Conexão Capivara – Execução: uma política de Estado

Foto Divulgação

“Em 30 de março, Ernesto reuniu-se com Milton e Confúcio. Também esteve presente João Milton, que falou durante a maior parte da conversa, delineou o trabalho contra os adversários. Ele enfatizou que não se pode ignorar a ameaça e disse que métodos ilegais deveriam continuar a ser empregados. A este respeito, Milton disse que 104 pessoas enquadradas nesta categoria foram sumariamente executadas no ano anterior. João apoiou essa política e insistiu em sua continuidade. Ernesto comentou sobre a gravidade e os aspectos potencialmente prejudiciais. (…) Dois dias depois, Ernesto e João concordaram que, quando encontrarem alguém que possa se enquadrar nessa categoria, Milton consultará João, cuja aprovação deve ser dada antes que a pessoa seja executada”.

A conversa acima poderia tranquilamente fazer parte de um grampo da polícia
investigando a ação de facções criminosas, tais como PCC ou Comando Vermelho, que executam sumariamente seus adversários ou dissidentes. Mas o relato não tem nada de  ccional: a conversa ocorreu dentro do Palácio do Planalto. O diálogo faz parte de documentos secretos da CIA, datado de 1974, e relatado ao governo norte-americano pelo agente William Colby, que esteve presente à reunião. Os personagens desta confabulação
criminosa: general Ernesto Geisel (presidente entre 1974 e 1979), general Milton
Tavares de Souza (Centro de Inteligência do Exército), general Confúcio Danton de
Paula Avelino (Centro de Inteligência do Exército) e general João Baptista Figueiredo
(Serviço Nacional de Inteligência). Principal entusiasta das “mortes sumárias”, Figueiredo
– aquele que preferia o cheiro dos cavalos ao cheiro do povo – veio ainda a ser o último presidente militar, entre 1979 e 1985.

O relato de Colby ao secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger foi liberado em 2015, mas só veio à luz na semana passada após pesquisa realizada pelo professor de relações internacionais da FGV Matias Spektor. Revela que as mortes durante a ditadura não eram decorrência de excessos cometidos nos porões por oficiais de baixa patente, como durante décadas defenderam os militares. As execuções faziam parte da política de Estado. E assemelhavam as práticas do governo brasileiro com as de uma facção criminosa qualquer.

Mas a idiotia não tem limites, claro. Pré-candidato a presidente, Jair Bolsonaro (PSL) não conseguiu refrear a sua já reconhecida fama de destilar boçalidades. “Quem nunca deu um tapa no bumbum do filho e, depois, se arrependeu?”, afirmou em entrevista à rádio Super Notícia, de Belo Horizonte, ao comentar as 104 mortes ocorridas em 1973 – e outras tantas execuções tramadas pelo governo brasileiro após essa conversa macabra entre o então presidente da República e seus asseclas. E como a capacidade de Bolsonaro de dizer asnices é quase inesgotável, disse ainda que  a o documento só foi divulgado agora para
prejudicar a sua candidatura a presidente.

Já afirmou com propriedade o irlandês Edmund Burke (1729-1797) que um povo que
não conhece a sua história está condenado a repeti-la. Pois o relato feito pelo agente
William Colby deveria constar nos livros de História para que um homicídio em massa
perpetuado como política de Estado não volte a ocorrer no País. E que nenhum governo incorpore novamente as praticas e a moral de facções criminosas.

Clique aqui e confira na íntegra a coluna desta domingo (13)

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