“É o início de uma longa caminhada”, diz pesquisador da Famerp sobre a CoronaVac

COLETIVA VACINA FAMERP - FOTO GUILHERME BATISTA

Os testes de uma vacina contra o novo coronavírus feitos pela Famerp (Faculdade de Medicina de Rio Preto) serão aplicados em profissionais da saúde voluntários – público considerado mais exposto ao contágio. A Famerp foi um dos doze centros escolhidos para testar a vacina. O anúncio foi feito durante coletiva de imprensa nesta quinta-feira (2).

De acordo com Maurício Lacerda Nogueira, chefe do laboratório de virologia da Famerp, a escolha do público alvo levou em consideração o fato de os profissionais de saúde atuarem na linha de frente, portanto, estarem mais expostos ao contágio do novo coronavírus. De 18 a 20% dos casos positivos de coronavírus, na cidade, são em profissionais de saúde. “Testar a vacina numa população mais exposta dá um ganho significativo. Não é uma questão de privilégio, mas sim de aumentar a chance de nós termos uma resposta da eficácia mais rápida. Quando mais rápido essa resposta chegar, mais rápido a população terá acesso à vacina”, explicou.

Dhoje Interior

Em todo o Brasil, serão escolhidos 9 mil voluntários. Ainda não há informações de quantos voluntários receberão a vacina em Rio Preto porque, conforme explicou Maurício, é preciso definição dos órgãos regulatórios como Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa), ligada ao Conselho Nacional de Saúde (CNS).

A expectativa é de que o início da pesquisa ocorra em 30 a 45 dias. “Por conta da urgência, há um esforço para que tudo aconteça o mais rápido possível”, disse o chefe do laboratório de virologia da Famerp.

A Famerp foi escolhida para participar da fase 3 dos estudos por já participar de outros projetos com o Butantã, como a vacina da dengue. “Faz parte de uma expertise que nós ganhamos fazendo estudo da vacina da dengue com o Butantã. Nos últimos anos, demonstramos a capacidade da Famerp de vacinar e monitorar uma parte importante da população”, disse Maurício para, em seguida, acrescentar: “é motivo de muito orgulho da equipe multidisciplinar que eu coordeno, formada por médicos, biomédicos, enfermeiros farmacêuticos, veterinários, agentes de saúde, técnicos de enfermagem, que se dedica a esse trabalho”.

O chefe do laboratório de virologia da Famerp ressalta que o desenvolvimento e estudo da vacina não deve ser motivo para que a população relaxe nos cuidados que deve continuar adotando no dia a dia e praticando o isolamento social. “Essa ou qualquer outra vacina que tente restaurar o mundo da forma como conhecíamos ainda está no começo. É o início de uma longa caminhada. Peço a todos que não encare nenhuma boa notícia de médio prazo, como esta, como uma liberdade para não cumprir as medidas que precisam ser cumpridas neste momento”.

CoronaVac
A vacina foi desenvolvida pelo laboratório farmacêutico chines Sinovac Biotech e em parceria com Instituto Butantan, responsável pela fase 3 – a de estudo clínico. Intitulada de CoronaVac, a vacina é uma das mais de 130 que vêm sendo testadas no mundo.

O governo do Estado de São Paulo investiu R$85 milhões para a realização do estudo e a expectativa é de que a vacina esteja disponível no SUS até junho do ano que vem.

Fase de testes
As primeiras duas fases de teste da vacina avaliaram aspectos como segurança e a dosagem necessária para a eficácia e obtiveram resultados promissores. A vacina já foi testada em 1 mil voluntários na China, além de ter sido testada em modelo experimental em primatas não humanos (macacos), protegendo-os da doença.

A nova fase de testes da vacina desenvolvida pelo laboratório chinês, em parceria com o Instituto Butantã, é a chamada de número três de testes clínicos.

O objetivo é avaliar a eficácia da vacina em prevenir a doença e, neste caso, com os métodos placebo controlado e duplo cego. “Alguns voluntários receberão a vacina e outros receberão uma substância inerte (que não produz qualquer efeito no organismo). Iremos comparar os dois grupos e constatar quantos foram infectados em cada um deles e o quanto a vacina foi eficaz. Já o duplo cego se refere que o administrador da vacina não informará ao pesquisador e nem ao voluntário quem será imunizado com a vacina e de quem receberá o placebo. Essa informação só é disponibilizada ao sistema de monitoramento do estudo. É o padrão ouro mundial de se fazer estudo de vacina”, afirmou o chefe do laboratório de virologia da Famerp, acrescentando que os voluntários serão, a principio, acompanhados por um ano.

O laboratório chinês fornecerá a vacina para o Butantã para a fase 3. “Caso seja demonstrada a segurança e eficácia, será feita a transferência de tecnologia da empresa chinesa para o Butantã, que produzirá a vacina e, consequentemente a utilização dentro do Sistema Único de Saúde no estado de São Paulo”, explicou Maurício.

Estudo será realizado em 12 regiões do país

São 12 centros que farão os testes em diferentes regiões do país. Em São Paulo, terá como centro coordenador o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e contará com a participação, além da Famerp, do Instituto de Emílio Ribas e Hospital Albert Einstein, Universidade Municipal de São Caetano do Sul, Hospital das Clínicas da Unicamp (Campinas) e do Centro de Saúde Escola da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto.

Os centros definidos no restante do país são: Universidade de Brasília (UnB), Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, no Rio de Janeiro, Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Fármacos da Universidade Federal de Minas Gerais, Hospital São Lucas da PUC do Rio Grande do Sul e Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná.

Por Tatiana PIRES – Redação Jornal DHoje Interior