Conexão Capivara: ‘O Pacto Federativo precisa ser revisto’

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Ex-prefeito por oito anos em Rio Preto, o candidato a deputado federal Valdomiro Lopes (PSB) afirmou que, caso eleito, vai trabalhar no Congresso Nacional pela revisão do Pacto Federativo. Hoje, de tudo que é arrecadado, apenas 10% ficam com os municípios. O resto é dividido entre União (70%) e Estado (20%). “Não tem cabimento você deixar todo esse monte de recurso lá no governo federal e os prefeitos terem de ficar batendo na porta, pedindo quase que pelo amor de Deus pra mandar verba”, disse o ex-prefeito.

Valdomiro iniciou nesta quarta-feira (19) a série de entrevistas com os candidatos a deputado federal com domicílio eleitoral em Rio Preto. O bate-papo é exibido ao vivo pelo Facebook do DHoje Interior sempre às 9 horas e fica disponível nas redes sociais. Ainda na entrevista, o ex-prefeito falou sobre a infidelidade dos vereadores do seu partido e fez críticas ao atual prefeito Edinho Araújo (MDB).

As sabatinas com os candidatos a federal têm uma novidade: personalidades da sociedade civil organizada foram convidadas pela Conexão Capivara para fazer perguntas aos postulantes a uma vaga na Câmara em Brasília. Os sorteados para perguntar a Valdomiro foram o delegado Eder Galavotti, o promotor Sergio Clementino, o presidente do Lide, Marcos Scadelai, e a diretora executiva do HB, Amália Tieco. Confira a entrevista.

Na eleição passada, em 2014, Rio Preto fez dois deputados federais. Num determinado momento, Edinho Araújo (MDB) virou prefeito, Rodrigo Garcia (DEM) se tornou secretário do governo Alckmin, e a cidade ficou sem uma representação no Congresso Nacional. Caso seja eleito, a gente corre o risco de perder o senhor como deputado daqui a dois anos? Valdomiro Lopes – Risco nenhum. Eu quero exercer o meu mandato, os meus quatro anos. Alguns adversários usam essa estratégia pra tentar inibir os nossos apoiadores, dizendo “Valdomiro, pode deixar de ser deputado pra concorrer à Prefeitura”. Não é verdade. Eu quero usar a minha experiência que adquiri nesses anos como médico, professor, como vereador, como deputado três vezes, prefeito eleito e reeleito pra ser o deputado federal que vai fazer o que eu fiz em Rio Preto com a própria cidade, mas também com as cidades da região. Buscando recursos federais, em Brasília estão os grandes recursos. Por isso que eu coloco como uma das minhas plataformas de trabalho rever a questão do pacto federativo. 70% dos impostos vão para o governo federal, 20% ficam com os estados e 10% com as prefeituras. Mas todas as grandes obrigações estão nos municípios e isso precisa ser revisto. Não tem mais cabimento você deixar todo esse monte de recurso lá no governo federal e os prefeitos terem de ficar batendo na porta, pedindo quase que pelo amor de Deus pra mandar verba.

Desde que o prefeito Edinho Araújo assumiu, em 2017, houve vários entreveros públicos com o senhor. Caso seja eleito deputado federal, qual será sua relação com o prefeito?
Valdomiro – Vai ser a melhor possível, como é hoje. Não houve da minha parte entrevero nenhum. Simplesmente o atual governo municipal, o atual prefeito, quis de uma certa forma desconstruir o governo que nós fizemos. Eu só defendi o meu governo, que o tempo vai mostrar que foi um governo muito produtivo do ponto de vista da cidade. Tanto que o orçamento, quando eu entrei na Prefeitura em 2009, era de 600 e poucos milhões de reais. Oito anos depois, quando saí, entreguei o orçamento pro atual prefeito de 1 bilhão e 800 milhões, três vezes mais. E uma coisa que me entristece é que, neste ano, mandou-se pra Câmara um orçamento 100 milhões menor do que aquele que eu deixei, mostrando que a cidade que sempre avançou, sempre cresceu, dessa vez decresceu, deu marcha à ré. Eu vou ajudar Rio Preto o máximo que eu puder, brigando inclusive por verbas naquilo que é fundamental, na saúde. Não é possível o governo federal fazer o que está fazendo com as cidades hoje, passando essa miséria de recursos na saúde e forçando as prefeituras a fazer um sacrifício muito grande. Eu consegui fazer, mas tem muitas cidades, principalmente as menores, que não conseguem.

Nós temos dois vereadores na Câmara hoje do PSB, Celso Peixão e José Carlos Marinho, que estão em campanhas de adversários, tanto na esfera estadual quanto na federal. Como o senhor vê isso enquanto liderança na cidade?
Valdomiro – Lógico que a gente gostaria que eles estivessem nos apoiando, obviamente, mas na política e assim. O voto e o apoio vêm do coração. Eu não vou obrigar ninguém a me apoiar, acho que cada um faz aquilo que acha que deve fazer. Eu respeito. Respeito a posição deles, são meus amigos, vão continuar sendo meus amigos, só que neste momento nós estamos em campos opostos. Não é o que eu gostaria.

O PSB não está apoiando ninguém para presidente, mas é tem o apoio local do senhor. Enquanto um agente político, como o senhor avalia esse cenário nacional e essa dificuldade do Alckmin de emplacar um discurso?
Valdomiro – O cenário nacional tem muitas outras influências e é uma coisa diferente do cenário local. A eleição presidencial atrai mais a atenção, não só no estado de São Paulo, mas no Brasil todo, então essa é uma questão de uma análise de polarização. As pessoas às vezes escolhem um candidato não porque ele seja seu candidato, mas porque muitas vezes ele não quer que o outro ganhe, então acaba fazendo um voto útil e essas questões são difíceis de serem analisadas neste momento. Mas à medida que a gente vai se aproximando do dia da eleição, essas coisas vão se esclarecendo.

De que forma o senhor pretende incentivar e fomentar o empreendedorismo? (pergunta feita por Marcos Scadelai, presidente do Lide Rio Preto)
Valdomiro – Eu acho que empreendedorismo tem que ser fomentado e desenvolvido com uma reforma tributária. A reforma tributária para possibilitar que outras pequenas empresas e mesmo as grandes empresas possam crescer, se desenvolver. E o empreendedorismo tem sido fomentado de uma forma assim, muito forte, inclusive com o nosso atual governador. Nós temos incentivado muito com as nossas Fatecs, Etecs, enfim, que estão ajudando a fazer com que as pessoas comecem a empreender. O empreendedorismo vai na direção de que as pessoas querem poder ser o seus próprios patrões, querem desenvolver as suas atividades. E muito causado também pela falta de empregos, pelo grande desemprego que nós estamos tendo na atualidade. Eu acho que o Brasil passa por um momento de grave desemprego, precisa ser socorrido pelo governo federal e isso demanda uma ação muito forte no sentido de você desonerar os tributos das empresas. Com isso você vai estar incentivando o empreendedorismo e também incentivando a criação de empregos.

O Brasil tem um grave problema de corrupção no setor público. O que o senhor fará no seu mandato para combater esse problema, bem como para fortalecer os órgãos de controle e facilitar as investigações e punições? (pergunta feita por Sergio Clementino, promotor de Justiça)
Valdomiro – Eu sempre fui a favor e sempre procurei esclarecer todas as ações do meu governo, tanto na vida pública como vereador, como deputado, quanto como prefeito. Tanto que tenho ganhado todas as ações. Quando tem uma dúvida sobre o governo, vão lá alguns cidadãos, vai lá o MP e entra com uma ação contra aquele governo. Até hoje nós temos conseguido ganhar todas. Tem algumas ainda que estão em tramitação, porque não se deu tempo necessário para que elas terminassem. Aliás, pra você ser candidato você precisa ser ficha limpa. Quem não é ficha limpa, não tem sua candidatura. Então as dúvidas existem e é importante que a gente possa respondê-las, que a gente possa se defender e fazer um governo claro, um governo transparente e eu vou atuar fortemente em Brasília, podem acreditar nisso. Aliás o nosso partido, o PSB, está fora desses grandes questionamentos de Lava-Jato.

Eu tenho visto no programa de governo de alguns candidatos a presidente na área de segurança pública, muitos falando em um ciclo completo. Então eu queria saber se o senhor é a favor do tal ciclo completo de polícia. Se o senhor é a favor de uma polícia única e se é a favor de uma desmilitarização da polícia. Porque o ciclo completo só funcionaria bem se a gente tivesse uma polícia de natureza civil, mas eu quero saber a opinião do senhor. Se isso será feito por uma polícia única, se vai ser feito por uma polícia desmilitarizada ou se será feito por uma Polícia Militar. Se for por uma Polícia Militar, teremos esse ciclo completo nos moldes do que ocorria na ditadura (pergunta feita por Eder Galavotti, delegado de Polícia Civil) Valdomiro – Essa questão da Segurança Pública é uma questão muito séria, grave e nós vivemos um momento realmente ímpar no sentido de que as pessoas querem se sentir seguras. Eu vou partir para um outro lado. Na verdade, nenhum dos candidatos à Presidência da República deixa claro o que quer fazer. Por quê? Talvez porque nem eles saibam que atitude tomar, mas eu penso que o grande problema de segurança no Brasil e no mundo, na verdade, é a falta de oportunidade para a juventude. O nosso governador Marcio França está iniciando, apesar de estar cinco meses no governo, um programa de alistamento civil. Você pega o jovem, dá a ele uma oportunidade de um estágio, de um curso profissionalizante, e você tira da mão dos bandidos. Você também ter que fazer as ações com relação às nossas crianças, fazer o que nós fizemos em Rio Preto, abrir escolas em tempo integral. Nós precisamos evitar isso e aí. Essa proposta que eu disse aqui, que vai ser um dos grandes temas que eu quero discutir como deputado federal, que é a mudança do pacto, a revisão do pacto federativo, pra trazer mais recursos para os municípios…

Mas, especificamente sobre a unificação da polícia, o senhor é a favor ou contra?
Valdomiro – O nosso governador até propôs isso, mas eu acho que isso tem que demandar um estudo muito profundo, com regras claras, não adianta a gente falar que é a favor da unificação das polícias e não ouvir as partes envolvidas. O que eu tenho a dizer é que São Paulo tem a melhor polícia do País, os melhores índices. Mas isso não quer dizer também que nós não precisamos melhorar.

Como o orçamento está congelado, como o senhor pretende, uma vez eleito, trazer efetivamente recursos para o sistema único de saúde? (pergunta feita por Amália Tieco, diretora executiva do Hospital de Base)
Valdomiro – A doutora Amália sabe bem como é que eu pretendo fazer isso, porque eu inclusive sem mandato estou ajudando o HB em alguns pleitos no governo do Estado. E um deles que nós conseguimos ter êxito é o aumento dos valores pra quimioterapia. Apesar de o orçamento estar congelado, na verdade você tem as variáveis e os hospitais têm muita coisa dos procedimentos médicos – a tabela do SUS congelada que dá muito prejuízo, mas tem algumas coisas que dão lucro. Então que nós precisamos fazer? Equilibrar, isso eu escuto muito com as Santas Casas, estive lá inclusive com o doutor Nadim Cury, de quem muito alegremente recebi o apoio para deputado federal. Porque tem muita coisa no SUS que dá prejuízo, principalmente a baixa e a média complexidade das ações do SUS. Se você não tem o outro lado da alta complexidade pra equilibrar os ganhos e as despesas, o hospital acaba não aguentando. Todo deputado tem 16 milhões de reais por ano de emendas impositivas, mas as emendas não resolvem o problema nem das cidades, nem dos hospitais, nem das Santas Casas. Eu quero ter uma atuação extra-emenda, que é no acompanhamento do Ministério da Saúde, do Ministério de Planejamento, enfim, em todas essas ações. Quando fui agora prefeito de Rio Preto mostrei que conheço os caminhos de Brasília.

O senhor é um candidato que tem frequentado assiduamente as redes sociais. Todo o dia tem postado vídeos novos, engraçadinhos e bem humorados. Quem está por trás desta nova roupagem de influencer digital misturado com político.
Valdomiro – Não tem ninguém por trás. Aquilo são as ocorrências da vida. Esse vídeo (da gatinha do candidato) viralizou porque eu tive uma surpresa e eu gosto muito de animais. Na minha casa tem cinco cachorros e dois gatos. Um dia eu cheguei na fazenda e tinha dentro da churrasqueira os gatinhos novos que havia nascido. Eu recebi algumas críticas dos protetores que falaram que eu tinha que castrar a gata. Eu vou até dar a notícia aqui, a gata já foi castrada.

Mas essa roupagem virtual é profissional?
Valdomiro – Não, é natural.

O senhor é a favor da descriminzalização do aborto?
Valdomiro – Sou contra, sempre fui. Sou médico e sou a favor da vida

É a favor da liberação de armas pro cidadão comum?
Valdomiro – O cidadão pode ser armado, mas tem que passar por um rigoroso teste psicológico, emocional, principalmente aqueles que moram na área rural. Eu acho que eles têm o direito de ter a sua arma, porque a policia na verdade demora pra chegar. Não vejo problema em você ter uma arma em sua casa.

Defende a descriminalização do uso da maconha como forma de combater a criminalidade?
Valdomiro – Eu também sou contra. Qualquer droga ela é o início de uma escalada de problemas.

É a favor da redução da maioridade penal?
Valdomiro – Sou a favor, eu acho que quem tem 16 anos já tem uma noção exata daquilo que faz, daquilo que realiza.

Por que o senhor acha que o eleitor merece seu voto?
Valdomiro – Eu quero usar toda minha experiência de médico, professor, ex-vereador, ex-deputado três vezes, prefeito eleito e prefeito reeleito para trabalhar com as pessoas. As cidades não são as ruas, não são os prédios, não são as praças. As cidades são as pessoas e ajudar a combater os desmandos que estão acontecendo lá no Congresso Nacional. As pessoas hoje não querem nem ouvir falar de política e não querem nem saber de votar. Quando alguém chega até mim e fala “eu estou pensando em não votar em ninguém”, argumente da seguinte maneira: quando você não vota, você está deixando pro seu vizinho ou pra aquele que você não gosta decidir sobre a sua vontade. Você tem q fazer uma análise daquela pessoa que você conhece, que seja próxima a você, que acha que não vai decepcionar e dar um voto certeiro. Se a gente tiver 100 eleitores e 90 não votarem, aqueles 10 que votam vão decidir pela vontade dos outros que deixaram de votar.

 

Clique aqui e confira na íntegra a coluna desta quinta-feira (20)

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