Do Corcel para as Olimpíadas: Altobeli da Silva conta sua trajetória ao DHoje

Altobeli da Silva participou de muitas corridas amadoras até chegar as grandes competições nacionais e internacionais
Com 25 anos, Altobeli Santos da Silva, corredor brasileiro, nascido em Catanduva, que participará da prova de três mil metros com obstáculos nos Jogos Olímpicos do Rio 2016, nesta segunda-feira (15), a partir das 10h25, chega em sua primeira Olimpíada. Porém, a caminhada para disputar a maior competição do mundo não foi fácil.
No Rio de Janeiro desde o dia 24 de julho e já adaptado, Altobeli torce para que o dia esteja quente durante sua prova. Caso passe para a final, a disputa será na quarta-feira, dia 17, às 11h50.
Em entrevista para o Jornal DHoje, Altobeli fala sobre o início de sua carreira, a semana que morou dentro de um Corcel, as provas que disputou valendo moto zero quilômetro, bicicleta e até caixa de leite, antes de chegar em condições de brigar por uma medalha olímpica.
Jornal Dhoje – De onde vem o seu nome? Tem alguma referência com o jogador Alessandro Altobelli da Itália?
Altobeli – Meu nome é realmente de origem italiana. Foi meu pai que colocou, porque ele viu o jogador de futebol, da Copa de 82, da Seleção da Itália, e ele gostava muito desse jogador, que chamava Alessandro Altobelli. É um nome que eu gosto.
Corredor espera fazer boa prova e passar para a final dos três mil metros
Corredor espera fazer boa prova e passar para a final dos três mil metros com obstáculos

Jornal Dhoje – Como começou sua carreira?

Altobeli – Comecei a carreira porque eu trabalhava de entregar panfleto em uma rede supermercado em Catanduva. E um dia eu estava andando e vi um outdoor, uma propaganda de uma moto zero quilometro, que iria dar para o primeiro colocado de uma corrida de 10km, que chamava Corrida Internacional Matilat Nardini. Aí olhei e pensei ‘Uma moto para correr 10km, eu ando o dia inteiro nesse sol quente pra ganhar R$130 por quinzena, eu vou é treinar e ir atrás dessa moto aí sô’. Ninguém acreditou, mas eu acreditei. Fui, participei, não ganhei a moto, fiquei em 33º, mas através dessa colocação, um treinador em Catanduva, o Guilherme Salgado, que hoje mora em Ribeirão Preto, me descobriu. Isso foi em agosto de 2008, quando eu dei início nos treinos. Comecei a treinar em setembro de 2008 e de lá em diante em nunca mais parei.
Jornal DHoje – E suas primeiras provas. Como foram?
Altobeli – Quando eu comecei a treinar, eu fui o 5º melhor na cidade, além da 33ª colocação, na prova dos 10km, com o tempo de 34’39’’, ganhei de atletas que eram patrocinados pela Matilat, na época, que hoje é o meu patrocinador. O treinador foi atrás de mim e eu ganhei R$100 e uma caixa de leite, e pensei: ‘Eu tenho como ganhar as coisas. Não é só a moto que ganha’. Vi que se eu alcançasse um nível bom, teria como melhorar no esporte, mas no começo foi difícil. Tive que trabalhar, treinar, ia para a escola. Pegava a segunda aula, voltava, fui muito sacrifício. Meu primeiro salário foi da prefeitura, R$200. Depois de um ano treinando e trabalhando eu comecei ganhando R$ 200, e em 2010, a Matilat, quando eu fiquei em 10º lugar na Corrida Internacional Malitat Nardini, que foi quando eu fui descoberto, veio atrás de mim para me patrocinar. Em 2014 e 2015, eu que venci as edições da corrida Matilat, inclusive em cima de atletas africanos e de outros países. E quem diria? O cara que foi descoberto pela própria corrida, um dia iria vencer e duas vezes ainda.

Jornal DHoje – É verdade que você morou em um Corcel? Como foi isso?
Altobeli – Sim, realmente. Eu morei em um Corcel durante uma semana, porque tive um problema com a minha mãe. Eu tinha um Corcel na época e minha mãe estava encafifada comigo, que eu saia, treinava, e esse negócio de treinar não estava sendo legal no rendimento dentro de casa. Ela queria que eu arrumasse um serviço e aí não teve jeito. Eu tive que sair de casa e a opção que eu tive foi morar dentro de um Corcel 2, que eu morei durante uma semana e ainda ouvindo crítica de algumas pessoas que viam e falavam: ‘Vai pra casa da sua mãe’, e nem sabiam da situação.
Atleta morou em um Corcel 2 durante uma semana, na cidade de Catanduva
Atleta morou em um Corcel 2 durante uma semana, na cidade de Catanduva, até arrumar um quarto

Jornal DHoje – Quem tirou você do Corcel?

Altobeli – Eu namorava na época e minha sogra e meu sogro falaram: ‘Saí desse Corcel e vem morar na minha casa’. Tinha um quartinho e eu pintei tudo, dei uma reformada e fiquei morando de favor no fundo da casa da minha ex-sogra Silene Vono e do meu ex-sogro Éder Vono, que infelizmente a gente não está mais junto, eu e minha ex-namorada, que foi uma pessoa que me apoiou bastante no atletismo. Então, eu morei de favor após o Corcel até eu conseguir alugar meu primeiro apartamento pra poder me manter. Foi onde eu fui ganhando R$ 300, R$500, nas corridas. Competia um final de semana, competia no outro e juntava dinheiro tudo de corrida e dava sequência nos treinos. Eu fui me mantendo do atletismo dessa forma.
Jornal DHoje – Participou de muitas provas até chegar nas Olimpíadas?
Altobeli – Existem muitas corridas amadoras, que me ajudaram muito. É bom que tenham essas corridas porque podem ajudar outros atletas. Eu cheguei a correr corrida que ganhava uma bicicleta. Ganhei a bicicleta e fui criticado. Pagava R$ 150 a corrida. O pessoal não acreditava e falavam: ‘O Altobeli consegue ganhar corrida que paga R$ 1000 e vem aqui pra ganhar uma bicicleta?’. Mas era porque eu estava precisando e eu precisava me manter no esporte, então tive que fazer isso. Hoje as pessoas me admiram pela minha história de superação e pela forma que eu corro. Eu ganho dos africanos, não tenho medo. Todas as provas que entrei esse ano eu ganhei todas. Não perdi uma prova. Tive 100% de aproveitamento até aqui. E foram provas fortes, de nível nacional, com atletas africanos, que o pessoal fala que corre de leão, que não tem nada haver. Os caras treinam, não tem nada de correr de leão, não. Ninguém foi lá pra saber a realidade deles. Isso é conversa de quem não entende do assunto e quer dar palpite onde não é sua área. Antes do pessoal vir falando coisas e vir com a farinha, eu já estou com o mingau pronto. Hoje eu vivo do esporte. O esporte mudou minha vida. Eu poderia ser outra pessoa, mas eu sou um esportista do bem.
Jornal DHoje – Onde espera chegar nas Olimpíadas?
Altobeli – Eu espero fazer uma boa prova e conseguir a classificação. Passar das eliminatórias. Vou participar das eliminatórias, semifinal e depois vem a final.
Prova eliminatória dos três mil metros com barreiras será nesta segunda-feira (15)
Prova eliminatória dos três mil metros com obstáculos será nesta segunda-feira (15), às 10h25

Jornal DHoje – Quem são seus maiores adversários e como superá-los?

Altobeli – Os maiores adversários são todos. Uma competição de nível internacional. Mais ou menos, todo mundo é do mesmo nível, e o que vai decidir são os detalhes. Pequenos detalhes farão diferença na hora da prova. Vai ser a estratégia de cada um. Acho que não posso errar em minha estratégia. Tenho que me posicionar bem e esperar o final da prova. Serão provas lentas e muito rápidas no sprint final, aonde vai ser decidida nos últimos 400, 200 metros finais, que vamos saber quem vai classificar e não vai. Mesma coisa será na final.

Jornal DHoje – Qual tipo de música te inspira para correr?

Altobeli – As músicas que eu mais curto são músicas gospel. Uma das melhores que é inspiradora, fala de Deus, fala de amor ao próximo, solidariedade, de compartilhamento, de ser uma pessoa apegada as coisas de Deus, acreditar que Deus é a única solução para nós, e isso é maravilhoso. Eu gosto de um pouco de tudo, mas as que eu mais me identifico são as músicas gospel. A minha preferida é  “Campeão”, da Jamily. Campeão, vencedor. Deus dá asas, faz teu voo.

Por Marcelo SCHAFFAUSER

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