Conexão Capivara: ‘Barganha eu não vou fazer’

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Na terceira entrevista com candidatos a deputado estadual, a novamente petista Eni Fernandes, ex-vereadora e ex-secretária da Mulher na gestão Valdomiro Lopes (PSB), mostra que as feridas abertas na longa e tensa guerra travada dentro do PT com a família Rillo alguns anos atrás ainda não estão cicatrizadas. E transforma o deputado estadual João Paulo, hoje Psol, seu alvo preferido.

Afirma também que não vê incoerência entre sua militância religiosa na Igreja Católica com pautas feministas como o aborto, que defende como direito da mulher de acesso a serviço seguro em vez do risco de vida nas clínicas clandestinas.

Dhoje Interior

Ainda segundo Eni, carregar o PT, imerso em denúncias de corrupção, não será um fardo extra na campanha. “Muito pelo contrário”, rebate. E diz ter dificuldades para conseguir dinheiro para seu projeto eleitoral. Confira abaixo…

A senhora chegou a ser a vereadora mais votada em 2000 e nem se reelegeu em 2004. Depois houve um grande desgaste dentro do PT. Por que a senhora saiu do partido para voltar agora?
Eni Fernandes – Eu não sai do PT em momento algum. Pelo contrário. Eu tive uma relação boa com os petistas daqui. Só não tive com a direção do PT que ainda tem bastante influência da família Rillo. Na realidade, eu fui retirada do partido por eles em 2011 ou 2012, não me lembro exatamente o ano. E fui reintegrada pela Justiça. Eu saí em 2016 para concorrer a vereadora pelo PSB com o Bolçone, porque não teria espaço no PT de Rio Preto. A direção estadual, que era do Emídio de Souza, de Osasco, fez um acordo comigo. Que eu retornaria ao PT no momento em que o João Paulo Rillo saísse. Quando o João Paulo Rillo acenou que sairia, eles me convidaram para retornar. E para ser a candidata do PT aqui em Rio Preto.

Mas existe visível hostilidade do PT local em relação à volta da senhora. Até porque a senhora se aliou ao PSB quando este era o principal adversário do PT na cidade. Conduzir uma campanha eleitoral neste clima de guerra interna não é muito difícil?
Eni – Guerra nunca é boa. Eu detesto guerra, mas realmente existe. Mas existe por parte de quem? Quem está na direção do PT hoje são as pessoas ligadas ainda de alguma forma ao João Paulo Rillo. O correto seria, eticamente, elas saírem. Se eu tivesse feito isso, seria trucidada pelo João Paulo, que diria assim: olha só, ela não tem ética. Ela saí e deixa seus assessores. Mas ele saiu e deixou os assessores. Inclusive na direção estadual do PT. Mas agora, o que interessa a mim e à direção estadual é a eleição de 7 de outubro. Estamos trabalhando isso e depois, vamos trabalhar essa outra questão.

Mas se o PSB era o principal adversário do PT, não existia de fato um conflito partidário e ético?
Eni – Existiria se eu tivesse um tratamento decente e respeitoso dentro do PT, o que eu nunca tive. Desde 2004, quando eu não fui eleita. Por exemplo, em 2000 nós elegemos quatro vereadores. Em 2004, elegemos um único vereador que foi o João Paulo. Onde é que estavam os outros? Para onde foram os outros? De 2000 a 2004 tivemos uma série de desgastes impostos pelo próprio Marco Rillo. Vou lembrar de um. Ele disse que eu era campeã de viagem particular com o carro da Câmara. Não só eu, mas o Cacau e o Márcio Ladeia (também vereadores pelo PT em Rio Preto na época). Isso foi um escândalo na cidade, quando na realidade nem eu, nem Cacau, nem o Ladeia tínhamos feito nenhuma viagem particular. O doutor Romani (promotor de Justiça) provou isso. Os três fomos sacrificados porque a luta dos Rillo era tomar o PT.

Voltando à questão de que a senhora foi secretária do ex-prefeito Valdomiro Lopes. Como é sua relação com ele? Acha que ele seria um bom deputado federal?
Eni – Ele foi bom como prefeito, pelo menos em relação a mim como secretária. E muitíssimo respeitoso. Eu acho que na política a primeira coisa que você precisa é saber ouvir quem você está comandando. Isso ele fez todos os instantes. Então eu acredito que como deputado ele vai fazer o mesmo com as suas bases. E quem exerce um mandato voltado para quem o elegeu, dificilmente erra. E eu gostaria de falar aqui que tenho um profundo orgulho e uma profunda admiração pelo deputado Bolçone, embora seja meu concorrente. Desejo que ele seja muito bem-sucedido e reeleito.

Até agora a campanha da senhora tem sido bem modesta. Quanto a senhora pretende gastar e onde vai buscar dinheiro?
Eni – No PT a gente sempre teve uma campanha muito difícil, né?

Não é bem assim. O PT nacional vem emplacando os marqueteiros mais caros. Não faltou dinheiro para a reeleição de Dilma Rousseff, por exemplo…
Eni – É claro que eu acho que o programa de televisão do PT hoje é o mais bem apurado. É muito bom. O marqueteiro deve ser muito bom mesmo. Mas aqui a gente tem pouco. Estamos usando o que temos. Até porque eu não sei pedir. E para você ter muito dinheiro você tem que saber pedir. E eu não sei. Fazer barganha eu não vou fazer. Nunca fiz e não vou fazer. Mas eu queria dizer assim. Tenho algumas pessoas que me apoiam, que gostam de mim, e até não são petistas. Uns são, outros não. Estou atrás para pegar alguma ajuda, alguma colaboração, mas o grande recurso virá do próprio partido através do Fundo Partidário. Em 2000, quando fui a vereadora mais votada, gastei R$ 5 mil e tive 5.042 votos. Então eu acho que não tem a necessidade de você se prostituir para ter voto.

Já existe algum tipo de promessa do diretório estadual ou nacional do PT de verbas para a senhora? Até porque a Lei neste ano obriga os partidos a destinarem 30% a candidaturas femininas. Não vai faltar dinheiro para o PT se ele quiser investir na campanha da senhora.
Eni – Eu já recebi. Recebi uma quantia modesta, mas dá pra gente comprar, dá pra elaborar os santinhos.

Quanto exatamente?
Eni – Uma quantia modesta. E eu não vou falar porque houve um critério de distribuição do recurso. Foram feitas algumas avaliações por eleitorado, por potencial de voto de cada candidato, pretensão e então eu não gostaria de revelar, mas vocês vão saber quando pegar minhas contas, mas é modesto.

O Lula condenado e preso por corrupção e lavagem de dinheiro é um fardo para se carregar quando se faz o discurso da ética, como a senhora?
Eni – Muito pelo contrário. Até porque, a própria população já percebeu o que tem aí. Tá preso por causa do tal do tríplex do Guarujá que o Sérgio Moro determinou a venda recentemente. E foi vendido. Como é que você vende alguma coisa que é de alguém? Esta é a primeira coisa. E a segunda coisa é: o presidente Lula tem uma aceitação muito grande perante a população. Nós fizemos um ato no sábado e eu pude perceber. Claro que há aquelas manifestações contrárias e isso é normal. Mas muitas pessoas vieram ao nosso encontro. Eu particularmente me senti muito feliz de ver que as pessoas estão aceitando e querem a volta do Lula. O mais difícil pra mim quando saio na rua é ouvir as pessoas pedindo emprego. E a gente impotente sem poder fazer nada.

“Como você se posicionarias na Assembleia Legislativa nas questões sobre ideologia de gênero e aborto. Porque o PT sempre trabalhou isso. E na erotização das crianças nas escolas através de algumas leis e cartilhas?” (pergunta do vereador e candidato a deputado estadual Anderson Branco, do PR)
Eni – Olha, vereador, primeiro não existe ideologia de gênero. É bom você se consultar, ler melhor. Gênero é uma construção social. Está ligado à sociologia. É como os direitos humanos. Vocês acham que defender direitos humanos é defender bandido. E não é. É o direito básico de todos os seres humanos. A ideologia de gênero, como vocês chamam, não existe. Existe gênero, existe uma construção da sociologia nesse sentido. Vocês, por exemplo, dizem que defendem a vida, mas não. Muita mulher, e eu trabalhei com mulheres prostitutas muito tempo, não vão à unidade básica de saúde porque temem não serem bem atendidas. Isso porque ao fazer um aborto, elas podem ser criminalizadas. Só nós mulheres para responder essa questão. E eu acho que a mulher tem que ter liberdade para defender o seu próprio corpo e, acima de tudo, ter a nossa compreensão para num momento difícil desse. Jamais a sociedade ou até uma lei pode impor o que ela tem que fazer. Com relação às escolas, eu acho que vocês realmente não sabem o papel do professor na escola. Se os pais botam seus filhos nas escolas para que eles aprendam, é claro que o professor tem que ter liberdade para expressar o conteúdo pedagógico. Se os pais pudessem fazer isso, não mandariam seus filhos à escola.

Como conduzir a sua candidatura em um partido envolvido em tantos desgastes. Como convencer o eleitor de que as suas propostas são diferentes e que a senhora está em busca de mudança?
Eni – No auge do desgaste do PT, chegamos a 6% da intenção de votos da população. Hoje o PT tem 25%. Isso mostra, primeiro, que a verdade está sendo recobrada. Que essa história de dizer que só o PT é um partido corrupto não pega. Primeiro, não existe instituição corrupta. Existem pessoas corruptas. Eu, por exemplo, sou católica. Eu já ouvi tanta gente dizer que tem padre pedófilo. Mas a igreja não é pedófila. Eu não aceito isso como também não aceito e jamais aceitei dizer que o Partido dos Trabalhadores é corrupto. Ele não é corrupto. Eu não sou corrupta e muitos dos petistas que conheço não são corruptos. Houve erro sim. Agora, a corrupção que dizem que o PT cometeu é uma corrupção que todos os partidos cometem, ligada a recursos para o financiamento de campanha, que, infelizmente, é uma coisa muito obscura ainda. E quando alguém chega e diz para mim que todos os políticos são corruptos, eu desafio a pessoa a mostrar um fio de corrupção na minha vida, assim como eu desafio a mostrar em outras pessoas nas quais confio. Eu já falei aqui do deputado Bolçone. Que alguém aponte algum traço de corrupção nele.

Como conciliar os preceitos da Igreja Católica e bandeiras feministas como o aborto?
Eni – Sou católica, como falei, mas não sou cega. Assim como já tive divergências ideológicas no PT também. Eu não sou daquelas que tapa o olho para os erros do meu partido ou para os erros da minha igreja. A igreja, que tem até um movimento das mulheres religiosas, discute o aborto. E é aí que está a confusão. Ninguém defende o aborto. Eu não defendo o aborto. O que a gente defende é a possibilidade de a mulher não ser criminalizada por que ela precisou fazer. Porque nenhuma mulher quer abortar. É uma agressão ao próprio organismo. Como é que nós vamos querer fazer aborto? Não é isso, gente. É uma mulher que chega numa situação extrema em que ela não tem outra saída. Ou faz com segurança ou vai em clínicas clandestinas. Quantas mulheres já morreram porque fizeram aborto clandestino? E quando há a possibilidade de uma mulher que tem recurso fazer numa clínica com todas as condições, tudo bem?

A senhora se julga uma esquerdista light ou é uma esquerdista radical?
Eni – Eu sou radical na defesa intransigente do direito da vida das pessoas.

Vamos ao nosso teste, então…
1) É a favor da liberação do uso da maconha?
Eni – Acho que não vai acabar com a criminalidade. Sou contra.
2) O governo deve apostar em campanhas para estimular adoção de crianças por casais homoafetivos?
Eni – Não há necessidade de estimular, porque os casais homoafetivos já têm esse estímulo.
3) Liberação do uso de armas para a população?
Eni – Sou contra.
4) A senhora concorda com a ocupação de imóveis abandonados por sem-teto?
Eni – Concordo plenamente. Se está abandonado, vamos fazer uso. O que não dá é ficar na rua.

Em quem dos 13 candidatos à Presidência da República a senhora não votaria de jeito nenhum?
Eni – Eu não votaria na maioria. Não votaria no Bolsonaro (PSL) e no Alckmin (PSDB), por exmeplo. Sou funcionária do Estado e acho que se algum funcionário público votar no Alckmin é porque não tem amor próprio.

Pesquisamos aqui e vimos que o PT destinou R$ 10 mil para a campanha da senhora…
Eni – É modesto. Virá mais um pouco. Mas são muitos candidatos no PT. Com esse dinheiro, vou começar a fazer santinho para distribuir na rua.

Para concluir, por que a senhora acha que merece o voto de confiança do eleitor?
Eni – Eu quero continuar defendendo tudo o que eu faço aqui e que eu já falei. Lutar contra a privatização do Estado. E há coisas que eu acho que a gente não pode também querer que permaneça sob o poder do Estado. Mas a educação, a saúde, assistência, campos em que atuo muito, são áreas que o poder público tem que estimular e cuidar. Defendo o meio ambiente. Desde a questão do lixo reciclável, que eu acho que o Estado tem que incentivar, inclusive num momento desses, com o desemprego tão em alta, temos que estimular pessoas que catam lixo na rua a se organizarem em cooperativas e, assim, terem renda. Nós temos que dar uma assistência muito grande às mulheres que não têm habitação e que estão com filhos na escola. Faltam creches. Acho que tem muito o que se fazer. Como deputado, vereador ou como prefeito, qualquer agente público hoje que queira trabalhar em benefício da população tem muito a fazer. Quero ouvir da população o que realmente é melhor. Isso eu vou continuar fazendo se for eleita e se merecer o voto do eleitor. Meu número é 13688.