FAKE NEWS: A mentira que parece verdade

Com o advento da internet, o leque de informações e notícias tornou-se gigantesco. Pode sair desde algo simples, como “A margarina foi criada para alimentar perus” ou “O sorteio da Mega-Sena é uma fraude”, e envolver sentimentos que enganam os mais ingênuos, do tipo “Redes sociais doam dinheiro a cada compartilhamento” e “Compartilhe o link para ganhar produtos grátis”.

Existem ainda notícias que também são muito parecidas com o que estamos acostumados a ler nos jornais e revistas, como por exemplo, “Chaveiro cachimbo colorido é a nova moda para consumo de drogas” e “Fenilpropalamina está presente em antigripais no Brasil”.
Até pessoas famosas como o apresentador Silvio Santos, a atriz Aracy Balabanian, o sambista Arlindo Cruz, a cantora Simaria e o ator Caio Castro já “morreram” em falsas notícias que circularam exaustivamente nas redes sociais.

E quem não se assustou com a multa que foi divulgada para quem não fizesse o cadastro da biometria? No dia seguinte à divulgação do boato através do aplicativo whatsapp, mais de 500 pessoas compareceram no Cartório Eleitoral de Rio Preto para fazer o cadastro.
A internet é hoje a segunda fonte de informação mais popular no país, segundo a Pesquisa Brasileira de Mídia – Hábitos de Consumo de Mídia pela População Brasileira, da Presidência da República. É a fonte de informações mais diversa, citada por 89% dos entrevistados. Porém, na rede mundial de computadores diferentes grupos têm usado artifícios para influenciar os debates ou ajudar a “viralizar” (disseminar) informações que lhes interessam, muitas vezes, sem que as pessoas que recebem os conteúdos saibam desses procedimentos.

Essas informações, contudo, são apenas a face aparente de um fenômeno mais profundo e relacionado à forma como determinados conteúdos circulam e ganham projeção na internet.

Para a psicóloga cognitivo-comportamental, Mara Lúcia Madureira, a produção e divulgação de conteúdos falsos é um comportamento antigo e seguem propósitos definidos. “Geralmente o propósito é obter ganhos pessoais, apoio político, vantagens financeiras, visibilidade e publicidade. É uma forma de sociopatia, na qual algo é fria e estrategicamente planejado para se obter vantagens à custa de mentiras e prejuízos de terceiros”, explica.

“Notícias falsas são produções maquiavélicas, com dados manipulados, que enganam porque se parecem com notícias verdadeiras. Algumas aparecem assinadas por supostas autoridades que, o leitor ingênuo ou desatento não se dá ao trabalho de verificar as fontes ou sem capacidade crítica para perceber que, se algo alarmante de fato acontece, será, sem dúvida veiculado nos grandes jornais, revistas e programas televisivos sérios, não apenas nas redes sociais”, completa a psicóloga.

Entre as vítimas, não estão apenas pessoas famosas. Pessoas que levam uma vida comum podem sair do anonimato de um minuto para o outro. Foi o que aconteceu com o tatuador Andrew César Martins, de 30 anos. Ele teve sua foto divulgada pelas redes sociais e foi acusado de ter participado do roubo da joalheria, no dia 15 de julho de 2017, que matou um jovem de 16 anos e deixou dois guardas civis municipais feridos.

“Um conhecido viu a publicação em uma página e me mandou um print, mas não achei que fosse repercutir tanto. No começo, não levei a sério. Mas pouco tempo depois eu e minha família começamos a receber ameaças. A polícia invadiu minha casa, revirou tudo. Fui levado para a delegacia e prestei esclarecimentos. Só depois ficou comprovado que não participei do assalto”, relata o tatuador.

Andrew ainda relata que, apesar do preconceito das pessoas, não teve grandes prejuízos. “Perdi o dia de trabalho, tive medo de sair na rua e precisei fazer uma postagem no Facebook explicando toda a situação e minha inocência. Todos os comentários que recebi foram de solidariedade. Ninguém pediu desculpas”, acrescentou Andrew.

Depois de toda a confusão, Andrew conta que ficou até mais conhecido, mas ainda assim deve entrar com processo por danos morais. “Tem cliente que chegou até meu estúdio a partir da confusão, mas acho que sempre vou ter medo de alguém que não sabe da verdade”, explicou.

Um conselho da psicóloga Mara Lúcia Madureira para não cair nas mentiras é o leitor utilizar ferramentas de checagem e suspeitar de coisas fantásticas que não aparecem nos veículos sérios de comunicação, como jornais e revistas impressas e televisivas com boa reputação. “Estes veículos ainda devem divulgar e alertar a população sobre os riscos de crer e compartilhar mentiras. À população cabe não compartilhar manchetes sem ler a matéria ou encaminhar áudios sem conhecer a verdadeira origem”, explica.

Punição para quem espalha notícias falsas
Atualmente, o Marco Civil da Internet permite empresas como o Facebook a adotar políticas para manutenção ou remoção de determinado conteúdo, caso a informação ofenda os termos de uso. Além disso, estabelece que a plataforma remova os dados em caso de decisão judicial neste sentido.

Na Câmara dos Deputados, um projeto de lei prevê a responsabilização de provedores de conteúdo nas redes sociais em casos de divulgação de informações falsas, ilegais ou prejudicialmente incompletas. A multa nesses casos seria de R$ 50 milhões no caso de a plataforma não retirar o conteúdo em até 24 horas. De acordo com o texto, os provedores de conteúdo devem criar filtros e regras para a publicação de conteúdos de modo a definir e restringir o que pode ser veiculado em suas páginas, perfis e outros espaços virtuais.
Outro projeto transforma em crime “divulgar ou compartilhar, por qualquer meio, na rede mundial de computadores, informação falsa ou prejudicialmente incompleta em detrimento de pessoa física ou jurídica”. A pessoa que cometer o ilícito pode ser condenada a pena de dois a oito anos e pagar multa de R$ 1,5 mil a R$ 4 mil.

E mais um projeto segue na mesma linha ao incluir no Código Penal a prática de “divulgar ou compartilhar, por qualquer meio de comunicação social capaz de atingir um número indeterminado de pessoas, informação falsa ou prejudicialmente incompleta, sabendo ou devendo saber que o são”. O texto prevê penas menores, de um a dois anos.

 

Por Bia Menegildo

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