Conexão Capivara: ‘Não sou moleque de recuar’

Foto Guilherme Batista

Estruturando sua pré-campanha a deputado estadual desde o ano passado, o vereador Renato Pupo (PSD) recebeu uma notícia inesperada no início de 2018. Seu principal parceiro de dobrada, o vice-prefeito Eleuses Paiva (PSD), disse que iria apoiar a candidatura de Edinho Filho (MDB), filho de Edinho Araújo (MDB), a uma vaga na Assembleia. De lá para cá, a relação dos dois azedou, a ponto de sequer terem material de campanha juntos. Na Câmara, a candidatura de Edinho Filho levou Pupo a um posicionamento mais crítico em relação ao Executivo, apesar de dizer que se mantém na base do governo. “Não guardo rancor, foi opção dele”, afirma o vereador ao comentar o apoio de Eleuses a Edinho.

Em entrevista à Conexão Capivara, na série com todos os candidatos a deputado com domicílio em Rio Preto, Pupo, que é delegado, se disse contra o armamento da população – “arma na mão vai transformar muitas pessoas aparentemente de bem em criminoso” – e defendeu a unificação das polícias Civil e Militar. Ele se define como centro e se coloca como “meio-termo” em questões políticas. Confira trechos da entrevista concedida nesta terça-feira (11).

O senhor se reelegeu com quase 7 mil votos na Câmara de Rio Preto dentro de um grupo vitorioso que era do prefeito Edinho Araújo e do vice Eleuses Paiva. E então começou a surgir esse sonho de uma candidatura a deputado estadual numa dobrada exclusiva com o doutor Eleuses. No meio do caminho o prefeito atropelou esse projeto lançando o filho dele, que está em dobrada com o próprio Eleuses. Por que o senhor insistiu com sua candidatura?
Renato Pupo – De fato eu fundei o PSD com o doutor Eleuses em Rio Preto em 2011 pra disputar a eleição em 2012 e fui eleito com 5.447 votos, e reeleito em 2016 com 6.950. Acho que isso foi um termômetro e mostra a aceitação do meu trabalho. Quando eu fui reeleito da forma que fui, fazendo uma campanha modesta e tendo a segunda maior votação da história da cidade, eu achei o que então seria o momento e falei: “Eleuses, agora dá (pra ser candidato a deputado estadual)”. Desde então nós começamos a conversar para esta dobrada em 2018. Em outubro do ano passado tivemos uma longa conversa, só nós dois, e eu falei: “Eleuses, nós estamos a um ano da eleição. Nossa dobrada está em pé?”. Ele: “Está em pé”. E comecei a trabalhar a chamada pré-campanha. Comecei a viajar, fazer contatos, anunciar. No início deste ano, ele veio me comunicar que teria mais gente andando junto. Eu falei: “Mas em Rio Preto, Eleuses?”. E eu já vinha sendo sondado por alguns candidatos de fora e dito: “Em Rio Preto, eu sou Eleuses”. Porque eu sempre fui muito leal. Mas ele falou que não ia ter como evitar. Depois eu vim a saber quem era o candidato – Edinho Filho (MDB). Eu falei: “Bom, você está abrindo e eu também vou abrir (outras dobradas) porque eu estou sendo assediado”, no bom sentido. O primeiro foi o professor Luiz Flávio Gomes. A partir daí gerou um tensionamento e houve esse distanciamento. Ele chegou a falar que as minhas dobradas de fora estavam atrapalhando. Então, segue a vida, nós temos hoje um relacionamento muito cordial. Ele fez opção de caminhar com o filho do prefeito, que foi apoiado por mim.

O senhor mantém a sua dobrada com Eleuses? Mais que isso, o senhor vai ter material de campanha tipo santinho ao lado dele?
Pupo – Eu trabalhei demais, investi demais e eu preciso agora honrar. Eu não sou moleque de lançar uma coisa e depois recuar. Havia uma disposição (de lançar material juntos) porque a cúpula do PSD em Rio Preto queria trabalhar. Mas esse material não saiu. Se dependesse de mim, teria saído. E eu acho que não vai sair. Então o pessoal do PSD que for trabalhar pros dois vai ter o santinho dele, vai ter o meu santinho, e eu acho que eu fiz a minha parte. Estou com a consciência totalmente limpa, tranquila. Não guardo rancor, foi opção dele. Talvez ele tenha achado que o outro agrega mais em termos de voto. Eu não tenho isso como o primeiro critério. Meus critérios são outros, mas cada um é de um jeito.

Há uma doação do Eleuses Paiva de R$ 50 mil para a campanha do Edinho Filho. O senhor vai receber alguma doação do vice-prefeito?
Pupo – Acho que não. Tenho certeza que não. Lá atrás, quando ele veio comunicar que outros candidatos iam querer caminhar juntos, ele falou que não ia poder bancar a minha campanha inteira. Então, naquele momento, eu alimentava a esperança de receber sim alguma ajuda. Mas com o distanciamento que eu narrei agora pouco eu já havia deletado essa possibilidade. E quando eu vi no jornal R$ 50 mil pra um e nada pra mim… ele até me falava: “Ó, estou com dificuldade, não vou ter recurso pra ajudar nenhum estadual”, mas ajudou. Então foi uma opção dele e eu não alimento essa esperança. Hoje pra falar a verdade eu nem me sentiria bem.

Na Câmara, como vereador, o senhor começou o mandato claro como um dos líderes da bancada de apoio do prefeito. Ao longo deste ano, principalmente, o senhor fez uma leve movimentação para um posicionamento mais independente ou até como uma oposição light. Isso se deve, prioritariamente, ao lançamento da candidatura do Edinho Filho ou à aproximação do grupo do vereador Fábio Marcondes à base do prefeito?
Pupo – Eu sempre defendi a independência do Legislativo em relação ao Executivo. A única coisa que mudou, eu sei que era uma incógnita, é que as pessoas falavam “o Renato se destacou fazendo oposição ao Valdomiro (Lopes) e quero ver agora como ele vai ser na situação”. E mesmo como situação, eu mantive a independência. Antes mesmo de surgir candidatura do filho do prefeito, quando surgiu a CPI da Emurb, eu assinei. Porque eu precisava ser coerente. Então eu assinei lá atrás a CPI da Emurb e não poderia ser diferente agora quando essa CPI concluiu o trabalho e apresentou o relatório propondo a instalação de uma Comissão Processante, que eu também assinei. Até teve um secretário de governo que falou que foi decepcionante. Se ele acha decepcionante, eu acho preocupante um secretário se decepcionar quando ele encontra pela frente um político sério que defende a transparência.

Tem alguma indicação do senhor no governo? O senhor se considera da base aliada ainda?
Pupo – Não. Tem pessoas próximas a mim que trabalham na Prefeitura, mas isso não significa que sejam indicações minhas. Eu me considero da base. Mas, como eu falei, eu tenho o meu jeito de ser base. Quem acha que fazer política é saber negociar para ganhar, realmente eu sou um zero à esquerda. Agora quem considera aquela política à moda antiga, colocando o interesse coletivo acima dos interesses particulares, eu acho que eu estou no caminho certo.

O senhor é delegado e sempre foi um crítico das mais de duas décadas do governo do PSDB, dizendo que a Polícia Civil acabou sendo desmontada. Acaba não sendo uma incoerência o senhor apoiar João Doria (PSDB) ao governo de São Paulo?
Pupo – Não vejo assim. Primeiro, quem escolheu o rumo do nosso partido não fui eu. Mas eu conversei inclusive com a Associação dos Delegados e entendemos que tínhamos que ter candidato em todas as chapas. Do João Doria, do Skaf, do Márcio França, do Marinho, porque, ganhe quem ganhar, acho importante nós termos um interlocutor. Se ganhar o Doria, e eu espero que ganhe, eu pretendo trabalhar fazendo essa interlocução e desde já estou trabalhando nesse sentido.

Concretamente, o que um deputado estadual pode fazer pra melhorar a segurança pública no estado de São Paulo?
Pupo – Muita coisa. Primeira delas, mostrar para o gestor os problemas, as necessidades e o caminho. Porque não adianta só a gente criticar. Então as polícias, tanto a Civil quanto a Militar, carecem de um efetivo maior. A população está crescendo e o efetivo está diminuindo. Algumas pessoas falam “a polícia ganhou hoje recursos que substituem os homens”. Não é verdade. Porque o criminoso também ganhou recursos tecnológicos. A polícia tem que ter recurso, mas isso não dispensa o ser humano. Viatura na rua é importante? É. Pra coibir aquele criminoso de rua. Mas hoje tem muito criminoso de gabinete. Corrupção, por exemplo, você não coíbe com viatura na rua. Mas sim com uma investigação eficiente. E a Polícia Civil é que sabe fazer esse trabalho e precisa de um investimento nesse sentido.

O senhor, como agente de segurança pública, defende a unificação das polícias Civil e Militar?
Pupo – Eu acho válido. Eu acho um desperdício ter uma ocorrência e vai uma viatura da PM e uma da Polícia Civil. Às vezes a Civil está há meses levantando informações, a PM recebe uma denúncia e faz um flagrante, mas faz um flagrante menor que atrapalha você chegar no cabeça da organização. Então as polícias têm de se falar mais. E a única maneira de elas se falarem mais é unificando. Só que eu defendo a unificação de uma Polícia Civil, mais condizente com o estado democrático de direito. Uma Polícia Civil com um ramo de segmento uniformizado para fazer aquele policiamento de rua e inibir o criminoso.

Escolha uma das alternativas: A) Precisamos armar o cidadão de bem? B) Pagar melhores salários para a polícia? C) Devolver o Brasil para o Índios?
Pupo – Vamos excluir a terceira opção. Agora, entre a primeira e a segunda, eu sou contra armar as pessoas. Então eu fico com a segunda. O que quer dizer que uma coisa não exclui a outra. Mas pra mim é muito fácil responder essa pergunta. É a segunda. Mas não simplesmente, quero deixar muito claro isso, pagar melhor a polícia. Eu não estou advogando em causa própria, quero o bem da população. A polícia apenas bem remunerada não resolve o problema. Temos que aumentar o efetivo e dar boas condições de trabalho aos policiais.

Por que o senhor é contra armar a população?
Pupo – Ser humano nervoso, estressado e com uma arma na mão, é um perigo. As pessoas discutem na rua e dão um tiro um no outro. Esses dias eu peguei um caso aí em que duas pessoas entraram juntas numa rotatória. Aquele que se sentiu injustiçado parou, desceu do carro com uma arma de ferro e detonou o carro do outro. Imagina se, ao invés da barra de ferro, ele tivesse uma arma de fogo? Então as pessoas pensam que com a arma na mão a gente vai se defender do criminoso. Mentira. Arma na mão vai transformar muitas pessoas aparentemente de bem em criminoso, ainda que não o seja. Destrói uma vida e destrói a sua própria vida. Flexibilizar um pouco o direito à posse em casa, não na rua, aí tudo bem. Principalmente nas propriedades rurais.

“Quais são as propostas para a preservação de Meio Ambiente? O senhor é a favor ou contra a PL do veneno?” (pergunta do candidato a deputado estadual pelo Novo Marco Feitosa)
Pupo – Eu sempre fui um defensor da causa, inclusive como voluntário. Sempre fui muito ligado à causa ambiental. Quanto à flexibilização de veneno, eu sou contra extremismos. Tanto pra um lado quanto pra outro. Eu acho que tudo tem que ter regras. Quando a pessoa não quer nenhum tipo de agrotóxico na plantação, você produz com muito mais qualidade, mais saúde, mas você tem algumas complicações. Quando você usa o veneno, seja ele qual for, de forma excessiva, você acaba atacando a saúde das pessoas. Então eu sempre fui meio-termo. Eu acho que você não deve proibir por completo, mas também não pode liberar geral.

O senhor se define como um cidadão ou um político de linha conservadora ou progressista?
Pupo – Eu sempre defendi o progresso, mas sou meio-termo. Progresso a qualquer custo, sou contra. Só que aquele conservadorismo que impede o crescimento, também sou contra.

Vamos ao nosso teste.
1-É a favor da descriminalização do aborto?
Pupo – A legislação hoje permite o aborto necessário, aquele que pra salvar a vida da gestante. E eu acho justo. O outro é o aborto chamado de sentimental humanitário, que é quando a gravidez resulta de estupro. O Supremo já decidiu permitir o aborto de feto anencefálico. Eu gosto da lei da forma como ela está.
2- Descriminalização do uso da maconha como expectativa de redução da criminalidade?
Pupo – Também tenho receio. O uso de droga – na verdade não é o uso, é o porte de droga – já teve a pena bastante reduzida. Hoje é considerada uma infração de menor potencial ofensivo. Como profissional da segurança pública eu acho que isso abre portas para uso de drogas mais pesadas.
3 -Defende o ensino religioso nas escolas?
Pupo – Acho importante. Com equilíbrio. Aliás, não é só ensino religioso. Eu defendo, por exemplo, a volta da educação moral e cívica. Eu acho que a moral está muito deixada de lado. O civismo está muito deixado de lado. Então as novas gerações são hoje menos patriotas, menos civilizadas, menos ligadas a questões éticas.
4-É a favor da redução da maioridade penal?
No momento não. O Brasil não tem estabelecimentos prisionais suficientes para os criminosos maiores de 18 anos. Se você reduzir a maioridade penal você só vai aumentar o problema. O que eu defendo é uma mudança no ECA que prevê para o menor infrator uma medida socioeducativa com a chamada internação que corresponde a uma prisão. Só que internação é de no máximo três anos. Então eu defendo que aumente essa internação para até cinco ou oito anos.

Como o senhor pretende financiar a sua campanha e quanto pretende arrecadar?
Pupo – Eu tenho uma doação do partido. Meu pai já fez uma doação. Alguns amigos já fizeram doação. Eu faço campanhas modestas, mas é claro que a gente precisa de uma estrutura pra conseguir inclusive divulgar. Meu nome tem uma aceitação fantástica, mas muita gente não sabe que eu sou candidato. Então você precisa de recursos pra levar o nome até essas pessoas.

Por que o senhor acha que merece o voto do eleitor?
Pupo – O que vem à cabeça das pessoas em primeiro lugar é a corrupção. E eu tenho um histórico de combate à corrupção. Em Rio Preto, participei da CPI do Lixo. O Auxílio-atleta foi desvirtuado e transformado em auxílio cabo eleitoral. Isso é crime, é peculato, é crime organizado. Participei, fui o relator, ganhei inimizades. Outro assunto que muito incomoda são os privilégios políticos. Vocês vão se lembrar, no meu primeiro mandato, quando o presidente da Casa queria comprar 17 carros novos, eu fui à tribuna e falei isso é uma afronta à população. Só que graças a isso no dia seguinte ninguém mais falava em compra de veículos. Então eu tenho no meu histórico essas passagens de combate à corrupção e combate aos privilégios políticos.

 

 

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