MAIS FÉRTIL – HISTÓRIA DA FERTILIZAÇÃO IN VITRO

Fascinante o poder da ciência em combinar fórmulas, medicamentos, equipamentos superpotentes e a inteligência humana para iniciar uma vida fora do corpo. A mudança de cenário da fecundação natural de um óvulo por um espermatozoide — que deixa de ser no ventre materno para se encontrar em uma placa, dentro de um laboratório — criou o conceito de fecundação in vitro (FIV) há mais de 30 anos. Naquele ano de 1978 nascia Louise Brown, na Inglaterra, mostrando ao mundo que as limitações fisiológicas do corpo não impediam a reprodução da espécie.

O feito foi o divisor de águas na reprodução assistida. A história da Fertilização in Vitro (FIV) recente remonta ao final do século XIX, quando um professor da Universidade de Cambridge, chamado Walter, publicou dois artigos descrevendo o primeiro caso de transferência de embriões em coelhas, de uma espécie para outra. Em 1934, foram relatados os primeiros experimentos de FIV em coelhos e o Dr Gregoty Pincus levantou a hipótese de que haveria possibilidade de desenvolvimento in vitro de óvulos de todos os mamíferos, incluindo os humanos. A publicação teve uma forte reação contrária, sendo que o professor acabou expulso do cargo de professor de Harvard, sendo classificado como “louco abusador da natureza”. Em 1944, ocorreu o relato do sucesso da primeira FIV de um óvulo humano. Não tardou e em 1948 saiu o artigo da fertilização e clivagem de ovócitos humanos, sem transferência de embriões nesses experimentos. Em 1951 foi descrito o processo de capacitação espermática, de extrema importância para o sucesso da fertilização extracorpórea.

Dhoje Interior

De lá para cá, a medicina reprodutiva não parou de pesquisar e encontrar formas que garantissem ao casal a realização do sonho de construírem uma família.

Nesse processo, o movimento de espermatozoides foi acelerado; o DNA dos gametas masculinos, decifrado; os embriões submetidos a biópsias; os óvulos, congelados — e, depois de anos, descongelados para se transformarem em uma criança. Famílias até então improváveis se formam a cada dia: são os filhos de casais homossexuais; os filhos gerados pela tia ou pela avó. A evolução dos tratamentos permitiu ainda adiamento da maternidade, preservação da fertilidade e produção independente com pai “comprado” em um banco de sêmen.

Na fantástica fábrica de bebês de proveta, médicos especializados em reprodução humana, geneticistas e biólogos fazem parte das equipes multidisciplinares espalhadas pelo mundo que tentam garantir a produção de embriões tão saudáveis que, ao serem implantados no útero, não terão outra alternativa a não ser gerar mais uma vida.

A possibilidade de unir óvulo e espermatozoide por meio de injeções e soluções em laboratórios já é dominada pelos cientistas há décadas. A FIV continua a mais revolucionária das técnicas na garantia da reprodução fora do sexo. E uma das mais usadas também, já que não são poucos os casais que precisam de um médico para ter um bebê. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, 15% dos casais brasileiros apresentam problemas de fertilidade na idade reprodutiva, entre 17 e 55 anos. Isso que dizer que não conseguem engravidar após um ano de vida sexual ativa, mesmo sem uso de métodos contraceptivos. Nesse caso, é necessário recorrer a uma das técnicas de fertilização.

O desafio agora é aumentar os índices de sucesso da gestação que começa no consultório médico. Hoje, a chance de um resultado positivo de gravidez após uma fertilização assistida é de 50% em mulheres com menos de 30 anos. O êxito diminui com o avanço da idade da paciente e, consequentemente, o envelhecimento dos óvulos. Depois dos 30, o número de mulheres que engravidam a cada implantação de um embrião é de 40%. Acima de 40 anos, as estatísticas caem para menos de 15%.

Para solucionar tais questões e aumentar a probabilidade de acertos, os cientistas se dedicam a criar mecanismos que selecionem os gametas e os embriões mais promissores, com mais chances de se fixar no útero. Outra meta no caminho do sucesso da fertilização é interromper a perda de qualidade dos óvulos com o passar dos anos. Para isso, surgem técnicas cada vez mais modernas de congelamento de óvulos. Para atingir o estágio atual, os médicos e cientistas do passado enfrentaram grande furor no meio científico e leigo, sabe-se que muitos professores foram exonerados do cargo de universidades e outros até excomungados pela igreja lutando em prol da ciência.

Por Luiz Fernando Gonçalves Borges – médico ginecologista e obstetra, pós-graduado em Reprodução Humana