Mesmo no frio, moradores de rua recusam albergues em Rio Preto

Dos 430 moradores em situação de rua de Rio Preto, apenas 40 (média por noite) procuraram o Albergue Noturno Protetor dos Pobres para se protegerem do frio, neste fim de semana.

De acordo com a coordenadora do Albergue e assistente social, Sarah Assis Scarelli Nascimento, a procura é maior pela alimentação do que pelo pernoite. “De fato, ir para um abrigo não é o desejo de todos que dormem nas vias públicas. As razões variam de reclamações sobre a estrutura física das casas à dificuldade de adaptação às regras destes locais. Para algumas pessoas, a grande rotatividade e a impossibilidade de estar junto a seus companheiros e animais também influenciam na decisão de ir ou não para esses alojamentos”, destacou.

Desde a semana passada as temperaturas em Rio Preto caíram bastante. Na quinta-feira (4) o tempo começou a virar, com chuva no final do dia e início da noite. Na sexta, dia 5, o dia começou mais fresco, com chuva no período da manhã e termômetros gelados à noite. No sábado, 6, Rio Preto registrou a menor temperatura deste ano, mínima de 6ºC e sensação térmica de 4ºC. No domingo, 7, as temperaturas começaram a subir, timidamente.

Por conta da mudança no clima, a prefeitura, através da Assistência Social, visitou o Centro Pop e pontos conhecidos como lar destes moradores. De acordo com a pasta, os moradores foram orientados a procurarem o albergue para pernoitar e receber alimentação, mas muitos acabaram recusando a ajuda, alegando que já possuem cobertores para se protegerem das baixas temperaturas.

Levantamento feito pela direção do albergue mostra os seguintes números: dia 4 foram servidas 62 refeições no jantar com 38 pernoites; dia 5 foram 34 pernoites e 60 jantares; dia 6 foram 45 jantares e 30 pernoites e, domingo, 46 pernoites e 45 jantares.

“O que observamos é que muitos estabeleceram estratégias para sobreviver na rua. Levá-los para abrigos não resolve em definitivo. Eles preferem ficar na rua, onde têm liberdade e podem consumir drogas, por exemplo. A maioria é dependente químico ou já tem a rua como lar”, contou Sarah.

Além das ações realizadas pela prefeitura, a Diocese de Rio Preto distribuiu caixas de papelão por todas as paróquias para a coleta de agasalhos e cobertores. Em muitas delas, como na Basílica Menor de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, na Boa Vista, os próprios moradores de rua destruíram a caixa ou espalharam as peças que foram arrecadadas.

“O que nos deixa ainda mais tristes é observar, de longe, pessoas bem vestidas, que chegam em carros e estacionam no pátio da igreja para levar o que foi arrecadado. Elas saem com sacolas e só selecionam as melhores peças”, disse um funcionário da paróquia, que pediu para não ser identificado.

Igrejas evangélicas e centros espíritas também realizam ações para arrecadar agasalhos e distribuição de alimentos.

Camila Passerini Sgnorini é moradora de Rio Preto e neste fim de semana ajudou um grupo de Urupês na organização de um sopão na cidade.

“Hadila, minha amiga possui duas irmãs: Hagatta e Hagda. Juntas elas pensaram em arrecadar doações nesse inverno e doar para quem realmente necessitava. Hagda começou criando a logo ‘Anjos da Sopa que Aquece!’ para postagens nas redes sociais. A partir daí, muitas pessoas passaram a doar cobertores, agasalhos, roupas femininas, masculinas, infantis, lençol, meias e muitos alimentos. A princípio queríamos entregar tudo na represa, mas por conta da chuva de quinta e sexta, ficamos preocupados em perder a sopa que seria entregue no sábado, dia 6. Foi aí que pensamos em ligar para o Albergue para cozinhar no local e distribuir lá mesmo”, comentou.

O grupo de 12 pessoas contou com a ajuda dos funcionários do Albergue e, juntos, conseguiram servir 150 refeições no jantar. Além disso, segundo Camila, algumas pessoas do grupo ficaram distribuindo as roupas e cobertores próximo da avenida Bady Bassitt. “Deu tudo certo e toda a ajuda veio na hora certa. Vamos continuar com as arrecadações e as doações. A cidade é grande e tem muita gente necessitando de ajuda”, disse.

Podem procurar o albergue pessoas adultas de ambos os sexos, além de famílias em situação de vulnerabilidade social, como imigrantes e moradores de rua. No local há dormitórios para homens, mulheres e famílias inteiras, totalizando 51 vagas.

Os interessados irão passar primeiramente por um processo de triagem com uma psicóloga no Centro Pop (Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua) antes de serem levados ao albergue. Confirmado o encaminhamento, o próximo passo é levar um documento original com foto, como RG, reservista ou carteira de habilitação, e levar ao local indicado. As pessoas podem residir no local durante o tempo limite de três meses.

O atendimento é de segunda a domingo, 24h por dia. Informações e doações pelo telefone (17) 3232-8260.

Por Jaqueline BARROS

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