Conexão Capivara: O reconhecimento é meu maior prêmio

Diego Mahfouz é uma máquina de ganhar prêmios na Educação, o que o transformou em celebridade de alcance internacional na área. Mas, voluntária ou involuntariamente, também é sinônimo de polêmicas. Há dois anos, o diretor da escola municipal Darcy Ribeiro virou case para educadores. Pelo trabalho que realizou como diretor na unidade escolar do bairro Santo Antônio, arrematou títulos como Professor Nota 10 e Professor do Ano, edição
de 2015, da Fundação Victor Civita.

Levou o Oscar dado pela Academia Brasileira de Educação e, agora, é um dos dez fnalistas do Global Teacher Prize, uma das mais importantes premiações de docentes do mundo. Mas foi justamente esse cara, cheio de moral, que impôs uma das maiores saias justas ao atual governo. Em 2017, quando Beth Somera assumiu como secretária da Educação de Edinho Araújo (MDB), ele foi tirado do comando da escola que dirigia e realocado como professor em um núcleo de atividades complementares da pasta.

A alegação era de que não tinha concurso para diretor e estava ocupando cargo de confiança. Diego pediu afastamento da rede e partiu para uma temporada de intercâmbio
cultural no exterior. Voltou quando Somera já não estava mais na pasta e o cargo de diretor lhe foi ofertado novamente. Antes de viajar, porém, entrou com ação na Justiça
contra concurso realizado pela Prefeitura de Rio Preto para diretor, no qual foi reprovado
na avaliação psicológica. Agora, diante de holofotes ainda mais potentes, ele vira alvo
de críticas e acusações em redes sociais vindas de representante de um sindicato de
professores. Outra polêmica que envolve o professor mais festejado da cidade no momento. Leia abaixo entrevista que ele deu às capivaras.

Em que momento o senhor percebeu que podia fazer a diferença na escola pública?
Diego Mahfouz – Na verdade, eu não tinha pretensão alguma de fazer algo voltado para a área da educação, nem ser professor. Eu morava em Paranaíba (MS) e minha mãe fazia tratamento em Barretos, porque ela tinha uma doença grave. Era muito sofrido ela vir de Paranaíba para Barretos toda semana, então minha família se mudou para Rio Preto, mais próximo de Barretos.

Foi quando eu entrei no ensino médio. Um dia uma amiga me chamou para ir com ela
fazer inscrição no Cefam, que era onde se fazia magistério em Rio Preto. Chegando lá,
eu fquei sabendo que quem passasse na prova recebia bolsa em dinheiro para estudar. Eu, como gostava de estudar, decidi prestar a prova também. Fiz a inscrição, passei e comecei a cursar o magistério. No meu segundo ano, minha mãe morreu. Eu tinha medo de fcar em casa sozinho e, então, fui numa escola no Eldorado onde tinha concluído meu estágio e pedi para continuar lá como voluntário. Fiquei numa sala de aula de pré-escola ajudando a alfabetizar crianças. Quando chegou no final do ano e eu vi as crianças lendo e escrevendo, achei aquilo incrível e me apaixonei pela educação. Logo que terminei, prestei concurso nas prefeituras de Jaci e Mirassol. Passei nos dois. E comecei a fazer pedagogia. Na faculdade, criei um blog chamado Revolução na Educação e foi crescendo em mim a vontade de fazer
algo transformador…

Quais os principais desafios que o educador sofre na busca por uma escola pública nota 10?
Diego – Realmente nosso País não valoriza adequadamente a Educação. Seja
nas políticas públicas ou nos investimentos. Na Darcy Ribeiro, alguns pontos foram
fundamentais para que a escola tivesse esse reconhecimento, se tornando uma
referência nacional e internacional. Para construir uma escola nota dez, é preciso
dar voz aos alunos. Ouvir o que eles têm a dizer. Foi assim que ganhei a confança dos
alunos. Trazer a comunidade para dentro da escola também é algo muito importante. Fazer a comunidade se sentir pertencente ao ambiente escolar. Porque parecia que a Darcy era uma escola e o Santo Antônio era uma comunidade à parte. Eles tinham muita vergonha e nem matriculavam os flhos lá. Tem ainda a questão de mediar os conflitos dentro da escola. Visitamos famílias, mostrando o quanto elas são importantes no processo. Outra coisa importante é a gestão democrática. Porque a gestão precisa ser compartilhada com todos os agentes da escola. O diretor é o grande maestro de uma orquestra, mas ele precisa liderar essa orquestra para que todo o trabalho em equipe seja revertido em prol do aluno. Quando isso acontece, vem o reconhecimento e o apoio. Por fim, a mudança
do olhar. De como a escola é vista dentro e fora da comunidade.

O que precisamos para que os bons exemplos na escola pública deixem de ser exceções?
Diego – Investimentos nas políticas públicas educacionais, a reformulação na nossa lei
de diretrizes e bases, que está muito defasada diante das necessidades e do contexto atual. A valorização do docente, porque a escola ainda carrega aquela concepção do século 19. Então, precisamos de uma política de formação continuada de professores em que eles não vão à faculdade somente para aprender a parte teórica, mas sim para aprender a lidar com o dia a dia, com esse novo aluno que está se formando. Estamos vendo que a escola tem de ser cada dia mais atrativa para o aluno, porque a concorrência aí fora é muito grande com a expansão dos recursos tecnológicos, a globalização. Então a escola tem de ser muito atrativa para que tenha um bom resultado, que seja capaz de mostrar para eles que ela pode ser um local de transformação de vida. Nos, educadores, somos agentes dessa transformação. Quando a escola tem o olhar do acolhimento e proteção, o mundo das drogas passa a ser desinteressante.

O senhor já acumulava prêmios nacionais, além de reconhecimento público, mas
sofreu revés quando a professora Beth Somera assumiu a Secretaria da Educação no início do atual governo. O senhor foi tirado da escola que dirigia, a Darcy Ribeiro, e realocado como professor em um dos núcleos. Acabou se afastando e fcando um período fora. O senhor se sentiu injustiçado?
Diego – Isso, eu já havia ganhado naquela época o prêmio Educador nota 10 e Educador
do Ano pela Fundação Victor Civita. E também havia ganhado o Oscar da Educação pela Academia Brasileira de Educação do Rio de Janeiro. E não, eu não me senti injustiçado porque era uma troca de governo. Mas, diante da situação, eu preferi solicitar um afastamento, que eu tenho por direito como servidor público, e fui me aprofundar num intercâmbio cultural em outros países da Europa. Assim, eu pude voltar com bagagem maior para o Brasil, até para eu conseguir fazer um paralelo entre a educação no nosso País e a educação no exterior, de forma a descobrir bons exemplos lá fora que podem ser adaptados aqui. Então, reforço, não me senti injustiçado, não. Quanto a isso, posso dizer também que era o momento ideal para eu fazer esse intercâmbio. Quando terminei o trabalho lá fora, recebi convite para retomar meus trabalhos na escola Darcy Ribeiro e voltei.

O senhor já se sentiu usado politicamente?
Diego – Eu tenho princípios muito claros no trabalho que realizo. Por isso, nunca me
senti usado politicamente, seja por político da cidade, seja de qualquer outra parte do Brasil. Pelo contrário. Eu penso que o diretor de escola tem de receber a todos na escola. Esse é o nosso papel. Receber a todos e demonstrar as coisas boas que acontecem no espaço escolar. Penso que esse projeto tem que ser disseminado por todo o País. Recebo ligações de educadores de outras cidades e até do exterior me pedindo dicas, ajuda. Então, quanto mais pessoas conhecerem, mais pessoas vão divulgar o trabalho e ajudar outros educadores que encontraram os mesmos problemas que encontrei como cheguei na Darcy Ribeiro. Essa questão de uso político, eu tenho bem clara comigo. Até porque nunca quis me envolver em política. Fiz alguns trabalhos de apoio (ele gravou depoimento em favor de Orlando Bolçone na última campanha eleitoral), mas foi espontâneo e em agradecimento ao apoio que recebi.

Caso leve o prêmio internacional, que prevê prêmio de R$ 1 milhão, o que o senhor fará com o dinheiro?
Diego – No ato da inscrição, uma das perguntas era se eu investiria parte do valor em
algum projeto de educação. Eu disse que sim, porque um sonho que tenho é montar uma
ONG aqui na zona norte de Rio Preto que possa, no contraturno escolar, acolher jovens com oferta de cursos profssionalizantes. E assim, encaminhá-los ao mercado de trabalho. Porque hoje, no horário alternativo ao da escola, o menino fca na rua. E a rua é a porta de entrada do mundo das drogas e da criminalidade. Então espero poder fazer essa diferença. Montando essa ONG, acho que vamos conseguir atender uma grande quantidade de alunos. Nós temos poucos instrumentos na cidade que fazem esse tipo de coisa. A Darcy já virou referência de jovens e pais que chegam lá pedindo ajuda para sair do mundo da criminalidade, para conseguir emprego. Com a ONG, isso vai fcar mais efetivo. Então, parte do dinheiro, se eu ganhar, vai para este projeto.

Qual seu projeto de vida a partir de agora?
Diego – Meu projeto de vida a partir de agora é que esse trabalho possa continuar sendo divulgado a nível nacional e internacional e, assim, continuar ajudando quem tem difculdades na sua comunidade. E atrair parceiros para a montagem dessa ONG que falei. Afnal, qual o sentido dessa premiação se eu não puder revertê-la em amor ao próximo? Também quero ajudar na formação de educadores em todo o País. Quero continuar na área da Educação e ainda temos muitos projetos para consolidar na escola Darcy Ribeiro. Não tem prêmio que pague o reconhecimento que tenho na minha comunidade. Isso é muito gratificante.

Neste sábado,17, um professor e sindicalista que trabalhou na Darcy Ribeiro, Fabiano de Jesus, fez uma longa postagem no Facebook na qual o acusa de ser uma “fraude”, que teria mascarado dados e até impedido a formação de um grêmio na escola.  Isso mostra que o senhor não é uma unanimidade dentro da rede. O que o senhor diz sobre isso?
Diego – Toda a comunidade sabe como era a escola Darcy Ribeiro antes, quando eu
cheguei. Temos um portfólio que retratada toda a mídia negativa referente à escola. Agora é normal ele, como marido da diretora anterior a mim, fazer esse tipo de fala. Mas é evidente a transformação que conseguimos. Basta ver os depoimentos dos alunos, das famílias. No mais, prefiro me abster, ele usa um grupo de um sindicato que deveria lutar pela categoria para fazer esse tipo de coisa. Mas ele não reflete a rede. Quero ressaltar que todos os dados das três premiações que recebi foram auditados, checados e companhados. Então, o projeto está aí, para ser conhecido. Ele e a mulher deixaram a escola porque não acreditaram nessa mudança. Ou estariam lá até hoje. Só acho que quem tem trabalho bacana deve fazer o que eu fz: se inscrever, se apresentar.

 

Clique aqui e confira na íntegra a coluna deste domingo(18)

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