MAIS FÉRTIL: SÍNDROME DOS OVÁRIOS POLICÍSTICOS E INFERTILIDADE

A síndrome dos ovários policísticos (SOP) é a endocrinopatia mais comum nas mulheres em idade fértil, afetando 10% das mulheres em idade reprodutiva.Apesar da alta prevalência, a SOP ainda é uma doença subdiagnosticada.
Estudo publicado em dezembro de 2016 avaliou as condições do diagnóstico da síndrome em 1.385 pacientes de países da América do Norte e da Europa.
Aproximadamente 33% das pacientes reportaram que o diagnóstico demorou mais de 2 anos, cerca de 47% das pacientes precisaram passar por três ou mais profissionais de saúde para receber o diagnóstico e apenas 15% das pacientes estavam satisfeitas com as informações fornecidas pelos médicos no momento do diagnóstico.
Trata-se de um distúrbio que geralmente se inicia na puberdade e é progressivo, causando um desequilíbrio hormonal. O problema é que isso faz com que o organismo passe a produzir alguns hormônios em maior quantidade, e outros em menor quantidade, aumentando a possibilidade do aparecimento de cistos no ovário e interferindo no processo de ovulação. Em portadoras dessa síndrome, estes cistos permanecem e modificam a estrutura ovariana, tornando o órgão até três vezes mais largo do que o tamanho normal. As mulheres com SOP permanecem em anovulação crônica, ou seja, não ovulam adequadamente e , por isso, podem apresentar intervalos longos entre os ciclos menstruais, podendo ficar até meses sem menstruar.
Os sintomas podem variar entre as mulheres, porém os mais comuns são: ciclos irregulares, hirsutismo (aumento de pêlo), acne, alopécia, menor frequência de ovulação e dificuldade para engravidar. Além desses, a síndrome favorece o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, do diabetes tipo 2 e obesidade.
A irregularidade menstrual é muito comum e está presente em até 85% dos casos e a obesidade acomete até 60% das pacientes. O controle adequado das comorbidades é fundamental no manejo dessas pacientes.
O diagnóstico depende de uma avaliação completa, que exclua possibilidades de problemas com a tireóide ou da glândula supra-renal. O exame de ultrassom, isolado, não é suficiente para confirmar a presença da síndrome, por isso, é preciso realizar um conjunto de exames.
Essa síndrome pode ser controlada através do uso de medicamentos que variam de acordo com o quadro de sintomas da paciente e suas complicações. Normalmente é indicada a utilização de anticoncepcionais hormonais como pílulas, pois auxiliam na diminuição do hormônio masculino.
Além disso, para controlar os sintomas é importante manter uma alimentação saudável, especialmente quando a paciente apresenta obesidade e também praticar atividade física, pois isso beneficia muito a portadora da síndrome. Em casos com sintomas apresentados na pele, tratamentos cosméticos com dermatologistas também podem ajudar.
O tratamento depende da fase de vida da mulher. O que é mais importante em determinado momento e qual o sintoma que mais a incomoda são perguntas que o médico que a assiste deve fazer. Como se trata de uma doença crônica, não há cura da síndrome, e sim, tratamento dos sintomas.
Uma adolescente de 15/16 anos, obesa, com pêlos e acne em excesso, irregularidades menstruais, precisa primeiro tentar emagrecer. Às vezes, só a perda de peso provoca a reversão do quadro, porque a obesidade gera resistência à insulina e essa resistência produz o aumento de andrógenos, os hormônios masculinos.
Se ela não for obesa, torna-se necessário diminuir a produção dos hormônios masculinos e uma das maneiras mais simples de fazê-lo é por meio da pílula anticoncepcional. Qualquer pílula, não precisa ser uma em especial, porque todas deprimem a função ovariana e, portanto, diminuem a produção de hormônio masculino. O anticoncepcional atua também na unidade pilossebácea, reduzindo o crescimento dos pêlos e a produção de sebo. Dessa forma, melhoram os quadros de hirsutismo, acne e as alterações menstruais, uma vez que a pílula regulariza os ciclos menstruais.
Muitas mulheres só descobrem que têm o problema quando tentam ter filhos e não conseguem. Quando a SOP é a única causa de infertilidade do casal, as chances de gravidez são excelentes após a correção do distúrbio ovulatório.
No entanto, elas podem responder demais à medicação e apresentarem, por isso, desconforto, característico de hiperestímulo dos ovários. Assim, o tratamento das pacientes portadoras desta síndrome deve ser individualizado e extremamente criterioso. O tratamento ideal pode variar de acordo com o quadro clínico de cada paciente. No caso da infertilidade, o especialista pode lhe indicar a indução da ovulação. Grande parte das mulheres responde bem ao tratamento e consegue engravidar.
Outra alternativa para essas pacientes é a fertilização in vitro, especialmente quando existem outras causas de dificuldade para engravidar, além da ovulação comprometida. Outra opção é a cauterização ovariana laparoscópica ou drilling ovariano. Esta técnica é frequentemente criticada pelo risco de formação de aderências e pelo potencial de comprometer a reserva ovariana.
Tanto endocrinologistas quanto ginecologistas estudiosos de Endocrinologia ovariana estão aptos a tratar o problema e, em alguns casos, a associação de ambas as especialidade na condução do caso pode ser extremamente benéfica.

Por Luiz Fernando Gonçalves Borges – médico ginecologista e obstetra, pós-graduado em Reprodução Humana.

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