Jovem que matou ex-companheira dois dias após dar à luz é condenado a 25 anos de prisão

Hiago Camani recebe sentença de 25 anos e 10 dias de prisão, dada pela juíza Gláucia Véspoli (Foto: Cláudio Lahos)

Foi condenado a 25 anos e 10 dias de prisão, em regime fechado, o marceneiro Hiago Henrique Camani de Souza, de 21 anos. Ele foi considerado culpado por ter matado asfixiada a cuidadora de idosos Maria Fabrícia da Silva, de 36 anos, dois dias após ter dado à luz a uma menina, filha dele. O crime aconteceu na tarde do dia 3 de abril de 2018.

O Tribunal do Júri, composto por sete jurados, foi realizado na tarde de ontem (30/5), no Fórum de Rio Preto. O acusado foi condenado com base em quatro qualificatórias – homicídio, motivo torpe e de surpresa, asfixia, feminicídio e furto – este sendo excluído pela defesa. Após dar a sentença, a juíza Gláucia Véspoli dos Santos Ramos de Oliveira, da 5ª Vara Criminal, ressaltou a fragilidade da vítima quando o crime aconteceu, além da vulnerabilidade da criança, que ficou órfã.

“Ao tirar a vida da vítima, o acusado deixou dois filhos órfãos, além de um bebê sem o direito à amamentação, afeto e cuidados de mãe, fundamentais nos primeiros dias de vida de uma criança. Além disso, quando crescer, a criança está sujeita a graves traumas, consequências morais e psicológicas”, disse.

Ao ser ouvido pela magistrada, Hiago disse que teve um relacionamento de um ano com a vítima, mas que não a amava e queria reatar o namoro com a ex. Este seria o motivo da briga que resultou na morte da Maria Fabrícia.

“Começamos a brigar dentro do carro. Ela chegou a dizer que preferia matar a minha filha a me perder. Eu tive uma atitude errada”, admitiu.

O réu confessou ainda que matou a cuidadora de idosos a enforcando com as mãos. No entanto, o corpo da vítima foi encontrado com três abraçadeiras (enforca gatos) presas no pescoço. O laudo do IML (Instituto Médico Legal) não apontou sinal de agressões no corpo do réu.

Para o promotor de justiça Marcos Antônio Lelis Moreira, Hiago agiu de forma cruel, bárbara e animalesca. “A vítima estava em completo estado de vulnerabilidade, havia acabado de passar por uma cesárea, estava com os pontos da cirurgia e foi morta de forma cruel”, ressaltou.

Durante o plenário, o representante do Ministério Público chamou atenção para os casos de feminicídio registrados em Rio Preto e no Brasil. “A cada duas horas, em média, uma mulher é morta no Brasil. Em Rio Preto, nos últimos 14 meses, o número de feminicídio é cinco vezes maior do que no ano anterior. Maria Fabrícia era uma cuidadora de idosos e trabalhava se dedicando em amar as pessoas, ela jamais queria matar sua filha recém-nascida, ela queria ir embora porque descobriu a traição do companheiro. Ela foi morta com crueldade e seu corpo foi desovado”, frisou.

Na época, o acusado registrou um boletim de ocorrência no Plantão Policial para informar o desaparecimento da ex-companheira. O caso foi registrado como roubo, mas o delegado plantonista desconfiou da versão apresentada por Hiago, que foi preso como suspeito.

“Quando fomos até a casa dele para colher informações, ele se referiu à vítima no passado. Então desconfiamos dele, questionamos e ele confessou o crime”, disse um investigador da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) ouvido como testemunha do caso.

A advogada escalada pela Defensoria Pública e que representou a defesa de Hiago, Maria do Carmo Rocha, assumiu o caso às vésperas do plenário e afirmou ser indefensável.

“Nenhum profissional quis assumir o caso. Minha tese baseia-se nas brigas e ciúmes constantes da vítima contra o acusado, isso o teria motivado a cometer o crime, que não foi premeditado. Temos também a diferença de idade entre os dois; ela era 16 anos mais velha e ele um adolescente. A vítima tinha a ilusão de se casar e construir uma família com ele, mas não era o que ele queria”, salientou.

Em relação a qualificatória de furto, a defesa esclarece que o réu não furtou os R$ 200 que haviam sido sacados pela cuidadora em uma agência bancária, antes do crime. “O dinheiro era dele”, afirmou.

Ainda de acordo com a advogada, o réu apresenta sinais claros de psicopatia. “Ele é frio e não consegue raciocinar para formar uma frase, a mentalidade dele é de um garoto de 15 anos. Deveria ser tratado, sob pedido de medida de segurança. Mas nem sequer foi examinado”, argumentou a advogada.

A filha de Maria Fabrícia está sendo criada pela mãe e irmãs de Hiago. A menina, que completou um ano de idade em abril, é levada para visitar o pai no CDP (Centro de Detenção Provisória), onde estava preso. Nenhum parente da vítima manifestou vontade em ficar com a criança. O outro filho dela, que na época tinha 18 anos, foi morar com os parentes, em Pernambuco e, atualmente, está em situação de rua.

Hiago voltou para o CDP e aguarda transferência para algum presídio da região.

O crime

O corpo de Maria Fabrícia foi encontrado com várias abraçadeiras, popularmente chamadas de ‘enforca-gato’, caído na Avenida Mirassolândia, na Estância São Thomaz, na região Norte da cidade, por um pedestre que passava pelo local.

O réu, na época com 20 anos, foi até o Plantão Policial para registrar a ocorrência de desaparecimento, quando o delegado desconfiou da versão apresentada. O homem foi preso suspeito de ter cometido o crime.

Como ele mora com a família em uma casa vizinha a da vítima, a polícia foi até o local e encontrou a criança com a tia, irmã do marceneiro. Pelo celular dele os policiais conseguiram identificar o caminho que o suspeito fez e descobriu o local do crime. Hiago confessou que deu uma gravata na mulher, ainda dentro do carro, até deixá-la desacordada e, em seguida, a matou com os ‘enforca-gatos’ no pescoço.

Por Karolina GRANCHI 

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