Conexão Capivara: ‘Os animais tomam todo meu tempo’

Foto Guilherme Batista

Elisângela Jovana dos Santos é da safra de protetores de animais que até chora quando fala das dificuldades enfrentadas no dia a dia para conseguir atendimento para um cachorro doente, por exemplo. E é também da mesma safra que descobriu mais recentemente que o tema ganhou tanto espaço na sociedade nos dias de hoje que começou a se reverter em votos para cargo político-partidário.

Lançou-se candidata a vereadora em 2016 pelo Psol, “mas sem nenhum apoio”, reforça. E levou mais de mil votos. Daí que foi picada pela mosquinha azul. Seja lá qual tenha sido a estratégia da legenda ao lançá-la na disputa a federal, ela garante que está levando a empreitada a sério. Chegou na entrevista ansiosa, avisando que só sabia falar da causa animal. Realmente mostrou-se à vontade com o tema, mas revelou desconhecer o básico de temas polêmicos na pauta do Congresso Nacional.

Espontânea e faladeira, não se prendeu a amarras ideológicas de esquerda, mostrando-se alinhada a posições de direita em temas como a redução da maioridade penal, por exemplo. Veja abaixo principais trechos da entrevista concedida nesta quinta (20) à coluna…

A senhora foi candidata a vereadora em 2016 e agora está tentando um voo muito mais alto. Por que está se lançando candidata a deputada federal? É para cumprir as cotas femininas obrigatórias ou acredita mesmo na possibilidade de sair vitoriosa numa disputa tão complexa e cara?
Elisângela dos Santos – A partir do momento que a gente toma uma decisão dessas é para valer. Todo mundo pergunta: “É estadual?”. Respondo: “Não, é federal”. Aí as pessoas que já entendem mais de política falam: “Nossa, mas foi bem pra frente, já pra federal”. Mas vamos tentar, vamos levar nosso nome, nosso conhecimento. Tenho muito conhecimento pelo trabalho que eu faço em defesa da causa animal. Algumas regiões do Brasil me conhecem. Inclusive, algumas pessoas em Maceió falaram que me darão apoio caso eu seja eleita. Então, vamos tentar, vamos ousar. Na primeira vez foi realmente para entrar por causa da cota e deu certo. Eu não tive apoio do partido para vereadora em 2016 e fui bem.

Quantos votos a senhora teve?
Elisângela – Quase 1, 2 mil votos. Sem coligação, sem candidato a prefeito. Entramos em quatro pessoas só e nos ajudamos. Fomos à luta e deu certo, sabe. Aí eu vi a minha capacidade de fazer alguma coisa em cima do trabalho que eu realizo há 24 anos na cidade.

Exite uma guerra nas redes sociais hoje entre os cuidadores de animais de Rio Preto. Inclusive de grupos ligados à senhora em relação à vereadora Claudia de Giuli (PMB), que milita na mesma área. A falta de união surgiu em função desta disputa por poder, já que a causa, nobre, virou um filão na busca por votos a cargos políticos?
Elisângela – Então, é um pouco complicado porque eu acho que essas desavenças já existem há bastante tempo. Antes de rede social, antes de internet, de explodir por aí. Desde a época que eu comecei. Então, sempre teve essa disputa, um quer fazer mais que o outro para mostrar para outra pessoa. Algumas pessoas mentem em cima da causa animal. Bom, tudo que envolve dinheiro é assim. A causa animal deveria ser vista com outros olhos, Algumas pessoas já usaram muito como forma de renda, para ganhar dinheiro em cima. Fala que resgata cachorro e sai pedindo dinheiro. O cachorro já morreu e a pessoa continua pedindo dinheiro em cima desse cachorro. Não só aqui na nossa cidade. Em todo lugar no País existem algumas histórias de pessoas que se aproveitam da situação.

Ter uma vereadora da causa na Câmara não é uma conquista?
Elisângela – Ela (Claudia de Giuli) é a primeira. Infelizmente ainda não temos o apoio do poder púbico, do Executivo. Ela praticamente fica ali de mãos atadas, porque o prefeito prometeu muita coisa em cima disso na campanha eleitoral dele e todo mundo cobra. Nós, protetores, estamos acumulados com dívidas e animais em casa. Outro dia eu fiz um resgate com a Polícia Ambiental, que geralmente todos me chamam para acompanhar. Eu denuncio, eles me acompanham. Aí o policial perguntou pra mim: “Quantos animais você tem em casa?”. Respondi. Aí, ele falou: “Nossa, não pode”. Eu disse: “Você quer que eu faça o quê? Agora jogo pra rua de novo?”

A senhora falou que tem gente que se aproveita para ganhar dinheiro em cima da causa. Então, explica para as pessoas leigas que se sensibilizam com uma história e queiram ajudar. Como separar o joio do trigo?
Elisângela – Eu falo sempre para quem me ajuda: “Olha, venha conhecer. Venham na minha casa ver.” Eu não vou dar meu endereço pra todo mundo, porque é complicado. Esses dias mesmo tive que instalar câmera na minha casa porque começaram a jogar cachorro por cima do meu muro, que tem quase 3 metros. Chega a machucar o animal. Porque eles caem em cima dos vasos de plantas. Jogam gatos. Então, eu sempre falo para essas pessoas que venham conhecer. É preciso saber quem está ajudando. Eu, por exemplo, devo satisfação para quem ajuda, não para quem faz fofoca. Ou seja, se você está ajudando, exija saber o que está sendo feito. Vá na casa da pessoa. Vai doar ração? Mas tem gente que vende saco de ração, sabe? É, tem esse também.

Do ponto de vista prático, o que uma deputada federal pode fazer em relação à causa animal?
Elisângela – Vou pegar nossa cidade como referência, já que nós estamos com mais de 400 mil habitantes. Outro dia tive uma reunião com o prefeito e ele falou: “Rio Preto é a terceira cidade do Brasil melhor para se viver”. Ele fala isso porque não conhece muitos problemas da cidade. Ele mesmo falou que desconhecia o problema dos animais. É uma questão de saúde pública. Então, uma medida paliativa que nós faríamos é garantir recursos para a castração em massa. Isso é muito importante, ir nos bairros, porque para uma pessoa que mora na periferia, a 20 km do Centro de Zoonoses, que é onde se faz a castração de graça depois de um cadastro e muita espera, fica difícil. Alguns veterinários se aproveitam disso. Uma castração que valeria em torno de R$ 180 a R$ 200 chega a R$ 800. Ninguém tem condições. Eu esto com vários cachorros resgatados para castrar. É do meu bolso que sai se não tem um veterinário que faça isso por coração, por piedade. Uns dizem: “Não, Elisângela, traz aqui que eu vou fazer e divido para você, faço um preço simbólico”. E se não fosse isso, Rio Preto estaria mais no caos, porque nós, protetores, estamos fazendo o trabalho da Prefeitura de acolher animais na rua, animais doentes. Eu acho que deveria ter um castramóvel, parceria com clínicas veterinárias. Tem muitos veterinários começando que querem, que estão engajado na causa.

Quanto a senhora pretende gastar na sua campanha?
Elisângela – Vou falar a verdade. Não recebi doação de ninguém, porque tem esse fundo que a gente…

Nem do partido, o Psol?
Elisângela – O Psol está ajudando a gente, sim.

Quanto foi até agora?
Elisângela – Deram R$ 3 mil pra mim.

Pouco, né?
Elisângela – Sim, mas até que deu para fazer santinho, porque da outra vez não tivemos nada.

Mas R$ 3 mil reais não dá nem para fazer uma campanha de vereadora numa cidade de 50 mil habitantes…
Elisângela – É mesmo, né? Pelo que nós vemos aí. Eu liguei no jornal esses dias e colocaram algumas pessoas lá, alguns deputados. Eu fiquei estarrecida pelos valores, tinha gente ultrapassando um milhão de reais numa campanha…

Qual é a atividade profissional da senhora?
Elisângela- Eu fiz técnico de enfermagem, depois comecei faculdade de letras e não terminei, porque na época eu estava desempregada. Hoje vivo como pensionista, meu pai era militar. A gente, eu e minha mãe, é pensionista. Só que o dinheiro é todo revertido para a causa. Temos uma limitação financeira muito grande, porque minha mãe já está com idade avançada e não pode ficar muito sozinha. Eu tenho uma filha de 12 anos que ajuda também. Então a gente vive com limitações. Minha pensão é comprometida com isso. E os animais tomam todo meu tempo…

Mudando de assunto. A Polícia Federal é hoje a instituição de maior credibilidade entre os brasileiros e fortaleceu-se por ser imparcial em suas investigações. Nota-se que cada candidato a presidente tem uma ideia mirabolante para a PF, o que pode reconfigurar a instituição. Pergunta: A senhora é a favor ou contra dotar a PF de autonomia administrativa e financeira? A senhora apoia a PEC 412/09, que está parada no Congresso, que trata justamente da autonomia da Polícia Federal? (pergunta formulada por André Previato Kodjaoglanian, delegado da Polícia Federal de Rio Preto)
Elisângela – Eu acho que sim. A Polícia Federal faz um trabalho espetacular, não desmerecendo as outras polícias, porque eu tenho a opinião que todos fazem o seu trabalho muito bem feito. Claro, tem muitas falhas, mas a Polícia Federal é quase impecável, vamos dizer assim, então acho que eles precisam dessa autonomia.

Na questão da Lava Jato mesmo, a PF foi uma grande protagonista. A senhora concorda com a atuação dela nas investigações da Lava Jato?
Elisângela – Com certeza. Tanto da Lava Jato como em todas as investigações que envolvam corrupção.

Rio Preto é uma cidade pobre em universidades públicas, apenas uma estadual (a Unesp), mais a Faculdade de Medicina. Não está na hora de a cidade receber uma universidade federal? O que falta para realizar isso? Empenho dos nossos políticos? (pergunta de Fernando Marques, jornalista e historiador)
Elisângela – É o que eu falo, Rio Preto deixa a desejar em muita coisa. Já deveria ter uma universidade federal há muito tempo. Talvez seja algo que, na visão dos políticos, não seja tão lucrativo para eles…

E como conseguir trazer uma Universidade Federal aqui para Rio Preto?
Elisângela – Com investimento. Eles investem em tantas coisas desnecessárias…

Considerando-se o emaranhado de normas tributárias (são mais de 5 mil normas tributárias no País) que criam obrigações acessórias em excesso, burocratizam arrecadação e disfarçam estratégias de aumento de carga tributaria, o que objetivamente a senhora, enquanto deputada, fará para dar clareza e simplificar o ordenamento jurídico, melhorar a segurança do ambiente empreendedor, reduzir a judicialização, a cobrança de impostos e taxas que pesam sobre a comunidade empresarial e toda a sociedade brasileira? (pergunta de Paulo Sader, presidente da Acirp)
Elisângela – Somos um País que tem as maiores taxas, os maiores impostos. E é um dinheiro que não vemos retorno, né? Eu não tenho conhecimento profundo na área comercial, empresarial, mas eu acho que deveria reduzir, ou pelo menos que eles mostrem serviço em cima desses impostos cobrados, convertendo em benefício para a população, porque às vezes a verba sai para alguma área no extremo do país e não chega.

Qual é a opinião da senhora sobre o programa Mais Médicos? (pergunta de Toufic Anbar Neto, médico e diretor da medicina Faceres-Rio Preto)
Elisângela – É igual foi falado, falta muito recurso, falta faculdade. Nós temos uma das melhores do País aqui na nossa cidade, é um orgulho para qualquer pessoa. E o programa Mais Médicos é no que deveria ser investido mesmo. Sabe, é o que eu falei, a população carece de muita coisa, com verbas que não chegam. Se fosse tudo certinho, eu acho que daria pra investir em muita coisa, saúde e tal.

Vamos lá. O programa Mais Médicos foi instalado no governo do PT e, entre outras coisas, permite a vinda de médicos cubanos e de outras nacionalidades para atuarem na saúde pública. Mas enfrenta oposição dos médicos brasileiros. A senhora entende que o Brasil deve investir mais na formação de médico aqui ou buscar profissionais que queiram atuar em áreas nas quais faltam profissionais?
Elisângela – Na minha sincera opinião, sou super contra, porque nós temos ótimos profissionais. Nós temos formandos ai que estão precisando trabalhar. Com certeza, não é porque é médico que ele já vai sair empregado. Então, tem que investir no nosso País, nos nossos profissionais. Devemos investir e isso é uma obrigatoriedade. Eu acho uma coisa fora de cogitação você trazer outras pessoas, de outros lugares, para trabalhar no nosso país. Deixa eles lá trabalhando no País deles e dê valor no nosso aqui.

Vamos ao nosso teste. Qual a opinião da senhora sobre…
1) Descriminalização do aborto?
Elisângela – Eu acho que todo mundo é contra o aborto, ninguém é a favor de tirar uma vida, vamos dizer assim. Mas é um assunto muito complicado. A descriminalização reduziria a morte entre as mulheres, porque quem tem dinheiro paga clínica boa e quem não tem vai em clínica clandestina. Mas precisa de uma discussão da sociedade sobre o assunto.

2) Descriminalização do uso da maconha?
Elisângela – Sou contra o uso de qualquer tipo de drogas, incluindo drogas lícitas como álcool e tabaco

3) Liberação do uso de armas pelo cidadão comum?
Elisângela – Eu sou totalmente contra. Na minha casa mesmo tive a experiência do meu tio, que cometeu suicídio com uma arma de fogo. Nós sempre tivemos arma de fogo em casa, sempre. Meu tio, num momento de depressão, cometeu suicídio. Anos antes, uma mulher com quem ele não queria ter relacionamento, atirou nas costas dele. Isso uns 30 anos atrás, quando todo mundo tinha armas em casa. Essa mulher tinha uma arma, deu um tiro nas costas dele, ele ficou paraplégico. E aí entrou em depressão, pegou a arma que tinha em casa e se matou. Olha a consequência. Vamos brincar um pouquinho: o brasileiro não tem mira para usar um vaso sanitário, vai ter mira atirar em alguém? Tem tantos policiais morrendo na mão de bandidos e eles são treinados para usar uma arma. Imagina a pessoa comum. Vai virar um bagunça total.

4) Redução da maioridade penal para 16 anos?
Elisângela – Vou falar por mim. Eu sou a favor, porque um menino de 16 anos pode fazer filho, pode matar e roubar, ir para a rua, né, mas não acontece nada. Ele pode votar. Daqui uns dias vai poder tirar carta. Mas para acontecer isso, deveria mudar totalmente a Constituição, que é antiga, não tem lógica.

Para finalizar. Porque a senhora acha que merece o voto de confiança do eleitor?
Elisângela – Vamos renovar, porque dos mesmos estamos cansados. Vamos dar oportunidade para quem é honesto, para quem fala a verdade, para quem quer trabalhar mesmo. Independentemente da causa que a pessoa luta, vamos dar oportunidade e, com certeza, essa oportunidade eu não quero sozinha. Eu falo sempre que estamos juntos, que sozinho ninguém faz nada. Então, a população tem que participar. Então, nessa oportunidade eu peço seu voto para estarmos lá e renovarmos aquele Congresso, que está precisando de uma reforma geral.

 

Clique aqui e confira na íntegra a coluna desta sexta-feira (21)

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