Conexão Capivara: O “Fora, Aécio” dos tucanos

O grito de “Fora, Aécio” não vinha de petistas, sindicalistas ou outro desafeto qualquer do PSDB em marcha pela Avenida Paulista. Vinha de tucanos de carteirinha reunidos na convenção estadual do partido no domingo (12), em São Paulo. Um brado que não é fruto apenas das rivalidades regionais ou da guerra fatricida que também chegou ao ninho do tucanato de forma avassaladora. Revela muito mais que isso. Mostra que, pelo menos para a militância do Estado que há duas décadas mantém os tucanos no poder, o culpado do esvaziamento da legenda junto ao eleitorado tem nome e sobrenome: ele mesmo, o senador mineiro Aécio Neves.

O comportamento de desencanto reflete não só o sentimento do filiado que vive a política e as disputas internas de poder em suas entranhas, mas também o daquele cidadão comum que um dia viu em Aécio a chance de destronar o PT do comando do País. Que tinha, com Aécio, um discurso poderoso contra toda a sujeira que o partido de Lula e Cia expunha a céu aberto. Que identificava no político jovem, de sorriso cheio de dentes alvos e exalando vitalidade, a modernidade necessária para o País prosperar.
E, de repente, a opção que bateu na trave nas eleições de 2014 e que tinha tudo para faturar nas urnas em 2018, após a derrocada de Dilma Rousseff, empurrada para fora do Palácio do Planalto pelo povo na rua em quantidade sem precedente na história do País, se viu exposta de forma constrangedora, levando junto a legenda. Ou alguém tem dúvida de que se Aécio não tivesse sido pego com a boca na botija pedindo dinheiro para os irmãos Batista, entre outros enroscos na Lava Jato, ele estaria hoje surfando nas pesquisas de intenção de voto, com a bênção do Mercado e da classe média? Ok, Lula está mais encrencado e anda bem nas pesquisas. Mas é diferente de Aécio, que unia em torno de si uma força muito maior e diversificada.

E assim, Aécio não só colaborou para aprofundar a disputa interna do PSDB, como forçou setores que o apoiavam a buscar nossas alternativas. Exemplo emblemático é o Partido Novo. Em Rio Preto, por exemplo, o próprio MCB, que liderou o “Fora, Dilma” nas ruas e tinha especial carinho pelo tucano de Minas, hoje concentra suas energias no Novo.

Claro que isso só não explica a crise do PSDB como um todo. Seria simplista demais, uma vez que o poder em jogo vai muito além do “Fora, Aécio” de São Paulo e passa, inclusive, pela relação com o governo do impopular Michel Temer (PMDB). Mas retrata, sim, como o cidadão médio, incluindo aí o militante sem cargo na cúpula, se sentiu “traído” neste momento de polarização da sociedade.

Clique aqui e confira na íntegra a coluna desta terça-feira (14)

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