Conexão Capivara: Edinho desarmado

Beck, Fabrício, Maria Elena e Edinho durante entrevista no Júpiter Olímpico (Foto:

Na tarde chuvosa de quinta-feira (21), já em clima de Natal, tiramos o prefeito Edinho Araújo (PMDB) do gabinete, do paletó e da correria insana que é administrar uma cidade com tantos desafios como Rio Preto e o levamos para uma entrevista na pista de skate do Júpiter Olímpico. A ideia era arrancar Edinho da zona de conforto e desarmá-lo da carcaça sempre impecável de político disciplinado e metódico para uma conversa amistosa, provocativa, mas sempre muito séria, porque jornalismo, mesmo o bem-humorado, exige seriedade acima de tudo. Em meio às manobras radicais dos meninos no skate e nós quatro sentados num tablado de alguns centímetros de altura, o que também nos obrigou a abandonar a nossa zona de conforto, rolou um papo reto com o prefeito sobre conquistas e percalços em 2017, projetos para 2018 e até um improvisado amigo secreto, no qual ele diz o que daria de presente para a cantora Anitta, para o ex-presidente Lula e para o deputado estadual Vaz de Lima (PSDB). Confira os principais trechos abaixo. Confira também o vídeo no Facebook do Dhoje ou no site do jornal. Um grande abraço e um Natal de paz a todos que têm vibrado e colaborado com este projeto.

Beck – Obrigado, prefeito, por aceitar nossa proposta de entrevista. Numa autoavaliação, nos aponte um grande vacilo do senhor neste primeiro ano de governo e um grande acerto.

Edinho Araújo – Olha, Beck, não é fácil responder à sua pergunta. Eu quero dizer que foi um ano em que procurei aplicar a lei. Houve um momento em que a administração tinha que fazer valer uma lei que há dois anos tinha sido votada pelo Congresso Nacional, que é a Lei 13.019, que estabelece uma nova relação com o terceiro setor. Isso é uma área muito sensível porque tá diretamente ligado às questões sociais que cuidam de crianças, que cuidam de idosos. E nós tivemos a determinação de estabelecer um diálogo amplo com todas essas instituições. Foi uma questão muito séria e nós acertamos, porque com o tempo vamos equacionar as relações entre o setor público e o terceiro setor. Com relação a vacilo, eu acho que a gente tem sido muito determinado e eu confesso a você que eu sinto que há uma falta de recursos. E a Prefeitura tem uma imensa dificuldade tendo em vista os equipamentos que não funcionam como nós gostaríamos que funcionassem. Não entendo isso como vacilo, mas eu acho que, nesse aspecto, a Prefeitura poderia fazer muito mais.

Fabrício – Prefeito, o senhor conhece a parábola dos talentos. Eu quero aplicar isso à administração. Se o senhor desse dez reais para três secretários, qual deles traria, daí uma semana, vinte reais, qual traria os mesmos dez reais e qual não traria nada, por, talvez, ser o mais gastão, não no sentido pejorativo. Cite, por favor, esses três secretários e explique o porquê.

Edinho – Olha, eu tenho secretários que têm procurado, de forma geral, cumprir aquilo que nós estabelecemos como princípio. Tendo em vista um ano recessivo, num período em que a economia não vai bem, o lema é fazer mais com menos. Isto eu acho que teve uma certa predominância em todo o secretariado. Porque foi um ano em que praticamente não gastamos. Tínhamos que equilibrar. O orçamento deste ano é um orçamento que não vai se realizar. Mas nós não vamos terminar no vermelho, muito pelo contrário, vamos terminar com as contas em ordem, no azul. Quanto à parábola, eu vejo que o Israel (Cestari) é o secretário que multiplica muito. Ele é muito criativo. Portanto, eu o colocaria como alguém que traria os vinte reais, até em função da experiência. O Liszt (Abdala) é um cidadão também que tem um trabalho com poucos recursos. Ele é inventivo, criativo. E eu confesso a você que eu não vejo nenhum secretário que seja esbanjador.

Maria Elena – Qual, então, o mais pidão? Aquele que insiste, que pede dinheiro para realizar seus projetos?

Edinho – Olha, todos os secretários têm muitos projetos. Por exemplo, a Secretaria de Cultura. É um universo onde há muita organização e há muitos projetos. Então nós queríamos avançar muito mais. O Ganga (Pedro Ganga) tem ali uma equipe que realmente gostaria de ter muito mais recursos para poder realizar. Então eu não diria que seja o secretário pidão, mas é um secretário que gostaria de ter mais recurso para poder organizar e atender a grande demanda, porque ele tem projeto. Esta é uma área onde há uma mobilização muito grande de artistas e a cultura ela é realmente algo muito vivo.

Maria Elena – Prefeito, às vésperas de um novo ano, todo mundo faz promessas, tipo emagrecer, comer melhor, fazer exercícios, voltar a estudar. No ano passado, o político Edinho fez muitas promessas em campanha. E algumas o senhor não conseguiu cumprir, como o Poupatempo da saúde, prometido para 2017, a entrega em dia de uniformes escolares, entre outras. Em 2018, o senhor cumpre essas promessas?

Edinho – Olha, Maria Elena, essa questão de realizar aquilo que foi dito, a programação de governo, nós temos que ter em conta que é um programa para quatro anos, não é para o ano. Então nós estamos trabalhando muito. E o processo de maturação no poder público, só quem vive consegue entender. Eu compreendo estes questionamentos que vocês fazem, mas nós temos trabalhado. Já neste primeiro ano esboçamos muito dos nossos 15 itens do programa de governo e eu tenho absoluta certeza que ao final dos quatro anos teremos honrado todos os compromissos. Um exemplo é a questão da saúde. Logo no início do ano, agora, vamos ter 40 consultórios que vão ser instalados nas clínicas de especialidades. E, com certeza, estas e outras propostas de governo nós vamos viabilizá-las ao final do mandato.

Beck – Mas vamos descontrair um pouquinho com um rápido amigo secreto. Colocamos nesta sacolinha alguns nomes de políticos e personalidades nacionais. O senhor vai retirar três papeizinhos e dizer o que daria a cada um deles de presente.

Edinho – Anitta? (primeiro papelzinho retirado). Olha, eu li há algum tempo atrás “Cabeça de Obama”. E eu acho que cabe à Anitta e a todos. Então eu vou presenteá-la com “Cabeça de Obama”, que eu acho um livro especial. Recentemente eu pude acompanhá-lo em uma conferência e sei o quanto ele é um homem importante para a política. Vaz de Lima (segundo nome retirado). O Vaz de Lima é uma figura pública com quem eu tenho a melhor convivência. O Vaz de Lima é um homem que conhece a palavra de Deus, portanto eu renovaria com uma Bíblia pro Vaz de Lima. Lula (terceiro papelzinho tirado e uma risadinha indecifrável). Olha, o Lula. O que dizer do Lula? Que ele consiga explicar todas as situações em que ele está envolvido. Portanto, uma boa leitura de filosofia talvez pudesse ajudá-lo nesse momento. Filosofia pra ele.

Fabrício – Prefeito, o senhor gosta de presentear com livro? Porque os três presentes foram livros.

Edinho – O problema, Fabrício, é que eu confesso a você que eu tenho uma imensa dificuldade e eu sou muito assessorado pela Maria Elza (primeira-dama) nessas questões. E não tenho muita facilidade pra comprar as coisas. Eu confesso a você que uma coisa que eu compro é livro. Tá certo? Isso eu entendo, razoavelmente.

Beck – O Lula vai ser julgado agora dia 24 de janeiro em segunda instância. O senhor faz alguma previsão?

Edinho – Não. Eu não faço. Acho que essa é uma questão da Justiça e eu não tenho nenhum espírito de julgar. E espero que se faça justiça e que nós tenhamos uma eleição menos judicializada. Os adversários eu prefiro derrotá-los nas urnas.

Beck – E como que o senhor avalia o comportamento do ministro Gilmar Mendes, que solta todo mundo nos 45 do segundo tempo?

Edinho – É, o Gilmar Mendes ele tem uma personalidade muito forte. É um homem que segue seus princípios, suas convicções jurídicas e a experiência que tem do mundo administrativo, político. Portanto, me cabe respeitar suas decisões.

Fabrício – Prefeito, vamos voltar lá em 1852, ano da fundação de Rio Preto. O que o senhor faria de diferente se tivesse que projetar uma Rio Preto do zero, planejada, ou seja, o que o senhor faria de diferente para evitar o que considera um grande problema urbano?

Edinho – Eu acho que Rio Preto tem um planejamento, sim. Agora, a questão de Rio Preto são os rios: o Borá, o Canela. Principalmente onde se deram construções muito próximas do rio. E tem um ditado que é muito falado pelos índios: rio tem que bufar. Então, à medida que você constrói muito às margens do rio, isso traz problemas. Mas naquela época não se imaginava que impermeabilizariam tanto a montante desses rios, assim como as margens deles. Então eu acho que não teríamos construções próximas do Borá e do Canela. Com isso, evitaríamos as enchentes que temos hoje.

Maria Elena – Prefeito, conheço poucos políticos que tenham ao longo da sua carreira um grupo tão sólido e permanente como o senhor: Zeca Moreira, China e Jair Moretti, por exemplo, o acompanham há décadas. Mas, fora a parceria política, quem é o amigo de Edinho Araújo? Aquela pessoa para quem o senhor confessa suas maiores aflições? Não vale a Maria Elza.

Edinho – Olha, você mencionou todos que me acompanham há muitos anos mesmo. Todos são muito leais. E eu sou muito grato a isso. Eu acho que o sucesso de onze vitórias consecutivas, e ser um dos poucos políticos no Brasil que têm esse número de mandatos seguidos ininterruptos, devo, em grande parte, a Deus, que tem me abençoado e tem me iluminado ao longo dessa trajetória política. Depois, a estes companheiros e ao povo de Rio Preto e daqui da região. Eu diria que todos esses que você mencionou, e outros, são muito companheiros e muito leais, mas o Zeca Moreira, ele vem primeiro de todos eles. E, não sei se conversamos tudo, mas ele é, sem sombra de dúvida, uma grande figura, que prezo muito.

Beck – Prefeito, este ano falou-se muito em homofobia, questão de gênero, transfobia, transgênero. A Secretaria de Saúde de Rio Preto está preparada para discutir este assunto em 2018?

Edinho – Temos que estar contemporâneos. Acho que o secretário (de Saúde) e o poder púbico como um todo precisam ser contemporâneos. E sem sombra de dúvida não tem que haver tabu. Nós temos que enfrentar todas as questões e eu tenho uma visão muito plural a respeito do comportamento, de uma sociedade plural, onde não haja discriminação, não haja preconceito e prevaleça o amor, a fraternidade e a felicidade das pessoas.

Fabrício – Do passado para o futuro agora. O primeiro mandato do senhor ficou marcado pela viabilização do Semae. No segundo mandato, tivemos a questão da estação do tratamento de esgoto. Em 2020, quando o senhor deixar a Prefeitura, ou não, caso tente a reeleição, qual é o grande projeto que o senhor pretende deixar como carimbo?

Edinho – Você colocou muito bem. Primeiro mandato foi o abastecimento regular da água. Interligamos os postos, fizemos reservatórios. E instituímos o Semae, que eu acho que foi uma grande conquista criar esta autarquia. E isto é muito importante. Então, de 2001 a 2004, recondicionamos o problema da água. A partir de 2005, até 2008, foi a estação de tratamento de esgoto. Nós queremos ampliar o esgoto nesse mandato, ampliar a questão da capacidade de água, para que não haja interrupção no fornecimento regular, preparando a cidade para 600 mil habitantes, que acho que teremos daqui a alguns anos. Mas eu vejo a BR-153 como a grande marca. Eu lutei durante 28 anos para ver a ponte rodoferroviária construída. Uma obra construída com 50% dos recursos de São Paulo e os outros 50% com recursos Federais. Estava eu na Assembleia quando conseguiu-se metade da ponte. E depois, no Congresso Nacional em Brasília, quando concluímos a obra em 1998. Portanto, agora, eu considero a BR-153 uma obra importantíssima. E vamos forçar a duplicação da sua extensão, tanto para o Paraná quanto aqui pro norte, pra Minas Gerais. Portanto, a BR-153 vai mudar o sistema viário de Rio Preto. Serão 14 viadutos que serão construídos, interligando a cidade de um lado a outro. Considero esta obra importante, além do saneamento e da infraestrutura, para preparar a cidade para 2030.

Maria Elena – Prefeito, o senhor conhece a polícia há muito tempo. E o cenário hoje é muito diferente, muito mais tenso. Na opinião do senhor, pai que coloca filho na política hoje em dia merece queimar no fogo do inferno?

Edinho – Olha (outra risadinha enigmática), eu acho que política será sempre importante e nós temos que ter sempre alguém que se disponha a fazer a boa política. Eu vejo muitas vezes que essa política que se fala e que se critica não é a política de Aristóteles, de Sócrates. É a politicagem. E nós precisamos é de políticas públicas, de gente que cuida do coletivo. Então, há a necessidade de que nós tenhamos sempre bons homens e mulheres que se disponham a isso, porque não é fácil fazer vida pública. E você, ao fazer essa pergunta, sugere que o Edson (Edinho Filho) será candidato?

Maria Elena – Sim. O Edinho Filho está pronto para fazer essa política que o senhor citou?

Edinho – Sim. Eu chamo o Edinho filho, como você faz referência, eu o chamo de Edson, compreenda. Ele nasceu num berço político e me acompanha. Ele tem, é claro, o seu estilo, o seu jeito, e eu vou deixá-lo muito à vontade. Eu me lembro que na eleição de 2012 ele teve uma certa iniciativa de ser candidato a vereador. Eu falei não, não é a hora. Em 2016, eu falei, não faz sentido. Então, eu confesso a você que estou deixando que ele decida. Porque vida pública exige muita renúncia, muita disposição. É um sacerdócio. O pai tem sempre o desejo que o filho seja feliz. E se for este o caminho para que ele seja feliz, levando desenvolvimento, progresso, e fazendo a boa política, tudo bem. Deus sabe.

Beck – Como fazer com que o jovem de hoje volte acreditar na política, sobretudo na figura do político?

Edinho – Fazendo um governo democrático. Aberto. E dando oportunidade para eles se manifestarem. Estar próximo. É isso que eu tenho procurado fazer. Fiz mais de 800 reuniões em meu gabinete com o pessoal da máquina, do governo, mas, sobretudo, com a sociedade. E quero estar mais presente em 2018, em contato com eles. Não faltei a uma só reunião de associação de moradores. Estive presente a todas elas. Ouvindo. Não que eu pudesse atendê-las, porque o orçamento público é curto. O cobertor é curto. Não há dinheiro. Os equipamentos púbicos deixam a desejar, não estão abertos em todo o tempo que há a necessidade. Mas nós precisamos criar formas. Estou muito satisfeito com o desempenho deles. Mas quero ainda mais para que nós possamos ter essa esperança dos jovens no amanhã.

Fabrício – Percebemos aqui no Júpiter várias poças de água com as chuvas. Tem algum plano para que isso não ocorra mais?

Edinho – O problema da cidade e de muitas construções é exatamente a drenagem e projetos bem feitos. E é isso que eu tenho procurado corrigir. Muitas vezes, a pressa em períodos eleitorais fazem com que governantes e figuras públicas, agentes políticos, tenham pressa. A gente tem que fazer a coisa bem feita. E, pra que se execute de forma adequada, é preciso ter um bom projeto. E muitas vezes, passa pela microdrenagem na cidade e em alguns equipamentos como este.

Fabrício – Mas o senhor tem algum projeto pro Júpiter?

Edinho – Percebo que realmente temos que consertar isso. Não tem sentido. Isso pode provocar até um acidente, essa água parada aqui. Tomarei as providências.

Fabrício – O senhor acha que o presidente Michel Temer vai enfrentar a reeleição?

Edinho – O Temer é um político. Se o governo e a economia continuarem crescendo e ele chegar aí a 15% de bom e ótimo, ou de aceitação, nós sabemos que o homem que é presidente da República tem a possibilidade de reeleição. Eu não descarto não.

Maria Elena – O senhor anda de skate, prefeito? O que o senhor acha mais difícil: as manobras do skate ou fazer política?

Edinho – Ah, eu prefiro ficar na minha praia, que é a política.

Maria Elena – Olhando pra trás, toda sua trajetória política, por que o senhor acha que, como homem público, merece um presente do Papai Noel?

Edinho – A credibilidade, Maria Elena. Eu estou muito feliz e quero sempre buscar isto, né? Porque a vida pública é uma vida de altos e baixos. É uma vida de muito risco. Agora, eu procuro sempre falar a verdade, trabalhar todos os dias muito, olhar no olho das pessoas e quero transformar, quero construir pontes. É isso que me move. É levar o progresso. É levar o desenvolvimento. Eu estou muito ligado a isso e a fazer com que as pessoas nunca percam a esperança. Porque se perder a esperança, realmente acabou, né? Então eu quero isso. Eu quero ser um veículo, um instrumento da esperança das pessoas por dias melhores.

Fonte: Conexão Capivara

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