Conexão Capivara: Sacudindo a poeira

Se certas canções refletem momentos específcos da vida, o vereador paulistano Eduardo Suplicy (PT) há quatro anos vem assobiando a obra mais famosa do compositor Paulo Vanzolini – “Volta por Cima”. Em 2014, após 24 anos ininterruptos como senador por São
Paulo, Suplicy foi vencido nas urnas por José Serra (PSDB). Em boa parte, pelo desgaste do seu partido, o PT, que já vinha desgastado com várias denúncias de corrupção que só se acumularam desde então, com a condenação recente do símbolo máximo da legenda, o
ex-presidente Lula.

Suplicy quis sacudir a poeira. Virou secretário do então prefeito Fernando Haddad em 2015, candidatou-se a vereador de São Paulo em 2016 e obteve a maior votação
da história da cidade. Agora, aos 76 anos, apresenta-se novamente para tentar resgatar uma vaga no Senado. E, por ironia do destino, terá como adversária nas urnas sua ex-mulher Marta Suplicy, com quem foi casado por 36 anos e agora militam politicamente em
polos opostos.

Em entrevista à Conexão Capivara, o vereador paulistano fala que nunca pensou em deixar o PT, mesmo após a avalanche de denúncias de corrupção, que acredita na inocência do ex-presidente Lula e que Jair Bolsonaro não irá longe na sua disputa presidencial. Além
de comentar as diferenças e semelhanças entre ele e Marta. E, como não poderia deixar de ser, cita seu secular projeto do Renda Básica da Cidadania – senão não seria o Suplicy.

O senhor virou artigo de luxo no PT. É um dos poucos quadros célebres do partido que não foram engolidos por escândalos e denúncias de corrupção. Mas também pagou nas urnas o preço do desgaste junto ao eleitorado. Nunca pensou em deixar a legenda?

Eduardo Suplicy: Eu sempre faço uma reflexão. O Partido dos Trabalhadores é uma grande organização. Se algumas pessoas dentro do partido erraram – e foram erros gravíssimos, como enriquecimento ilícito – meu dever é ajudar a corrigir esses erros. Eu tenho 24
anos como senador, fui secretário municipal do prefeito Fernando Haddad e sempre agi com correção, transparência e ética. Muitas pessoas erraram e em muitos partidos. Não só o Partido dos Trabalhadores. Muitas vezes me fazem essa pergunta de por que permanecer.

Em 1979, logo após ser eleito em 1978 pelo PMDB, eu senti afnidade com os propósitos deste partido e abracei seus ideais. Algumas lideranças mais jovens do partido falam muito que o PT precisa assumir seus pecados, pagar o preço e tentar reconquistar a confiança da sociedade. Mas, ao insistir com o nome e Lula na disputa presidencial, a legenda não está fazendo exatamente o oposto?

Suplicy: Ainda não se completou a possibilidade de defesa do presidente Lula. Seja no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e especialmente no Supremo Tribunal Federal (STF). O fato do ex-ministro Sepúlveda (Pertence, ex-ministro do STF) ter aceitado a defesa do
presidente em si já diz muita coisa.

Ele não acredita que o Lula tenha cometido os crimes pelos quais foi condenado pelo juiz Sergio Moro. Eu ouvi várias vezes do presidente de que ele não levou qualquer vantagem, seja de 5 centavos ou de 10 reais. E ele vai comprovar isso. Acho importante destacar que reportagem no mais importante veículo de comunicação dos Estados Unidos, ou até mesmo do mundo, o New York Times, mostrou como a Justiça brasileira tem agido com distorção no caso do presidente Lula e no afastamento da presidenta Dilma Rousseff. E aponta que, se fosse nos Estados Unidos, ele não teria sido condenado.

Muito se fala que Lula está sendo perseguido pelo juiz Sérgio Moro, pela “elite” e pelos meios de comunicação. O senhor acredita mesmo que o ex-presidente é um injustiçado?
Suplicy: Eu espero que o STF dê o direito completo para o presidente Lula se defender. Pelo que nós assistimos de 10 horas de julgamento no TRF-4 (Tribunal Regional Federal), apenas 15 minutos foram destinados à defesa. E sem que prova efetiva alguma tenha
sido apresentada. Um presidente que deixou o País com mais de 80% de aprovação tem o direito de se defender de maneira apropriada na Justiça.

Quem o senhor vê como um possível plano B a Lula nas eleições de outubro?
Suplicy: Estou de acordo com a presidente Gleisi Hoffmann (presidente nacional do PT), com a maioria dos deputados e senadores do Partido dos Trabalhadores. Até o último momento, com a possibilidade de o presidente ser absolvido, não deveremos mencionar alternativas para o Partido dos Trabalhadores. O PT tem inúmeros nomes de valor, que poderão ser candidatos a presidência. Inclusive nos próximos dias 9 e 10 a Fundação Perseu Abramo fará um ato público sobre o Brasil que nós queremos, com diversas diretrizes e propostas para o País. Entre elas está a adoção, por etapas, da Renda Básica da Cidadania, que já foi aprovada por todos os partidos e sancionada pelo presidente Lula.

O senhor acredita que o PT e até o PSDB, que abrigaram boa parte dos jovens que lutaram contra a ditadura militar, têm grande responsabilidade hoje no avanço do discurso pró-Bolsonaro, dado o desencanto que provocaram?
Suplicy: O deputado Jair Bolsonaro tem todo direito de se expressar e colocar suas ideias. Mas não acredito que tenha apoio do povo, principalmente quando ele tiver a oportunidade de expor o que pensa na campanha eleitoral.

Ele chegou a mencionar que iria de helicóptero até a Rocinha (Rio de Janeiro) para distribuir panfletos e pedindo para os bandidos se entregarem. Se não o fzerem, ele
metralharia a Rocinha. É uma atitude condenável que desrespeita a Constituição, que não admite pena de morte. Sem contar que estaria ferindo e matando inocentes, foge totalmente ao bom-senso. Se ele quiser combater a criminalidade, deve seguir a recomendação de quem tanto pensou neste assunto. No livro I da Utopia de Thomas
Moore, é apontado que, mais efcaz que transformar o ladrão em cadáver, é proteger a população da criminalidade. Eu aceito inclusive debater com o deputado quando ele quiser. Sobre a culpa do PT sobre o crescimento do discurso do Bolsonaro, eu me sinto responsá-
vel pelas ideias que eu acabo de defender.

Em algum momento o senhor se sentiu traído ou enganado pelos seus companheiros de longa militância?
Suplicy: Há pessoas que agiram de maneira inadequada, com ilegalidades como enriquecimento ilícito e outros erros muito graves. Eu fui eleito senador em 1990, em
1998 e em 2006 sempre com votações altas. Em 2014, um tsunami se abateu sobre o Partido dos Trabalhadores em São Paulo. No Norte e no Nordeste, a presidente Dilma venceu com folga, mas em São Paulo teve apenas 25% dos votos. Eu obtive 32,5%, mas o senador José Serra (PSDB) obteve mais votos e foi eleito. Quando um estava como secretário do prefeito Fernando Haddad, eu perguntei se ele achava que eu deveria me
candidatar a vereador de São Paulo e ele disse que sim.

Conhece a música de um grande compositor paulistano? Paulo Vanzolini? “Um homem de moral não fca no chão, nem quer que mulher lhe venha dar a mão. Reconhece a queda e
não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima” (cantando). Tive a maior votação da história de São Paulo como vereador.

E ontem (2) estive aí em Rio Preto para um debate sobre minha pré-candidatura ao Senado.

Com 76 anos e permanência durante décadas no Congresso Nacional, por que o senhor quer voltar ao Senado? Qual a grande contribuição que o senhor acredita ter dado à sociedade em sua atuação em Brasília e qual acredita que ainda pode dar?

Suplicy: Defendi muitos outros projetos, além do Renda Básica da Cidadania. Sempre apoiei a formação de sociedades cooperativas e defendi iniciativas como o Prouni e
a prova do Enem que fortaleceram a possibilidade de pessoas mais humildes terem acesso ao nível superior. Também criei um fundo sobre doenças raras, além de destinar
emendas ao Hospital do Câncer de Barretos, de Jaú e ao Incor. A ética sempre foi parte da minha vida política. Fui o primeiro signatário da CPI sobre as denúncias do Pedro
Collor de Melo que envolviam o PC Farias e terminou com o impeachment do presidente Fernando Collor de Melo. Também fui o primeiro signatário da CPI do Orçamento, que cassou seis deputados.

Em 2005, tive problemas com o PT quando apoiei a CPI dos Correios, em que pese a recomendação partidária de não assinar a comissão. E logo depois a entrevista do Roberto Jefferson, o próprio PT seguiu a minha recomendação de assinar a formação da CPI do Mensalão.

Como o senhor vê intervenção federal no Rio de Janeiro?
Suplicy: A intervenção militar é um verdadeiro despropósito. Membros do Exército colocando em flas crianças de 9 e 10 anos como se fossem suspeitos de algum crime. É
um descalabro que tem assustado muito a população brasileira. Acho que o presidente Michel Temer está tentando atender as aspirações do deputado Jair Bolsonaro. Bolsonaro
disse até que o Temer está querendo tirar eleitores dele com essa intervenção (risos).

Provavelmente o senhor vai disputar votos com sua ex-mulher, a senadora Marta Suplicy (MDB). Mesmo com duas vagas, vocês vão representar discursos opostos. Isso reflete na relação com os flhos dos dois e com o restante da família?
Suplicy: Tenho maior respeito por ela, com quem fui casado por 36 anos. Nós temos muitas coisas em comum. Quando foi prefeita de São Paulo, ela instituiu o bilhete único, que era algo eu defendia.

Também apoiei a formação dos CEUs (Centros Educacionais Unifcados) com o maior entusiasmo, especialmente nos bairros periféricos. Há proposições da Marta
com as quais me identifco, como o uso da cannabis para fns medicinais, o que pode caminhar para a descriminalização da maconha.

Também temos em comum o fortalecimento da mulher em postos de comando de empresas e ONGs, e também no poder público – a própria Marta e a presidenta Dilma são exemplos dessa força. Nestes pontos estamos de pleno acordo. Mas também tivemos divergências. Quando ela pediu para sair do PT, não me consultou. Por carta pessoal, eu destaquei para ela o quanto a Dilma era séria e não tinha cometido qualquer irregularidade ou enriquecimento ilícito. Ainda mais porque a Marta teve mais convivência com a presidenta Dilma que eu. Foi ministra do Turismo junto com ela e assumiu o Ministério da Cultura quando Dilma era presidente. Sempre tive convicção da seriedade da presidenta, e
esse era um ponto de desacordo.

Caso eu seja escolhido candidato ao Senado pelo PT, vou falar no que eu acredito e a Marta vai dizer o que acha que é melhor segundo suas convicções. Temos ainda em comum nossos queridos três flhos e nossos seis netos queridos, que é o mais importante. Tenho o maior respeito e carinho por ela.

 

Clique aqui e confira na íntegra a coluna desta domingo (04)

COMPARTILHAR

SEM COMENTÁRIOS