IDHM mostra que negros recebem menos que os brancos em Rio Preto

Júlio César diz que não teve dificuldades no mercado trabalho, mas sofreu com preconceito na vida pessoal

De acordo com o último levantamento do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de renda per capita, do ano de 2010, os negros, em Rio Preto, recebem, em média, R$ 743,95, já os brancos, durante a mesma época analisada, recebem, em média, R$ 1.289,71.

A pesquisa, que tem como fontes o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e a Fundação João Pinheiro (FJP), também mostra que entre os trabalhadores empregados, a renda dos negros ainda continua mais baixa que a dos brancos. Segundo a amostra, o rendimento médio dos trabalhadores negros empregados é de R$ 1,129,63, enquanto o dos brancos é de R$ 1,845,98.

Dhoje Interior

Em relação à educação, 5,52% dos negros são analfabetos contra 2,55% dos brancos. Na outra ponta da tabela, 22,67% dos negros tem o ensino médio completo e o superior incompleto, contra 27,20% de brancos na mesma situação. Os números ficam ainda mais desiguais quando a comparação sobe para o ensino superior completo. Até 2010, 21,99% dos brancos haviam finalizado a primeira faculdade contra apenas 7,24% dos negros.

Secretária dos Direitos e Políticas para Mulheres, Pessoa com Deficiência, Raça e Etnia de Rio Preto, Maureen Cury fez uma análise sobre os números atuais da cidade.

“Identificamos que os dados municipais sobre a população negra não são confiáveis porque a cultura histórica de discriminação dificulta a auto declaração. Faltam as informações quantitativas, difíceis de obter, porque dependem de declarações de óbito, de nascimento, ou da própria auto declaração. Os dados que temos, atualmente, são os do IBGE”, afirmou Maureen que falou sobre ações que a pasta vem desenvolvendo para uma maior igualdade.

“Estamos trabalhando, no município, com o sistema de informações da Secretaria Municipal da Saúde, levantando os indicadores/dados por região (são 10 regiões em São José do Rio Preto), inclusive atendendo às demandas dos ODS – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU, assumidos pelo município de Rio Preto. Enquanto a Secretaria Municipal dos Direitos e Políticas para Mulheres, Pessoa com Deficiência, Raça e Etnia, trabalhamos contra o preconceito, a discriminação e as violações de Direitos”, finalizou.

Fora da estatística do emprego, mas dentro dá do preconceito

Comerciante, músico e com o segundo grau completo, Júlio César Santos, 30 anos, trabalha desde os 10 anos e diz que em relação a emprego, não teve a dificuldade apontada pela pesquisa sobre a diferença salarial entre negros e brancos.

“Pra mim, em relação ao comércio, já que sempre fui autônomo, nunca tive essa dificuldade. A dificuldade e o preconceito que enfrento são pelo local de trabalho, mas em relação à cor, para ser inserido no mercado de trabalho, não tive problema”, explicou Santos, que tem seu comércio no Shopping Azul de Rio Preto, popularmente conhecido como camelo, e explica como funciona o preconceito no seu ramo de trabalho.

“Por eu ter um tipo de produto diferente do que o shopping oferece ao público aqui, já que trabalho com réplicas e originais, se eu falar que tenho a mercadoria original aqui, o pessoal entorna o nariz. ‘Mas é original? É original do Paraguai?’. Então, as pessoas não tem o conhecimento e acham que tudo que tem no Paraguai é falso, não sabem que o Paraguai é um país igual o nosso, porém, lá, os impostos são diferentes daqui. Assim como nos Estados Unidos você paga super barato em uma camiseta da Nike. No Paraguai também tem loja da Nike super barata. Só que o pessoal não tem esse conhecimento e acaba tendo esse preconceito sem querer ter. Aí cria esse preconceito em relação ao local de trabalho”, afirmou.

Por outro lado, se no trabalho Júlio César Santos não teve dificuldades, fora dele, em outras ocasiões, já sofreu por ser negro.

“Jogando bola, restaurante, onde existe aquele preconceito de olhar, mas eu não sou muito de ficar reparando, de ficar em cima, porque eu penso que o preconceito está dentro de nós mesmos. Entre os negros, entre os nordestinos. Eu falo muito isso para o meu pai e minha mãe, que são nordestinos. Falo que o povo nordestino sofre muito preconceito, só que eles são muitos preconceituosos também. Só que eles sofrem muito com isso, até porque nos lugares afastados lá eles não tem o conhecimento que nós temos aqui. Então, acaba relevando e existe muito isso entre nós”, disse ele, que falou sobre situações que já enfrentou de cara o preconceito.

“Eu já cheguei em restaurante de alto padrão, com a minha namorada, e eu tinha um cabelo black, e ela é loira. Então, você chega e o pessoal fala, ‘Ah, deve ser jogador, ou isso, ou aquilo, tá bem vestido e tal’. Então, existe isso de olhar, você vê as pessoas olhando. E nesse dia, até um garçom, amigo meu, falou que o pessoal achava que eu era jogador. Então, passa despercebido, mas jogando bola já fui ofendido verbalmente. Me chamaram de preto, pobre, que minha mãe era uma gorila, macaca e ficou por isso. Nesse disse eu fui discutir com o cara e tinham dois advogados perguntando se eu queria entrar com o processo e falei que não”, finalizou Santos.

Por Marcelo Schaffauser