Conexão Capivara: PM de um lado, Civil de outro

O ainda fresco governador de São Paulo e candidato à reeleição, Márcio França (PSB), tirou da manga mais uma típica promessa da safra pré-urna. E com garantia de muito barulho. Ele estuda, segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo desta sexta, 13, tirar a Polícia Civil da Secretaria de Segurança Pública, sob a qual se acomoda também a Polícia Militar.
Pela ideia preliminar ventilada, a Civil passaria a integrar a pasta da Justiça, enquanto a Polícia Militar fica onde está, mas com uma espécie de tonificante para o seu ego. Isto porque a segurança, no novo formado teria, necessariamente, no seu comando um alto oficial da PM.

Balão de ensaio ou não, uma vez que tudo que foi apresentado até aqui está no plano das possibilidades, o fato é que a proposta de França soa como música aos ouvidos de boa parte dos delegados da Polícia Civil, que gosta muito do status de polícia judiciária.

“Esta mudança é vista com bons olhos pelas nossas entidades de classe, porque a legislação diz que a atribuição da Polícia Civil é fazer o trabalho de polícia judiciária. É este trabalho investigativo que permite que o poder Judiciário aplique a lei. Antes do crime, a competência é da PM. Depois do crime, a competência de investigar é da Civil. Quando se conclui a investigação, vem a atuação do Judiciário. Por isso, as entidades de classe entendem que nossa atividade está muito mais próxima do Judiciário que da PM, que divide conosco a Secretaria de Segurança”, argumenta o vereador e delegado Renato Pupo (PSD), que integra a Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo.

Para Eder Galavotti, também delegado e representante da categoria, a ideia é “interessante e de vanguarda”. Segundo ele, no geral tem o apoio dos delegados mais novos e alguma resistência dos mais antigos, que se fiam em uma postura mais conservadora.

“A verdade é que há tempos a Polícia Civil de São Paulo vem recebendo pouco investimento. Isso provocou o tal sucateamento e deficit nos quadros. A Polícia Civil exerce uma atividade que vai além da segurança pública, pois íntegra o sistema criminal. Penso que a mudança é uma forma de o governo administrar melhor, atendendo especificidades de cada instituição que em nada prejudicará o trabalho integrado das polícias”, afirma Galavotti.

Na PM, as opiniões ainda são mais cautelosas, embora os defensores da mudança no governo acreditem que o novo formato seria uma forma de valorizar a autoestima dos integrantes, que nunca se sentiram à vontade tutelados por um representante da sociedade civil. O próprio comando na ativa não se manifesta publicamente.

O vereador Jean Charles (MDB), coronel da PM aposentado, tem um olhar um tanto crítico em relação à proposta. Na opinião dele, é simplista demais achar que apenas mudanças de comandos das duas instituições possam ser vistas como políticas de segurança pública. “A questão da segurança pública é muito mais profunda. A polícia é uma pequena fração de um todo que envolve legislação, educação, sistema prisional, além de vários outros fatores. Como isso muda de fato na vida do cidadão? Uma mudança desta natureza apenas é inócua”, diz ele.

Independentemente das opiniões, França vem se revelando estratégico ao impor mais uma pauta no debate eleitoral. Jogou a polêmica no ar para observar que direção toma, além de obrigar seus adversários a se posicionarem. O assunto rende. Politicamente é um gol. Do lado de quem debate segurança pública, a medida é vista como recuo, uma vez que revela mais uma vez a falta de disposição de se a colocar a mão no vespeiro que é a história de integração das polícias, um tema relevante, mas que tira voto.

 

Clique aqui e confira na íntegra a coluna desta sábado(14)

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