Conexão Capivara: Quinze vezes Gilmar

Nada, absolutamente nada, justifica o clamor de uma parcela da população, pedindo a volta do regime militar. Um misto de ignorância sobre o mal que os generais fizeram ao País, aniquilando a democracia, e a expectativa de que a volta do coturno seria uma saída mágica para todos os problemas enfrentados pela nação.

A falsa sensação de tranquilidade e de normalidade se dá por um único fator: tudo era calado e abafado pelos militares. Casos de corrupção não vinham à tona não porque não existissem, mas porque a imprensa era impedida de divulgar e a população, proibida de se manifestar. Mas esse saudosismo injustificado encontra eco quando os poderes constituídos democraticamente – Executivo, Legislativo e Judiciário – capengam.

Um dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), em específco, tem contribuído com a sensação de que os poderes da República não funcionam como deveriam no Brasil.
Trata-se de Gilmar Mendes com seus indefectíveis habeas corpus, que só aumentam a sensação de impunidade no País.

Na quarta-feira passada (30), Gilmar mandou soltar o ex-diretor da empresa paulista de Desenvolvimento Rodoviário (Dersa) Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo
Preto. Preto não chegou a fcar nem 24 horas preso: foi preso de manhã de manhã pela Polícia Federal e solto no início da noite. O ministro também concedeu também habeas
corpus a flha de Paulo Preto, Tatiana de Souza Cremonini.

Não é a primeira vez que o ex-diretor da Dersa deixou a prisão pelas mãos de Gilmar Mendes. Em 11 de maio, o ministro também havia determinado a liberdade de Preto,
acusado de desvios da ordem de R$ 7,7 milhões e suspeito ainda de ser o operador do PSDB em um esquema de propina.

Levantamento feito pelo jornalista Josias de Souza, do UOL, revela um “ritmo industrial” do ministro na concessão de habeas corpus: no intervalo de 15 dias, entre 15 e 30 de maio, Gilmar expediu 15 alvarás de soltura. Além de Paulo Preto e sua flha, foram libertados Orlando Diniz, ex-presidente da Federação do Comércio do Rio de Janeiro, acusado de se apropriar de R$ 10 milhões em verbas públicas, o ex-secretário estadual de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro, Cesar Rubens Monteiro de Carvalho, o doleiro Sérgio Roberto Pinto da Silva e Milton Lyra, um lobista ligado a caciques do MDB do Senado.
Não por acaso, o também ministro do STF Luís Roberto Barroso disse recentemente que as liberações em série “expõem e desprestigiam os juízes de primeiro grau, que enfrentam
essa cultura de desigualdade que sempre protegeu os mais riscos, essa cultura de compadrio”. Não citou o colega de toga, obviamente.

Gilmar Mendes não é o STF, obviamente, mas seus habeas corpus contribuem para o descrédito da Justiça. Por sorte, o Supremo é composto por outros dez ministros. Melhor os equívocos de Gilmar que o jugo de um regime militar. “A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais”, disse certa vez o ex-ministro e herói
inglês Winston Churchill. Na mosca.

 

Clique aqui e confira na íntegra a coluna desta terça-feira(05)

COMPARTILHAR

SEM COMENTÁRIOS