Conexão Capivara: ‘A gente cansou de ver palhaço sendo candidato’

Foto Guilherme Batista

Advogado, casado e pai de um menino e uma menina, Marco Feitosa se submeteu a um processo seletivo em três etapas a fim de provar à direção do Partido Novo que cumpria os requisitos da legenda para ser candidato a deputado estadual.

“Fui o único aprovado de Araraquara até a divisa com Mato Grosso”, afirma. E assim, ganhou toda essa imensa região para trabalhar atrás de voto. Para ele, o modelo, que exige conhecimento e currículo, não é “elitista”, apesar de excluir os menos letrados.
Como o Novo recusa o fundo eleitoral destinado a todos os partidos, Feitosa se viu obrigado a redimensionar o tamanho de sua campanha e adequá-la a um orçamento mais enxuto. Ele projetava R$ 200 mil, mas afirma que deverá gastar R$ 30 mil. Sabatinado pela coluna na manhã desta segunda (10), o candidato apresenta ideias polêmicos, mostra uma nova visão de escola e defende as privatizações gerais e irrestritas. Confira os principais trechos.

O senhor fez um vestibulinho para ser candidato pelo Novo. Quais os tipos de perguntas aplicadas?
Marco Feitosa – É uma coisa muito legal. O processo seletivo é constituído por três fases. Cada fase com suas próprias dimensões, com questões de direito, ciência política, economia e o estatuto do partido. São questões objetivas, dissertativas e prova oral. Você tem que apresentar projeto de lei. E, no final, é aprovado ou não. Isso é muito bom porque política é uma coisa séria e demanda qualificação. A gente tá cansado de ver palhaço sendo candidato. Pessoas que não têm a mínima noção do que representa o cargo que estão exercendo. Tudo na vida precisa de conhecimento, qualificação. E na política não pode ser diferente. Esse é o primeiro aspecto positivo do processo seletivo. E o segundo é que você, para ser candidato, não depende de tapinhas nas costas de ninguém, não depende de padrinho político, não depende de nada.

Por outro lado, esse processo que exige tanta qualificação não se torna elitista?
Feitosa – Para você fazer qualquer coisa na vida, você precisa ter um grau mínimo de conhecimento e de qualificação. A política é uma coisa séria. Inclusive, até existem requisitos, você não pode ser analfabeto em que pese existirem analfabetos na sociedade. Mas o processo seletivo, quando você chega na terceira fase do processo, a última, o partido oferece um curso de 36 horas sobre ciências políticas, processo legislativo. Ou seja, o partido investe num possível postulante a candidato para que ele consiga ter o seu próprio nível elevado para depois ser aprovado. Até determinado momento do processo seletivo, você tem que caminhar com suas próprias pernas, a vida é assim. Quando você quer exercer certos cargos, certas colocações de relevância, você tem que minimamente conseguir caminhar até certo ponto.

No site do Novo, consta que o partido defende como obrigação do Estado educação básica, saúde, segurança, infraestrutura e preservação da moeda. Nesse contexto, não entram ensino médio universal e gratuito como é hoje nem a universidade pública gratuita enquanto prioridades. O senhor concorda com isso?
Feitosa – O Partido Novo ele tem alguns tópicos no conteúdo programático dele que são temas fechados, outros que são meras orientações e outros que os candidatos têm liberdade para adentrar e discutir conforme a consciência deles. É tema fechado que a educação básica deve ser universalizada como já é hoje e deve ter investimento. O ensino médio também, o que a gente tá discutindo é uma prioridade de investimentos. Hoje a gente tem uma inversão da pirâmide, onde vai muito dinheiro para as universidades e os ensinos básicos e as creches quase não recebem investimentos. Isso gera uma desigualdade, uma distorção social enorme. Porque as crianças menos favorecidas não têm condições de disputar uma oportunidade de acesso às universidades públicas que são as universidades de melhor qualidade. Falo com muita tranquilidade, porque eu cursei uma universidade pública. Eu estudei na Unicamp. Eu fiz letras linguísticas na Unicamp também, além de direito. Então eu conheço a qualidade da universidade pública, eu conheço a relevância da pesquisa que desenvolve. Só que a gente não pode ignorar que hoje quem acessa a universidade pública, na grande maioria da população de alunos, são pessoas oriundas de classes sociais mais favorecidas que estudaram…

Mas o não investimento no ensino médio não acaba consolidando esta situação?
Feitosa – A gente propõe um rearranjo de investimentos. Hoje a gente tem uma pirâmide que está invertida, com o investimento focado no ensino superior, e ele vai diminuindo até a base. A gente propõe que não seja mais uma pirâmide invertida, mas que seja como se fosse um retângulo. Um rearranjo de investimentos. Tem no Partido pessoas que defendem, por exemplo, a cobrança de mensalidade nas universidades. Eu não defendo isso. Eu sou contra. O partido é de viés liberal, que defende que o indivíduo tenha as liberdades individuais e liberdade de pensamento, mas como em todos os partidos, a gente tem as nossas divergências. Tem gente no Partido que defende uma corrente x e tem gente que defende uma corrente y. Eu não defendo até porque eu entendo que é inconstitucional. O acesso ao ensino deve ser garantido de maneira universal e gratuito. A gente tem que fazer é um investimento na base, de modo que permita uma igualdade de oportunidade para as pessoas no acesso a uma universidade pública.

Dentro dessas prioridades do Novo não está incluída a rede de proteção social. O discurso de Estado mais enxuto, que significaria menos impostos, é música para os ouvidos do empresariado. Mas como ficaria, por exemplo, o Bolsa família?
Feitosa – O Novo é a favor do Bolsa família. Quando a gente defende um Estado mais enxuto, a gente tá contando para o cidadão um aspecto mais importante que os outros partidos deixam de falar. Hoje em dia tem um discurso de que tudo tem que ser provido para todo mundo e as pessoas acham que isso vem de graça. Não vem de graça. As pessoas estão pagando por aquilo. Quando você compra uma coca-cola, 40% do que você paga do preço é imposto. Essa luz aqui acessa, 30% é imposto. E as pessoas não têm essa consciência.

Essa redução do imposto viria através das privatizações?
Feitosa – Privatizações e também de um estado mais eficiente. Um Estado que não seja tão grande, que se intrometa em tudo. Lá no Partido a gente costuma discutir, por exemplo, o Ministério da Pesca. É necessário ter um Ministério da Pesca? Essa questão de rede de proteção social, é importante você saber que na Prefeitura de São Paulo, o secretário de Assistência Social é do Partido Novo. E desenvolve um trabalho excepcional. Com recolocação profissional das pessoas que estão em situação de vulnerabilidade social. Não existe programa, e plagiando alguns candidatos por aí, não existe programa social mais eficiente do que você dar emprego. Tirar a pessoa que está necessitada do cabide. De ficar pendurada, dependendo de favor de entidades. Não é por aí. A gente entende que o indivíduo deve ter resgatada a sua valorização como pessoa. E não como um mero beneficiário de programas sociais. Isso em relação ao Bolsa Família. O problema do Bolsa Família é que ele só tem a porta de entrada. Ele não tem a porta de saída. Mas a gente vê o Bolsa Família como um voucher alimentar. Dá o dinheiro na mão do cidadão. E ele escolhe onde gastar…

E, assim, faz a roda da economia girar?
Feitosa – Isso. Mas aí, voltando àquele tema da educação do ensino médio, que a gente propõe. Olha, o Estado gasta um valor elevado por aluno no ensino médio. Agora é um pensamento que eu estou tendo com vocês: se a gente oferecesse um voucher educacional pelo mesmo valor que o Estado paga para cada família escolher qual a escola onde seu filho vai estudar não seria interessante? Porque veja, hoje só escolhe onde seu filho vai estudar o pai rico, né? Porque o filho do pai pobre não escolhe nem o bairro.

Existe esse tipo de experiência mundo afora?
Feitosa – Em vários Países. Na Colômbia, na Suécia, no Chile tem programas parecidos e funcionam muito bem. Porque você garante a liberdade. Veja, não existe igualdade sem liberdade. Você fomenta o mercado, fomenta a disputa entre as escolas. Mas não estou falando para acabar com a escola pública, não. Ela deve existir para quem queira. E aí vai fazer com que os próprios membros da escola pública, os professores e os dirigentes, batalhem pelo aluno. Porque hoje, também, o aluno está lá. Ela tem o público dela, ela não precisa disputar aquele público. Às vezes aquela não é a melhor escola, sob vários aspectos e você não tem a opção de escolher. Porque o que a gente levanta é isso, será que não seria legal dar a opção para quem queira?
Petrobras, Correios, Banco do Brasil e Caixa Federal. O senhor defende a privatização dessas instituições?
Feitosa – De todos. Porque se você pegar os números das empresas estatais, das fundações no Brasil, desde que a gente existe como República, o prejuízo é gigantesco. Os correios dão prejuízo de mais de R$ 500 mi por ano. E não tem concorrência. Não disputam com ninguém. É estratégico o correio? A Petrobras é estratégica? O petróleo é estratégico? Para quem é estratégico? Para os partidos políticos. São cabides de emprego, de ineficiência e de fontes de desvios. Olha, tem uma empresa dinamarquesa de petróleo que tem a mesma produção de barris de petróleos da Petrobras. Ela tem dez vezes menos funcionários que a Petrobras para ter a mesma produção. Isso é uma vergonha. Isso é um absurdo. A gente fala, a nossa gasolina é barata, comparada com a dos outros Países onde tem um mercado aberto? Não é barato. A gente paga a mais combustível para ter a manutenção desse discurso que essa empresa estatal vale a pena para a gente. Não vale. O que é mais estratégico? Comida ou petróleo?

O Novo fala também no seu site da defesa contundente das liberdades individuais. O senhor concorda?
Feitosa – Concordo plenamente.

Vamos para nosso teste, então…
1) Aborto, o senhor é a favor?
Feitosa – Eu sou contra por questões religiosas.
2) E descriminalização do uso da maconha?
Feitosa – Eu sou contra.
3) Liberação do uso de arma pelo cidadão comum?
Feitosa – Eu sou a favor.
4) Ensino religioso obrigatório nas escolas?
Feitosa – Sou contra. O Estado é laico.
5) União homoafetiva?
Feitosa – Totalmente a favor.

O que realmente há de tão novo nessa história toda? O que Rio Preto pode esperar do partido que se diz novo e do senhor?
Feitosa – Tenho algumas ideias muito específicas. Proponho a criação de uma fundação estadual para atendimento das pessoas com autismo. Essa é uma questão muito grave que existe no nosso País, no mundo? Hoje tem mais crianças diagnosticadas com autismo do que com diabetes. E não tem uma rede de atendimento adequada. Estima-se no Estado de São Paulo que haja uma população maior do que dois milhões de pessoas. Isso é muito grave. Ter um filho com necessidades especiais. Ter um filho que precisa de um atendimento, de um futuro, que se você morrer não tem com quem ficar. Eu proponho, por exemplo, a criação de vilas de moradias assistidas para essa população. É um projeto inovador, a gente não fica no blá blá blá de vou trabalhar pela inclusão, vou trabalhar para melhorar o SUS. Eu estou propondo um órgão público desenhado, formatado. Uma outra bandeira que eu tenho é a questão de políticas públicas para atendimento das crianças com problemas linguísticos. Você sabia que aproximadamente 7% das crianças em idade escolar têm problema de linguagem e acabam sendo diagnosticadas como autistas ou como surdos? Que não conseguem desenvolver a vida social e acadêmica dela por conta de uma simples falta de atendimento? Uma falta de qualificação do professor de identificar o problema. Com um investimento baixo daria para fazer a qualificação de professores. Contratação de fonoaudiólogos. E uma outra novidade que a gente propõe é a questão de um grupo de auditoria legislativa para fiscalizar os convênios do governo do Estado com as prefeituras. Ou seja, fiscalizar o dinheiro que vem do Estado para as prefeituras. É muito dinheiro e isso é fonte de muita ineficiência.

O Tribunal de Contas não resolve?
Feitosa – Ah, eu já trabalhei no Tribunal de Contas. O papel do Legislativo, além de criar leis, é fiscalizar o Executivo, fiscalizar de verdade. E não é só fazer conchavo.

“Quais os seus projetos na área da segurança pública?” (pergunta do vereador e candidato a deputado estadual Renato Pupo, do PSD)
Feitosa – Hoje a gente tem um problema muito sério que são as escolas se tornarem ponto de consumo e de distribuição de drogas. Eu proponho que, na entrada e na saída dos alunos, tenha uma dupla de policias, um policial do sexo masculino e outra do sexo feminino, treinados, capacitados para lidar com crianças, com adolescentes. Não estou falando para chegar lá a Rota dando porrada. Não é isso. Gente qualificada para lidar com essa situação para tentar identificar e principalmente inibir a entrada de traficantes nas escolas. A gente tem muito questionamento em relação a isso, porque vai causar constrangimento aos alunos. O engraçado é que o convívio com o traficante não gera constrangimento. Por outro lado, o convívio com o policial, gera.

Quanto o senhor pretende gastar na campanha e onde vai buscar o dinheiro?
Feitosa – O Partido Novo é muito diferente dos outros 34 partidos que existem. Somos o único partido que não usa nem um real de dinheiro público. Pessoal acha que é brincadeira, esse ano os partidos políticos estão gastando R$2,5 bilhões nas campanhas. É muito dinheiro. Quando você vê uma turma aí fazendo bandeiraço, distribuindo santinho, é o seu dinheiro que está pagando essa conta. Nós não utilizamos e isso já gera um filtro. Porque malandro que quer dinheiro fácil não vem para o nosso partido. Eu tinha um objetivo de arrecadar até R$200 mil. Não vou conseguir. Eu pretendo gastar aí por volta de R$ 30 mil. Recurso próprio. Eu tenho condição. Se eu precisar bancar integralmente a minha campanha eu tenho condição de bancar. Doação de amigos e simpatizantes.

Por que o senhor acha que merece um voto de confiança do eleitor?
Nós somos a única opção de renovação política de verdade na cidade, candidato pela primeira vez. A gente não carrega nenhum partido. Não carrega vergonha do nosso partido. A gente vê outros candidatos maquiando a sua campanha eleitoral por vergonha de falar quem apoia para presidente, quem apoia para governador. Nós, não. Nós temos muito orgulho. Somos candidatos pela primeira vez e a gente pede que as pessoas conheçam. Que entrem nas nossas redes sociais, conheçam as nossas plataformas, as nossas propostas, porque, realmente, a mudança somos só nós do Partido Novo.

 

 

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