonesa. O roteiro envolverá acontecimentos sobrenaturais e deixará muita gente com os cabelos em pé com eventos sombrios e bizarros nessa trama de suspense da netflix.

ES – Na Spectros faço uma personagem que dá nome ao bairro daqui da Liberdade. Imagina, sempre achei que o bairro da Liberdade fosse bairro de japoneses, mas no passado era um cemitério escravo e a personagem que fiz foi um cara que tentaram enforcar três vezes.

Estão terminando de editar, sonorizar e legendar para ser lançada para muitos países no ano que vem.

Por Alison MOURA

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