Dia dos Pais: Uma pedra no caminho

Foto: Guilherme Batista

Neste Dia dos Pais vamos contar a história de Gilberto Francisco da Silva, 34 anos, o pai da pequena Elena. Com 33 semanas de gestação, a esposa dele, Vânia Cristina Machado contraiu uma infecção generalizada, que colocou em risco a vida dela e do bebê.

“Eu sempre tive medo de ser pai. Ter um filho é pensar no futuro, na criação, no mundo atual. Não queria colocar apenas mais uma criança no mundo. Minha vontade sempre foi de participar”.

Foto: Arquivo Pessoal

A frase acima é do empresário Gilberto Francisco da Silva. Casado há 17 anos com Vânia Cristina Machado, eles esperaram 15 anos para concretizar um antigo sonho: o da paternidade.

A chegada do primeiro filho do casal foi adiada inúmeras vezes. Vânia queria concluir a faculdade e, Gilberto queria construir a casa da família. Quando finalmente decidiram que a família iria aumentar eles esbarraram com o fator tempo. Vânia já estava com 41 anos e a gravidez seria e risco. Eles tentaram durante um ano, passaram por vários exames e, nada de bebê.

“O médico disse que estava tudo bem com nossa saúde, mas nosso filho não vinha. A ansiedade era grande, mas teríamos que ter paciência”, relata Gilberto.

Vânia se matriculou em uma autoescola pra pensar em outras coisas. Gilberto comprou sua serralheria e a vida seguia, como antes. O que eles não esperavam era que o que mais desejavam já estava a caminho.

“Eu sempre tive medo de ser pai. Ter um filho é pensar no futuro, na criação, no mundo atual. Não queria colocar apenas mais uma criança no mundo. Minha vontade sempre foi de participar”

“No meio do processo da Vânia, para tirar a habilitação descobrimos que ela estava grávida. Foi o dia mais feliz da minha vida”, fala ele emocionado.

Vânia já é mãe de dois rapazes, um de 26 e outro de 20 anos. A terceira gestação foi comemorada ainda mais quando, no quinto mês de gravidez eles descobriram que seriam pais de uma menina. Vinha ai a pequena Elena.

A gestação foi tranquila até o sétimo mês. Mãe e filha se desenvolviam bem, até que tudo mudou. Vânia passou a ter dores e, passava a maior parte do tempo deitada. “Eu sentia muito cansaço. Não aguentava caminhar, não levantava muito da cama. Achava que tudo era por conta da gestação, mas não imaginava que estava doente de verdade” conta Vânia.

O pré-natal era feito na Santa Casa e, na semana em que Vânia ficou muito doente, o médico que a acompanhava deixou a cidade para uma viagem em família. Nesta mesma semana, ela e o marido procuraram uma Unidade de Pronto Atendimento duas vezes, em um intervalo de três dias. Em um dos atendimentos ela chegou a ser encaminhada para um hospital, mas foi medicada e liberada.

As dores continuaram e, agora eram com mais intensidade. “Um dia cheguei em casa do trabalho e ela chorava muito. Coloquei ela dentro do carro, perdido, preocupado. Chegamos na Santa Casa e tive a pior e a melhor notícia da minha vida, tudo no mesmo dia”, relata Gilberto.

O médico que avaliou Vânia, disse a Gilberto que o parto era de risco. A esposa dele estava com uma infecção generalizada e o parto deveria ser feito o mais rápido possível. O agravante é que eles teriam que aguardar uma vaga para o Hospital da Criança e Maternidade, já que elas precisariam ser encaminhadas para uma UTI após o procedimento.

“Meu chão se abriu, perdi minhas forças e não queria acreditar naquilo. Tive a melhor notícia do mundo sobre o nascimento, mas logo em seguida fui informado que poderia perder a mulher que eu amo. Minha família não mora em Rio Preto, minha sogra estava doente. Me vi desamparado e só me restava rezar”, fala emocionado, Gilberto.

O pedido de encaminhamento veio logo. Vinte minutos após o pedido, o casal já estava a caminho do HCM. Quando lá chegaram, uma equipe já esperava por Vânia.

“Fui atrás da equipe, que já percorria o corredor até o Centro Obstétrico. Quando cheguei até a porta, fui impedido de entrar. Vieram com uma história de que eu teria que colocar uma roupa especial pra entrar e pediram para aguardar. Foi só pra me enganar. Eu passaria ali as piores horas da minha vida”, diz Gilberto.

As horas foram passando, as informações não vinham. Ele sabia que o caso da esposa era grave, mas não perdia a esperança. Ele ainda teve tempo para contemplar o que acontecia na sala de espera. “Uma família esperava pelo nascimento de uma criança. A cena que eu imaginei pra mim. Coloque a cabeça na porta e não pude conter as lágrimas. Sozinho, sem ninguém e sem informações. Nesse meio tempo tentei ligar para os meus pais, que moram em um sítio em José Bonifácio. Pra ajudar a ligação não completava e meu desespero aumentava. Quando finalmente ouvi o alô de meu pai, a voz não saia. Não conseguia soltar uma palavra. Engolindo seco e depois de muito esforço, conseguir dizer: pai a Vânia está morrendo e vão ter que tirar a Elena. Não sei o que eu faço”.

Gilberto diz que durante o tempo que passou ao telefone com o pai, o sentimento de angústia foi passando. Ainda na sala de espera, mais uma vez ele observava uma família que chegava para acompanhar um parto. Do canto eu contemplava as pessoas na sala. “Meu telefone tocou, minha mãe. Mais choro. Expliquei que o parto seria arriscado e que uma das duas poderia não resistir. Ela pediu que eu me acalmasse e confiasse em Deus. A família que aguardava, se compadeceu da minha dor e vieram ao eu encontro. Fui acolhido por aquelas pessoas que nunca tinha visto. Fui consolado e meu coração já batia mais aliviado”.

Passado mais um tempo, a médica surgiu na sala, e foi explicar para Gilberto sobre o parto de Vânia. “Correu tudo bem. Elena é uma menina forte, respirava bem e sem ajuda de aparelho”, disse a médica para ele.

Após a cesariana, Vânia foi levada para a UTI do HB. Estado dela era gravíssimo.

Depois disso, Gilberto pode ver a filha Elena, na UTI Neonatal. “Cheguei à UTI, tantas crianças, tantos aparelhos. Jamais havia passado por isso, mas o meu problema não era o mais grave. Outros pais estavam há meses aguardando que os filhos, que também nasceram prematuros, finalmente pudessem ser encaminhados pra casa”.

Após ver a filha, Gilberto foi pra casa. A visita à mulher só seria autorizada no dia seguinte, durante o horário de visita. Ele descreve a cena que viu quando chegou para ver a esposa. “Entubada, sedada e ligada a máquinas. A médica disse que o quadro era gravíssimo e que eu deveria e apegar a Deus, porque eles não teriam mais o que fazer. Foi como se meu chão se abrisse pela segunda vez. Minha esposa praticamente morta em uma cama e o pensamento era apenas um: e agora? O que eu vou fazer da minha vida sozinho, com uma filha. Minha esposa vai morrer e vou ficar sozinho”.

“Cheguei à UTI, tantas crianças, tantos aparelhos. Jamais havia passado por isso, mas o meu problema não era o mais grave. Outros pais estavam há meses aguardando que os filhos, que também nasceram prematuros, finalmente pudessem ser encaminhados pra casa”

Uma corrente e oração começou entre amigos e familiares. O quadro naquele dia não evoluiu. Após a segunda visita, no período noturno, ele voltou pra casa, mas não deixou de acreditar em um milagre. No dia seguinte, o impossível aconteceu.

“Cheguei à UTI e vi minha esposa sentada. Ainda sob o efeito dos remédios, mas sem aparelhos para ajudar na sua respiração. A fala ainda era desconexa, mas ela estava ali, viva”, diz chorando, Gilberto ao lembrar.

Foram sete dias na UTI e mais onze dias de internação no quarto. A infecção se alojou em uma pedra, no rim esquerdo de Vânia. “O médico disse que temos essa bactéria, mas que como eu tinha a pedra, ela ficou alojada ali e meu quadro evoluiu, negativamente”, conta ela.

“O dia dos pais é todo dia. Vejo tantas pessoas que não acompanham seus filhos e, pra mim é esse o maior presente que poderia ganhar”

Elena ficou um pouco mais, 25 dias. A pequena nasceu no dia 6 de outubro de 2015, de 33 semanas, pesando 1.440 kg e medindo 44 cm. A pedra, que quase custou a vida de Vânia ainda está ali. Ela deve passar por uma cirurgia nos próximos meses. Sobre a data e os acontecimentos, Gilberto só tem a agradecer. “O dia dos pais é todo dia. Vejo tantas pessoas que não acompanham seus filhos e, pra mim, é esse o maior presente que poderia ganhar. Tudo o que passei, foi muito pouco perto do que outras pessoas passam. Só quero poder acompanhar a minha filha e receber o abraço gostoso todas as vezes que voltar pra casa. Meu presente é ter as duas do meu lado”, completa Gilberto.

Por Jaqueline BARROS

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