Conexão Capivara: Mais ou menos democracia

“Não podemos votar com o coração cheio de ódio, nem pensando que vamos mudar o Brasil de uma hora para outra; não existem salvadores da pátria, mas uma democracia que precisa ser permanentemente construída”. “Temos duas candidaturas à Presidência, mas somos a favor é da democracia. O que pedimos é que o eleitor católico observe se os candidatos pregam mais ou menos democracia”.

Os trechos acima são de uma entrevista concedida pelo secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Leonardo Steiner, ao portal UOL no dia 8 de outubro, dia seguinte ao primeiro turno das eleições deste ano. Enquanto algumas igrejas evangélicas têm feito campanha declarada para Jair Bolsonaro (PSL), entre elas a Igreja Universal do bispo Macedo, a Igreja Católica tem se mantido neutra na disputa. Steiner afirmou que padres podem abordar nas celebrações o tema eleições e os rumos para o País, mas não podem se manifestar sobre candidaturas. “Os padres não podem, pela legislação, defender um ou outro candidato, mas podem falar sobre a preservação da democracia”, disse o secretário-geral da CNBB.

As orientações de dom Steiner, porém, não têm sido seguidas à risca pelos religiosos aqui da região. Um exemplo é o padre Oscar Clemente, pároco da Igreja Santa Cruz, que demonstrou todo seu entusiasmo com Jair Bolsonaro (PSL). Em sermão no dia 30 de setembro, e que foi divulgado nas redes sociais, ele aconselhou fiéis durante o sermão a votar com consciência, porque Deus “vai cobrar a conta”. Depois citou o exemplo da Bolívia, “um país socialista”, onde “se encontrar a Bíblia com alguém, está previsto de ser preso” – informação falsa: o que um novo artigo do Código Penal lá previa, e acabou sendo vetado, é que era passível de prisão a conversão forçada de comunidades indígenas. Para não deixar dúvidas do seu posicionamento político, padre Oscar terminou seu sermão com o refrão da campanha bolsonarista: Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.

Na outra ponta está o bispo de Jales, dom Reginaldo Andrietta. Em texto também publicado nas redes sociais em setembro, mas sem citar nomes de candidatos, ele critica fiéis pró-Bolsonaro: “São escandalosas as posturas alienadas de muitos cristãos e as adesões a um candidato à presidência que dissemina violência, ódio, racismo, homofobia e preconceito contra mulheres e pobres. Ele utiliza falsamente as temáticas do aborto, gênero, família e ética; faz apologia à tortura, à pena de morte e ao armamentismo; e é réu por injúria e incitação ao crime de estupro”.

A divisão entre os católicos é expressa em números: de acordo com o Datafolha divulgado nesta quarta-feira (10), 60% dos evangélicos dizem votar em Bolsonaro. Entre os católicos, a situação é mais equilibrada – 46% a favor do capitão e 40% a favor de Fernando Haddad (PT). Ainda que religiosos católicos estejam agindo por conta própria, a mensagem da CNBB é uma só: de saber quem prega mais ou menos democracia. E assim deveria ser também o voto do eleitor – cristão, espírita, umbandista ou ateu – no dia 28 de outubro.

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