Consultora de negócios de Rio Preto vence concurso nacional de beleza negra

Jéssica Lopes, ou Jéssica Bombom como é conhecida no meu artístico, foi a grande vencedora do Baile do Carmo, realizado em Araraquara, no último dia 11.

O evento, que comemorou 131 anos em 2019, é uma celebração da comunidade negra, iniciada entre os escravos no século 19. Organizado pelo diretor Daniel Costa, o Baile do Carmo é considerado a mais sólida manifestação da cultura negra em Araraquara, uma forma de resistência e fortalecimento da comunidade negra e todos os anos reúne mais de cinco mil pessoas em torno de toda a programação.

Jéssica disputou a coroa com outras 100 candidatas de todo o país. Negra de responsabilidade, ela disse que só de ter concorrido já foi uma vitória. A consultora de negócios nunca havia participado de um concurso de beleza antes, mas mostrou que é pé quente.

“Entrei nesse concurso, após a indicação de um amigo, o Alex Cardoso. Pensei: um concurso nacional? Vamos lá. Enviei minhas fotos e fiquei no aguardo. Foram mais de mil inscritas e fui selecionada entre as 10 e, logo depois, entre as três finalistas. Trazer a faixa de campeã para Rio Preto muito me orgulha. O resultado é uma forma de discorrer sobre políticas públicas de igualdade”, disse Jéssica.

Alex Cardoso, responsável pela inscrição de Jéssica, falou sobre a participação da amiga no movimento negro. “Trabalhadora, participante ativa de vários projetos ligados a questões de igualdade racial e africanidade, a Jéssica é a história que nunca existiu. Nossa preta levando o nome de Rio Preto para todo o Brasil”, comemorou o resultado.

Para quem não sabe, o Baile do Carmo trata-se de uma atividade cultural de valorização dos negros. Em meados do século passado, os negros não podiam ocupar os espaços dos brancos. Isso valia também para os locais destinados ao lazer, por isso, o baile se tornou tão importante para a comunidade.

Ao longo dos anos, o baile foi se moldando à sociedade. No início era uma tarde de futebol e samba, a noite de galã, ambas no sábado e no domingo, um boteco com samba. Atualmente são cinco dias de programação.

Jéssica fala sobre a importância do evento para ela. “Um sonho. É poder mostrar que nós, negros, temos a nossa identidade. É ajudar muitas mulheres e meninas que não se aceitam, que têm medo de se expor, falar e pensar. Foi um sonho, uma honra e uma responsabilidade imensa. Tudo isso faz parte desta luta, dar continuidade à nossa cultura”, enfatizou.

Daniel Costa, organizador do evento há 31 anos, comentou sobre a história do Baile do Carmo. “Tudo começou no bairro do Carmo, local que abriga hoje uma unidade do Sesc. Lá havia um quilombo e um escravo de nome Damião. Esse negro, sonhou um dia com Nossa Senhora do Carmo dizendo a ele que era tempo de deixar o sofrimento de lado e festejar. A festa começou aí, mas o idealizador do evento acabou tendo as pernas cortadas quando o capitão do mato descobriu a festança. A agressão foi uma forma de punir o escravo, já que ele não poderia mais dançar”, concluiu Costa.

Por Jaqueline BARROS

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