Conexão Capivara: Edir Macedo nas escolas

Integrantes da Igreja Universal estão realizando junto às escolas da rede estadual de ensino de Rio Preto um trabalho que se pode chamar de marketing ofensivo e direto junto a educadores e alunos, tendo em vista a divulgação do filme “Nada a Perder”, biografia autorizada do líder e fundador da instituição, Edir Macedo.

No “press kit”, convites gratuitos para toda a comunidade escolar, especialmente os estudantes, ou seja, adolescentes do segundo ciclo do fundamental e do ensino médio. Junto aos argumentos apresentados in loco, um ofício no qual é feita uma explanação didática de como o professor pode usar a obra cinematográfica de forma multidisciplinar em sala de aula.

A peregrinação do grupo de religiosos às escolas estaduais, formado em sua maioria por pastores, foi autorizada pela titular da Diretoria Regional de Ensino de Rio Preto, Maria Silvia Zangrando Nakaoski, que atendeu a um pedido feito pessoalmente pela vereadora Karina Caroline, do PRB. O mesmo partido do também do vereador Jean Dornelas, autor de projeto de lei aprovado na Câmara (e posteriormente vetado pelo prefeito Edinho Araújo), instituindo na rede municipal o Escola Sem Partido.

A sigla, ligada umbilicalmente aos pastores da Universal, é uma das principais defensoras em esfera nacional da proposta, sob o argumento de que é contra a doutrinação de esquerda existente hoje na educação pública no Brasil.

O documento entregue nas escolas de Rio Preto, assinado pela “Coordenação do filme Nada a Perder”, defende que a saga de Edir Macedo pode ajudar os adolescentes a dominar conhecimentos em disciplinas como redação, matemática, biologia, ética e cidadania, história e geografia. Em matemática, por exemplo, a sugestão é que os alunos estudem “estatísticas que mostram a evolução dos números de fiéis da Igreja Evangélica e da Igreja Católica de modo geral nos últimos 40 anos”.

Com relação à redação, o documento afirma que o filme é uma boa referência para o debate em grupos (pró e contra) sobre o trabalho desenvolvido pelo personagem principal. Até a doença de Edir, lábios leporinos, é apresentada como um elemento que pode reforçar o aprendizado em biologia.

“Temos consciência que cada educador pode trabalhar os temas da melhor forma dentro do conteúdo desenvolvido em sala. Temos aqui apenas algumas sugestões”, diz o ofício, que traz no verso anotações com nomes, telefones e e-mail de assessores de Karina para a programação das sessões e quantidades de alunos. As salas reservadas são no shopping Cidade Norte.

Questionada pela coluna, a vereador Karina Caroline confirmou que intermediou o pedido de autorização junto à Diretoria Regional de Ensino do Estado, mas disse que o trabalho nas escolas é feito pelos pastores. Segundo ela, o foco tem sido discutir o bullying e, a partir daí, oferecer o filme como forma de combater esse tipo de violência muito comum e grave nas escolas. “Edir Macedo sofreu bullying, o filme mostra o quanto isso é cruel. Daí a importância do trabalho”, diz ela.

Quanto à doutrinação, Karina rebate: “Não estamos levando a Igreja Universal para as escolas, mas, sim, a história de um homem, de um personagem importante, como tantos outros. Além do mais, o estado brasileiro é laico”, conclui.

A coluna questionou a Secretaria de Estado da Educação se o trabalho tem sido exclusivo em Rio Preto, se esse tipo de divulgação nas escolas é comum e se as sugestões pedagógicas serão assimiladas pelas escolas. “A Diretoria Regional de Ensino de São José do Rio Preto comunica que não há proposta de trabalho multidisciplinar que envolva o filme ‘Nada a perder’ e que a forma de divulgação de eventos deve ser discutida com a equipe gestora de cada unidade escolar. No entanto, não é permitido o contato direto com os alunos em sala de aula ou nas dependências da escola”, foi a resposta.

Clique aqui e confira na íntegra a coluna desta quinta-feira (05)

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