Desestrutura familiar favorece abusos contra crianças e adolescentes

Suporte familiar é fundamental para a vida dos menores (Foto: Cláudio Lahos)

O Dia Nacional de Abuso Contra Criança e Adolescente é celebrado neste sábado (18). A data remete ao dia 18 de maio de 1973, quando a Araceli Crespo, de 8 anos, foi raptada, estuprada e morta por jovens de classe média alta em Vitória, no Espírito Santo. Os agressores nunca foram punidos.

Segundo o site, Governo do Brasil, entre 2015 e 2016, 37 mil casos de denúncias de violência sexual na faixa etária de zero a 18 anos foram recebidos pelo Disque 100. Segundo a Out of the Shadows Index, criado pela The Economist, com apoio da World Childhood Foundation, The Carlson Family Foundation e Oak Foundation mostra, que no mundo, o Brasil ocupa a 11ª posição no combate ao abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes.

Dhoje Interior

Para o juiz da Vara da Infância e Juventude de Rio Preto, Evandro Pelarin, os conselhos tutelares estão mais equipados e com maior capacitação, o que resulta no avanço no combate a esse tipo de crime, porém o magistrado reforça que o problema maior é a desestrutura familiar.

“As redes de atendimento do município, saúde, assistência social e educação também capacitaram seus agentes a identificar melhor os casos que são atendidos. De uma forma geral, houve avanços. O problema maior, ao meu sentir, ainda está na chamada ‘desestrutura familiar’, onde mais crianças crescem sem pai e até sem mãe, ou porque estão presos ou porque conceberam filhos sem planejamento e sem noção do compromisso, ficando as crianças desprotegidas e muitas vezes desamparadas, criadas por familiares e conhecidos da família”, explicou.

Pelarin ponderou ainda que “há uma crescente cultura de objetificação do corpo feminino, quer por meio da música, por meio de vídeos em redes sociais, tornando a mulher desumanizada e observada por dotes físicos, o que torna as meninas ainda mais vulneráveis. Haja vista que a maior quantidade de vítimas de violência sexual é de meninas e são elas as que mais precisam de abrigo e socorro do Estado. Portanto, para falar seriamente desse tema, temos que entrar no debate dessa subcultura crescente da vulgarização sexual da mulher e combatê-la desde cedo”.

Sobre os reflexos que o abuso causa na vida dos menores, o psicólogo Marcus Vinícius Gabriel salientou que “abusos, de qualquer espécie, são intromissões, são invasões ao território particular de alguém. É arrombar a porta, entrar e bagunçar a casa. No caso de ocorrer contra uma criança ou adolescente, precisamos lembrar que essa fase do desenvolvimento humano é uma fase de ajustes, reconhecimento e sensações diversas, na relação do ser com o mundo”.

Segundo o especialista, “a violação do corpo e a objetificação dele comprometem, sistematicamente, o funcionamento restante. A vivência da sexualidade da criança e adolescente está, ainda, em processo gradual e mais voltado à afetividade. Importante esclarecer que abusar vai além do ato, em si. Todo esse impacto compromete o equilíbrio da pessoa abusada em sua relação com si mesma e com o mundo. Corrói sua estabilidade emocional, implode a continuidade do processo de vivência de sexualidade e, sobretudo, da qualidade afetiva desse sujeito”.

E acrescentou que “a reestruturação e reconstrução do ser demanda tempo, pois há uma situação de agravo sobre a organização mental e psíquica. Requer tempo e atendimento multidisciplinar”.

Por Mariane DIAS