Conexão Capivara: DO PT PARA O PSOL

Desgaste interno no PT, fi- “ Psol e janela partidária. Esses foram os três elementos apontados pelo deputado estadual João Paulo Rillo para trocar o PT, partido pelo qual milita des- de os 16 anos, pelo Psol.

Aos 41 anos, o parlamentar afirmou que sua saída se deve ao esgo- tamento do Partido dos Traba- lhadores que teria dificuldades em conversar com as novas gerações dentro da própria si- gla. Ele apontou também que pesou na sua decisão o confli- to que tem vivido há três anos dentro da bancada do PT na As- sembleia Legislativa. Mas apon- ta que o divisor de águas foi a filiação de Guilherme Boulos para ser candidato a presidente pelo Psol.

Em entrevista à Conexão, Rillo afirmou que o processo de desligamento do PT começou há um mês, quando foi comu- nicado por Boulos que seria candidato a presidente pelo Psol. Ele negou que sua saída do partido tenha relação com a recente condenação do ex- -presidente Lula e sua possível prisão. “O Psol reconheceu uma perseguição política em rela- ção ao ex-presidente. E eu vou continuar fazendo a defesa do direito de o Lula ser candidato, embora a minha opção agora seja a candidatura do Guilherme Boulos”, disse. Ele disse que não levou em consideração, ao fazer a troca de partido, a questão eleitoral – embora acredite que o Psol, hoje com 2 deputados estaduais, deva aumentar sua bancada enquanto o PT, com 15, deva encolher.

Rillo destacou que teve “conversas duras” com dirigentes municipais do PT quando anunciou sua saída, mas acredita que o rompimento não será traumático. Mas criticou a escolha de Luís Carlos Marinho como candidato a governo pelo PT – candidatura que, segundo ele, foi enfiada “goela abaixo”. Confira trechos da entrevista concedida pelo deputado João Paulo Rillo, que vai tentar a reeleição, à coluna.3

Conexão Capivara: Por que o se- nhor decidiu trocar o PT pelo Psol?

João Paulo Rillo: Há três anos o PT vive uma crise de imagem. Isso sempre foi abordado por mim e eu lutei até o limite dentro do partido para que o PT promovesse mudanças importantes e reconhecesse alguns erros – até porque tem muito mais acertos que erros. Mas seria importante uma autocrítica, um balanço e uma reformulação, e discutir profundamente o distanciamento do partido com as novas gerações. Isso sempre me preocupou. Só que tinha um empecilho: eu não me via em um outro espaço na mesma perspectiva de construir um projeto de alternativa ao País. Assim como o PT foi e continua sendo, um partido muito forte, que apresentou uma alternativa para o País e que pode novamente ganhar as eleições, inclusive. No entanto eu te- nho a expectativa de poder contribuir mais com a construção de uma frente democrática popular no Psol, que se abriu para isso. O Psol fez uma correção no seu discurso em relação a um projeto de Brasil. Aceita como candidato a presidente um jovem e brilhante líder de 35 anos (Guilherme Boulos), que vem do movimento popular urbano mais importante do País. Se abre para outros segmentos, para outros núcleos e coletivos, no sentido de funcionar como frente. Então essa perspectiva me deixou confortável para fazer essa que é uma travessia muito difícil na minha vida. Eu tenho 41 anos de idade e 25 anos de PT, eu fiquei mais dentro do que fora do partido na minha vida toda, milito desde os 16 anos. Fiz conversas intensas dentro e fora do partido para poder tomar essa decisão. Não é uma decisão individual. É óbvio que ela tem um simbolismo e recai em cima do nosso mandato porque eu sou a figura pública dele. Mas foi um coletivo ama- durecido que tomou essa decisão.

Conexão: Quais são as diferenças programáticas entre PT e Psol?

Rillo: Tem uma semelhança no campo ideológico, democrático e popular. Entre as diferenças, talvez a que mais me incomodava no PT: o partido tem uma dificuldade imensa de se abrir para as novas gerações. Descobrir as novas linguagens. Em que pese ser um partido muito forte e com uma capilaridade social extraordinária jamais vista na história do Brasil. No entanto tem um envelhecimento, um esgotamento de metodologia e uma dificuldade de se abrir pro novo. E o Psol aponta para esse caminho. Embora seja um partido também com estrutura de funcionamento muito semelhante aos partidos tradicionais de esquerda, agora ele se lança com muita grandeza a um projeto importante. Aceita-se trabalhar como frente, filia alguém que não era dos quadros partidários e oferece o maior posto de disputa, que é o de presidente da República. E isso realmente me encantou. Um gesto de coragem que me animou a construir um novo projeto.

Conexão: Mas por que a troca de partido neste momento? Esse desgaste do PT já ocorre há três anos…

Rillo: Algumas coincidências. Primeiro porque coincidiu com o esgotamento de disputa interna no PT de São Paulo. Eu vinha também há pelo menos três anos numa divergência constante com a bancada (na Assembleia Legislativa), de posição e de metodologia. Com alguns momentos muito extremos e uma retaliação permanente. Que é muito semelhante à política agora que vai indicar o Marinho (Luís Carlos Marinho) candidato a governador. Uma candidatura goela abaixo, uma candidatura que não dialoga com a base petista, que não cria uma expectativa de disputa no Estado de São Paulo. Eu desacreditei na luta interna, pelo menos em São Paulo. A outra questão é este giro do Psol no caminho de uma frente. A filiação do Guilherme Boulos não é qualquer coisa, porque ele traz com ele um movimento urbano importantíssimo e parte da intelectualidade que já foi formadora do petismo. E também o fato de o Psol não negar o PT. Há críticas, mas não nega o legado do partido. Para mim isso era importante. E, obviamente, eu tenho um limite para fazer a filiação, que é 6 de abril. Senão eu posso perder na Justiça o mandato. Embora eu tenha justificativa (para trocar de partido), eu preferi não travar uma guerra judicial com o PT.

Conexão: O fato de o ex-presidente Lula ter sido condenado e com a possibilidade de o TRF-4 determinar sua prisão na próxima segunda- -feira (26) pesou na sua saída do PT?

Rillo: De maneira alguma. Inclusive o Psol reconheceu uma perseguição política em relação ao ex-presidente Lula. Num País em que o Aécio Neves está solto e é senador e em que você tem um gângster na Presidência da República, prender o maior líder popular do País seria um absurdo. E o Psol reconhece isso. E eu vou continuar fazendo a defesa do direito de o Lula ser candidato, embora a minha opção agora seja a candidatura do Guilherme Boulos.

Conexão: Hoje o PT tem 15 deputados estaduais e o Psol, dois. Você avaliou a sua viabilidade eleitoral com a troca de partido? Não fica mais difícil uma reeleição agora?

Rillo: Tudo são teorias. Nosso mandato tem viabilidade eleitoral em qualquer partido pelo qual fôssemos disputar. Mas a decisão não passou por essa conta eleitoral. Até porque isso é relativo, depende de um monte de coisas, como o desempenho de candidaturas majoritárias. A nossa posição foi política mesmo. Eu me sinto bem e mais feliz em uma nova composição polí- tica. Esgotou um ciclo meu dentro do PT. A tendência é que o Psol aumente sua bancada. E pode também ter uma redução na bancada do PT, se seguir uma lógica eleitoral. Tem possibilidade de eleição nos dois partidos. A minha conta não foi eleitoral, foi política.

Conexão: Como o senhor avisou o PT de Rio Preto que deixaria o partido?

Rillo: O PT tem uma cultura política muito forte e as pessoas têm dificuldade em deixar o partido. Tive conversas muito duras com lideranças em Rio Preto, mas todas elas muito honestas e altamente produtivas. Posso me referir aqui à conversa que eu tive com o presidente municipal do PT, o Carlos Henrique, que milita comigo desde que eu comecei no movimento estudantil. É óbvio que ele não apoiou a decisão, mas respeitou e compreende que tanto o PT quanto outros partidos devemos funcionar como frente. Devemos ter um programa mínimo, uma unidade programática dos partidos do campo democrático. Que vai além do campo de esquerda apenas.

Conexão: Seu pai (Marco Rillo, vereador) continua no PT?

Rillo: Meu pai continua no PT. Ele é da geração que fundou o PT, embora ele tenha se filiado apenas em 88. Ele tem um mandato, não tem janela (para trocar de partido). Mas ele não demonstrou também interesse nenhum em se desfiliar ao partido. Embora concorde e compreenda. Ele disse: “Eu sou de outra geração, acho que tem todo sentido você participar de um novo processo de construção. Minha geração foi importante na construção do PT”. Então a avaliação dele é de não sair. Vai me apoiar mesmo assim para deputado.

Conexão: Quando exatamente você tomou a decisão de deixar o PT?

Rillo: Desde quando o Guilherme Boulos me chamou para avisar que aceitaria sair candidato a presidente da República pelo Psol.

Conexão: Isso foi quando?

Rillo: Há um mês, mais ou menos. Ali eu iniciei o processo de consulta. Embora seja uma decisão individual de me desfiliar, era necessário construir um diálogo e sentir se seria possível, se não seria uma ruptura muito drástica. E eu percebi que tem uma conjuntura favorável a esse tipo de comportamento como frente. As pessoas estavam de fato abertas a essa nova conjuntura política. Então de lá pra cá foi um momento intenso, meio silencioso. Não foi nada público. Mas batemos o martelo mesmo em uma reunião aqui em Rio Preto há mais ou menos uma semana.

Conexão: Se o Boulos não se filiasse ao Psol, você continuaria no PT?

Rillo: Continuaria porque não veria uma possibilidade de construção partidária e de projeto nacional se o Psol não tivesse feito esse giro. O Psol se coloca pela primeira vez como um partido aberto a se transformar em um partido de massa, como é o PT. Faz uma aliança com um campo popular, aceita uma candidatura de uma liderança brilhante que não era dos quadros partidários e isso é uma experiência nova no Brasil. Isso pode ter um resultado importante. É óbvio que é muito difícil o Boulos virar presidente nesta eleição, mas é o início da consolidação de um projeto nacional.

Conexão: No ano passado, surgiu a denúncia de que você teria recebido R$ 500 mil do grupo Odebrecht para sua campanha a prefeito em 2012. E esse dinheiro teria vindo por meio do diretório estadual do PT. Isso teve alguma influência na sua decisão de deixar o partido?

Rillo: Não veio dinheiro para minha campanha. Isso daí é uma citação em uma lista que não andou e já foi desvinculada de qualquer ligação com a Lava-Jato.

Conexão: Mas o diretório não repassou dinheiro para sua campanha?

Rillo: Não existe nem processo sobre isso. Nunca fui chamado a falar sobre isso. Provavelmente isso será arquivado em algum momento. É uma citação absurda e paguei um preço caro por isso. E não fui só eu, 350 pessoas aparecem em uma lista. Muitas lideranças com o meu perfil, que são parlamentares combativos e já processaram a Odebrecht estão lá, em uma coisa muito estranha. Assim como está sendo estranho esse processo institucional no Brasil. Isso não tem relação nenhuma com minha decisão.

Conexão: Mas veio recurso do diretório estadual para sua campanha em 2012. Não seria dinheiro proveniente da empreiteira?

Rillo: Teoricamente não porque não tem vínculo nenhum sobre isso. E a única citação a mim não tem ilegalidade nenhuma, é alguém que fala “contribuímos oficialmente para o diretório estadual”. E morreu aí, não tem nenhuma investigação, nada sobre isso.

 

Clique aqui e confira na íntegra a coluna deste domingo(25)

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