Conexão Capivara: Quem é o palhaço agora?

“Adivinha quem voltou? Duvido vocês adivinhar (sic). Fui eu, o Tiririca. Eu enganei vocês, eu falei que não iria voltar, mas eu voltei. Avisa pro povo, é Tiririca de novo”.

É desta maneira, com todo ar de deboche do mundo, que o palhaço Tiririca tem se apresentado no horário eleitoral gratuito. Tiririca não enganou ninguém. É da natureza dos palhaços se vestir de maneira grotesca, fazer gracejos, pilhérias e trejeitos. Ninguém os leva muito a sério. Pelo contrário: o público vai ao delírio quando os palhaços fazem coisas impensadas e surpreendentes, enganando a plateia com momices bizarras.

Que precisa se justificar mesmo é o deputado federal Francisco Everardo Oliveira Silva (PR). Esse sim tem muito a explicar para a população. Em dezembro do ano passado, após sete anos de mandato, ele utilizou pela primeira vez a tribuna da Câmara dos Deputados. Dizia ele, aliás, que seria a primeira e última. Afinal, estava deixando a vida pública após dois mandatos como parlamentar em Brasília.

Everardo surpreendeu pela pretensa sinceridade ao falar da sua decepção com a política. “O que eu vi nos sete anos aqui, eu saio totalmente com vergonha. Não vou generalizar, não são todos. Mas seria hipócrita se eu saísse daqui e não falasse realmente que estou decepcionado, decepcionado com a política brasileira, decepcionado com muitos de vocês (deputados), muitos”, afirmou em discurso no dia 6 de dezembro. “A gente é bem pago, a gente tira livre R$ 23 mil para a gente. A gente tem apartamento, direito a carro. Sem falar na carteirada que muitos de vocês dão. Ando de cabeça erguida, mas já vi deputado se escondendo porque, para o povo porque, para o povo, isso aqui é uma vergonha”, disse o deputado do PR, ao garantir que não disputaria a eleição neste ano.

Mas Tiririca – não Everardo – é precioso demais para ficar fora de uma disputa eleitoral. Não pela sua atuação parlamentar, obviamente. Foi um dos deputados que menos faltaram nesta legislatura, é verdade, mas sua produção parlamentar é perto de ser pífia: conseguiu em sete anos aprovar um projeto de lei, que cria o Programa de Cultura do Trabalhador, e foi relator de outro, que concedeu o título de “Capital Nacional do Antigomobilismo” ao município de Caçapava (SP). E só.

A importância do palhaço é outra. Em 2010, foi o deputado mais votado do País, com 1,3 milhão de votos. Em 2014, outra votação espetacular: 1 milhão. O sistema eleitoral brasileiro, nas eleições legislativas, é o proporcional. Não ganha o mandato necessariamente o candidato mais votado, mas os partidos ou coligações que foram mais bem sucedidos nas urnas. Em 2010, o chamado “efeito Tiririca” conduziu à Câmara três outros deputados com votações inexpressivas. Em 2014, foram dois.

O PR, partido de Everardo, não está nem um pouco preocupado com a “austeridade”, “sinceridade” ou “produtividade” parlamentar de um deputado que, após sete anos de mandato, aprovou um projeto de sua autoria. O que realmente intriga é saber o que fez o decepcionado Everardo de dezembro de 2017 tentar sua terceira reeleição neste ano. O deputado, claro, não confessa o motivo. Quem sabe Tiririca pudesse fazê-lo daquele jeito debochado – mas, como foi dito, ninguém levaria um palhaço a sério.

Em um ponto Tiririca tem completa razão: somos todos nós, eleitores, um bando de abestados.

Clique aqui e confira na íntegra a coluna desta quinta-feira (6)

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