Conexão Capivara: As mil faces de Lula

Ninguém tinha dúvida de que seria daquele jeitinho. A missa em memória da ex-primeira-dama Marisa Letícia, que completaria ontem (7) 68 anos, virou um autêntico comício político – como disseram nas redes sociais, um “showmissa”.

Mais do que isso: foi mais uma etapa na tentativa de lula de construir uma figura mítica e imolada aos olhos dos seus fiéis seguidores. Em clima apoteótico, e antes de se entregar à Polícia Federal, ele falou por 55 minutos e fez aquilo que todo mundo esperava que fizesse: falou sobre seu passado de sindicalista, do seu período como presidente, distribuiu críticas pesadas e se disse vítima de uma injustiça tremenda. Claro que o discurso foi autolaudatório.

“Há muito tempo atrás eu sonhei que era possível um metalúrgico sem diploma na universi- dade cuidar mais da educação do que os diplomados e concursados que governaram esse país. Se foi esse o crime que eu cometi, eu vou continuar sendo criminoso”, disse o ex-presidente. Discursando de improviso, como é sua característica desde sempre, ele atacou a Polícia Fede- ral, o Ministério Público, a imprensa e, claro, o juiz Sergio Moro. “Eu sou o único ser humano que estou sendo processado por um apartamento que não é meu.

Eu pensei que o Moro fosse resolver e ele mentiu também”, afirmou. “Eu não os perdoo por terem passado para a sociedade a ideia de que eu sou um ladrão.” Até a ex-primeira-dama, morta no ano passado, foi lembrada para enfatizar seu discurso político: “Não é fácil o que sofreu a Marisa. A antecipação da morte da Marisa foi a maior safadeza e sacanagem que a imprensa e o Ministé- rio Público fizeram”.

Nada muito novo. Ao contrário, tudo bem antigo. Seus discursos inflamados, suas referências constantes à infância pobre, ao seu passado como torneiro mecânico e à sua trajetória até chegar à Presidência da República tentam evocar ao que o mitólogo norte-americano Joseph Campbell descreveu como Jornada do Herói. No livro “O Herói de Mil Faces”, Campbell afirma que todos os mitos milenares têm a mesma essência e a mesma trajetória.

Não interessa se são gregos, nórdicos ou chineses, a estrutura é sempre a mesma: tem início no “mundo comum”, passa pelo “chamado da aventura”, o en- contro com “aliados e inimigos”, o surgimento da “provação difícil” e por aí vai. Ao todo, são 12 etapas para a transformação de uma pessoa comum em um herói. Dá pra dizer que Lula coloca a si mesmo na 11ª fase: a da morte e ressurreição, definida pelo mitólogo norte-ameri- cano como “a última provação”. A morte do político Lula começou com as primeiras denúncias da Lava-Jato e teve seu ápice com a prisão pela Polícia Federal.

Essa é a lenda que o ex-presidente tenta construir pra si. A ressurreição viria com uma absolvição na Justiça e a posterior conclusão da 12ª etapa, chamada de “o regresso” – no caso, regresso à Presidência da República. Resta saber se o povo brasileiro vai comprar essa jornada ou se vai considerar essa história toda uma aventura de quinta categoria.

 

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