Conexão Capivara: ‘Falta gestão e faltam recursos para a saúde do País’

Foto Guilherme Batista

Candidato a deputado federal pelo PSD, o vice-prefeito licenciado Eleuses Paiva afirmou que a Constituição de 88 ampliou o acesso à rede pública de saúde, mas reduziu quase pela metade os recursos destinados ao setor. Médico e ex-secretário de Saúde de Rio Preto, ele disse que essa será uma das suas principais áreas de atuação, caso eleito. “Nós ampliamos a base de atendimento e reduzimos quase pela metade o orçamento. Qualquer pessoa séria que for para o Congresso Nacional tem que lutar pra ter mais financiamento na saúde”, afirmou.

Em entrevista à Conexão Capivara, na série de entrevistas com os candidatos a deputado federal com domicílio em Rio Preto, ele minimizou o desgaste com o companheiro de partido e candidato a estadual Renato Pupo. “Eu não acho que implodiu nenhuma relação, pelo contrário, eu tenho, continuo e sempre tive um respeito muito grande pelo Renato Pupo. Nós reavaliamos a estratégia”, disse ao comentar a sua dobrada com o também estadual Edinho Filho (MDB), filho do prefeito Edinho Araújo (MDB).
Confira trechos da entrevista concedida nesta quinta-feira (27).

O senhor já destinou R$ 200 mil lá do seu próprio patrimônio para sua campanha. Quando saiu a proibição de que empresas doassem para as candidaturas, isso foi tido como uma maneira de tentar nivelar um pouco as campanhas em termos financeiros. O senhor acredita que no final das contas não teve tanta diferença assim a proibição de doações de empresas?
Eleuses Paiva – Há regras eleitoras, e dentro dessas regras eleitorais a gente tem que agir. Eu acho que é importante retirar as empresas, foi muito mais, e infelizmente, a relação promíscua que acabou existindo entre o poder público e o poder privado. Foi o que a gente viu em alguns escândalos como por exemplo a Lava Jato. Essa campanha foi padronizada, um gasto de campanha que cada candidato pode chegar a esse limite. E nós estamos estruturando a campanha nossa pra tentar trabalhar dentro dos limites legais.

O senhor tem feito uma campanha muito focada na questão da saúde. Enquanto secretário da Saúde, o senhor sabe que o orçamento é pequeno. Qual a margem de ação de um deputado federal pra melhorar isso e pra poder trazer recursos?
Eleuses – Tem duas coisas muito importantes, falta gestão e falta recurso. Exemplo típico eu vejo em muitas cidades como aqui em Rio Preto. A atenção básica de Rio Preto sofre uma avaliação do governo federal a cada dois anos. A avaliação é a nota que a gente tinha de zero a dez. A nota aqui Rio Preto era quatro. Nós tivemos uma avaliação agora, recentemente, e só na avaliação a gente praticamente dobrou o recurso que vai receber do governo federal. O governo federal dá o recurso de acordo com o que você tem de propostas, com o que você está realizando. Provavelmente tiramos uma nota nove ou dez, mostrando que tem que ter gestão. Tão importante quanto uma boa gestão é você ter recurso. Olha o absurdo que é esse Brasil. Até 1988, só quem tinha carteira assinada pagava INPS tinha direito à saúde. A partir de 88, com a Constituinte, todos os brasileiros passaram a ter direito a saúde. Com isso quase que dobramos essa população. Agora vamos fazer uma continha básica: antes de 88, 30% da seguridade do Brasil financiava a saúde. Nos dias de hoje, mesmo com crise, nós estamos falando aí de algo em torno de R$ 570 bilhões. Então se hoje existisse INPS, nós teríamos R$ 170 bilhões investidos na saúde pública. Se você pegar no orçamento o que foi executado no ano passado, está em torno de R$ 100 bilhões, R$ 110 bilhões. Nós ampliamos a base de atendimento e reduzimos quase pela metade o orçamento. Qualquer pessoa séria que for para o Congresso Nacional tem que lutar pra ter mais financiamento na saúde.

Candidato, o senhor tem feito uma dobradinha com o filho do prefeito Edinho Araújo, o Edinho Filho, candidato para deputado estadual. O senhor acredita que a votação que o Edinho Filho tiver aqui em Rio Preto pode ser um medidor de como anda a popularidade do prefeito Edinho?
Eleuses – Eu acho que são coisas extintas. O Edinho é uma figura e o filho do Edinho é outra figura, um rapaz jovem, bem formado, eu tenho andado com ele. Muito motivado para entrar na vida pública, me pareceu ma pessoa muito sensível aos grandes desafios que a gente tem na saúde pública. E eu sempre comento com as pessoas que quem entra na vida pública entra pra servir as pessoas. Eu falo que é muito parecido com médico. Não dá pra ter médico que não gosta de gente. Médico tem que gostar de gente, tem que ter humildade, tem que ouvir as pessoas e eu acho que a vida pública é a mesma coisa. Quem entra, entra pra servir. E ele me parece muito focado nesse interesse.

Essa parceria inclusive implodiu uma relação do senhor com o candidato, o vereador e candidato pelo partido do senhor o Renato Pupo. O senhor vê uma chance dessa relação política ser retomada ou o senhor acha que vai acabar sendo inevitável a saída do Pupo do PSD?
Eleuses – Primeiro que eu tenho uma avaliação diferente de você. Eu não acho que implodiu nenhuma relação, pelo contrário, eu tenho, continuo e sempre tive um respeito muito grande, um apreço muito grande pelo Renato Pupo, tanto como profissional, como político e como membro do meu partido. Eu não acredito que tenha essa tensão. Nós tínhamos uma visão de como ia ser esse processo eleitoral há um ano, dois anos atrás baseado nas últimas eleições e a gente imaginava uma candidatura a deputado estadual pelo PSD com 40 mil votos. Imaginava que uma eleição também para deputado federal ficaria em torno de 70 mil, 80 mil ou 90 mil votos. Pelas alianças que nosso partido fez ao apoiar o nosso candidato João Doria, nós acabamos ficando com uma chapa muito pesada. Então nós reavaliamos a estratégia. Hoje um deputado estadual provavelmente vai estar na faixa de 70 mil ou 80 mil votos. E um deputado federal na faixa de 100 mil.

O senhor chegou a pedir para ele desistir da candidatura?
Eleuses – Não, nós conversamos. Primeiro eu não faço esse tipo de coisa. Nós fizemos uma avaliação das duas candidaturas, se tinha viabilidade ou não. Num segundo momento, quais estratégias que a gente ia ter que montar nas nossas candidaturas para poder ampliar as nossas bases. Tínhamos que ampliar as nossas bases. Fizemos uma outra conversa, ele entendeu que a gente tinha que ampliar, propôs aí que ele estava com quatro possibilidades de dobrada, que me parece que se consolidou.

Por que o político eleito para um determinado cargo e dá um break nesse cargo para concorrer a outro? Como fica o eleitor que acreditou nesse político? O senhor não é o único a querer uma mudança de cargo repentina que deixa o eleitor meio órfão.
Eleuses – Primeiro deixar claro que o eleitor não vai ficar órfão, muito pelo contrário, é aí que ele vai ter pai e mãe, pode ficar tranquilo. Porque o meu cargo é um cargo de vice-prefeito. Cargo de vice é um cargo de expectativa. Você não exerce. Eu, particularmente, pedi pra afastar (do posto de vice-prefeito) pra eu não receber. Sou contra o vice que não exerce atividade receber dinheiro público. O vice é um cargo de expectativa. Como que eu posso colaborar melhor? O prefeito Edinho tem um vínculo, e todos sabem, com o governo. Com uma nova eleição, precisava criar um vínculo da Prefeitura de São José do Rio Preto com o próximo governo federal. E essa foi a ideia, de sair e lutar por algumas bandeiras que eu e o Edinho temos, até pra tentar tornar essas bandeiras viáveis.

Considerando-se o emaranhado de normas tributárias (mais de 5,5 mil) do País, que criam obrigações acessórias em excesso, burocratizam a arrecadação e disfarçam estratégias de aumento de carga tributária, o que, objetivamente o senhor, enquanto deputado, fará para dar clareza e simplificar o ordenamento jurídico, melhorar a segurança do ambiente empreendedor, reduzir a judicialização e a cobrança de impostos e taxas que pesam sobre a comunidade empresarial e toda a sociedade brasileira? (pergunta feita por Paulo Sader, presidente da Acirp)
Eleuses – Eu entrei na vida pública em 2006. Era mais representante de segmentos classistas da sociedade em parceria com a Associação Comercial, que na época era dirigida pelo Guilherme Afif. Conheci o Afif numa campanha que nós fizemos em 2004 chamada “De Olho no Imposto”. Era mais uma carga tributária baixada e o Afif me procurou na época e fizemos um trabalho da sociedade civil organizada pra tentar inviabilizar uma medida provisória que aumentava mais um imposto no Brasil. O Simples Nacional já foi uma grande vitória que nós tivemos. Eu defendo a Reforma Tributária no Brasil. Até onde eu acompanhei, e aí eu não acompanhei mais, nós tínhamos 288 tributos no Brasil. Me parece que hoje passa de 300. Então é inviável, nesse emaranhado e nessa burocracia que o Estado faz, algum empresário conseguir sobreviver.

Qual que é a sua opinião sobre o programa Mais Médicos? (pergunta feita por Toufic Anbar Neto, médico e diretor da Faceres)
Eleuses – Foi um nome de marketing fantástico. Quem pode ser contra ter mais médicos? Mas uma coisa é ter mais médicos, outra coisa é ter maus médicos. Eu acredito que ninguém de bom senso seria contra um programa que iria aumentar os médicos na rede pública. O que eu me coloquei contra e sou contra é esse programa do governo federal que tem vários absurdos. A estrutura foi montada com base em um repasse para o governo cubano. Nada contra Cuba, muito pelo contrário. O que me era estranho é que 450 cubanos chegaram ao Brasil. Em qualquer país sério do mundo, você presta uma prova de conhecimentos e de proficiência de língua. Porque na medicina você tem muito contato com as pessoas. O Brasil fez a prova nos 450 cubanos e sabe quantos foram aprovados? Dez por cento. Noventa por cento foram reprovados. Aí começou a briga. O governo falou que não precisava mais revalidar título. Quando você dá uma caneta na mão de uma pessoa pra ela fazer um atendimento, você pode estar dando uma arma que pode estar destruindo vidas. Segundo problema é que entra também na discussão da formação do médico no Brasil e na abertura de escolas médicas. Nada contra, mas o que me assusta é abrir escolas médicas sem nenhum projeto pedagógico e estrutura hospitalar. O que também levando ainda a outra discussão que eu acho que vai ser pauta dos próximos quatro anos e vai ser o exame de proficiência na medicina.

Além de emendas parlamentares, qual projeto o senhor pretende apresentar no sentido de beneficar a maior parte da população de Rio Preto? (pergunta feita por Wanderlídia da Silva Araújo, presidente da Associação de Bairro Santa Clara e membro dos conselhos de Habitação e Meio Ambiente)
Eleuses – A grosso modo eu vejo quatro coisas – algumas focadas em Rio Preto, outras mais abrangentes. A primeira coisa é rever o financiamento da saúde pública no Brasil. Onde isso daí afeta Rio Preto? A partir do momento em que nós temos mais recursos na saúde, nós vamos ter uma melhora substancial da atenção da saúde em Rio Preto e região. A segunda coisa importante é uma briga que eu tenho, que é a visão também do prefeito Edinho. Rio Preto tem várias escolas privadas e poucas escolas públicas. Brigar pra trazer uma universidade federal pra cá é um dos projetos do prefeito Edinho e é um dos projetos meus. Terceira coisa, uma universidade estadual. A Famerp tem toda a chance, já tem três cursos, de ampliar e ser a primeira universidade da saúde de São Paulo. E quarto, que acaba influenciando diretamente na vida de todos, é uma reforma federativa. A gente mora numa cidade, paga impostos, mas praticamente 70% dos impostos vão para o governo federal. Uns 20% no governo estadual e acaba no município uns 6% ou 7% por cento. Nós já temos, junto com o nosso partido, formatando uma frente municipalista pra rever essa distribuição federativa e poder aumentar o recurso do município.

Qual a visão do candidato em relação ao terceiro setor, considerando que a demanda, principalmente na saúde, não é contemplada na sua totalidade pelo poder público? (pergunta feita por Adriane Cirelli, presidente da AACD)
Eleuses – O poder público é complementado pelo privado. Eu acredito muito em uma fala do Afif de que a grande revolução que vai existir neste País vai ser da sociedade civil organizada. A gente está vendo isso nessas eleições. A sociedade organizada é o terceiro setor que vai fazer a grande transformação social que a gente precisa. Então todo o apoio ao terceiro setor.

Qual sua posição sobre a legalização do aborto?
Eleuses – Eu sou médico. E, como médico, eu passei 40 anos da minha vida aprendendo a salvar vidas. Então a minha posição como médico é salvar vidas.

O senhor defende armar a população como forma de combater a criminalidade?
Eleuses – Nós já tivemos um plebiscito no Brasil e ele já falou o que pensa a sociedade a respeito disso. Eu acho que a política de segurança pública do País tem que ser revista e eu quero fazer parte dessa discussão. É uma das coisas mais importantes que a gente tem, junto com saúde, educação, emprego e segurança pública. Tem que rever.

Como votaria Eleuses Paiva em propostas para privatização da Petrobras, Correios, Banco do Brasil e Caixa Federal?
Eleuses – Eu sou um liberal. Não tenho nada contra a privatização, muito pelo contrário. Esse discurso antiprivatizante não leva a nada. Agora temos que ter algumas responsabilidades. Projeto energético e projeto econômico financeiro de um País, isso daí o Estado tem que estar olhando. Acho que privatizar sim, mas com responsabilidade.

Por que o eleitor merece seu voto?
Eleuses – E eu me julgo hoje extremamente preparado pra ocupar um cargo de deputado federal. E mais do que isso. Eu quero ser deputado federal para poder falar por Rio Preto na Câmara e trazer os projetos mais importantes na área de saúde municipal, trazer uma universidade federal pra São José do Rio Preto e obras para infraestrutura da cidade. Eu acho que esse é o grande desafio e com a confiança do eleitor nós vamos conseguir.

 

Clique aqui e confira na íntegra a coluna desta sexta-feira (28)

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