Conexão Capivara: A dama e o coronel

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A situação do prefeito de Rio Preto, Edinho Araújo (MDB), no inquérito da Polícia Federal que apura supostos favorecimentos e pagamento de propina no setor portuário está intimamente ligada ao depoimento de dois investigados presos na Operação Skala, na última quinta-feira (29).

São eles o amigo do presidente Michel Temer, o coronel João Baptista Lima, e Celina Torrealba, uma das donas do Grupo Libra. A investigação da PF não está restrita apenas ao Decreto dos Portos, editado em maio de 2017 – quando Edinho já estava fora da Secretaria dos Portos, portanto. Ela retrocede a 2013, quando foi editada a Medida Provisória (MP) dos Portos, que possibilitou a empresas prorrogar a concessão de contratos de terminais em Santos mesmo a empresas com dívidas com a União, como era o caso do Grupo Libra. A MP foi apresentada pelo então líder do MDB na Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.

Conversas divulgadas no mês passado pela revista Veja revelam que o coronel Lima, espécie de faz-tudo de Temer, intermediou com Gonçalo Torrealba, também dono do Grupo Libra, um encontro na Secretaria dos Portos em agosto de 2015 para que o contrato da empresa fosse prorrogado. Em mensagem de texto enviada à 1h13 do dia 12 de agosto, coronel Lima avisa Gonçalo. “Transmiti o recado. Encontro marcado para as 12h”, informa o amigo de Temer ao sócio do Grupo Libra. Na época, o ministro dos Portos era Edinho Araújo. Na agenda oficial de Edinho do dia 12, às 12h, constavam apenas “reuniões internas”. Ele não negou, mas também não confirmou o encontro com Gonçalo. “Devo ter recebido a direção do Grupo Libra.

As portas do meu gabinete sempre tiveram abertas a parlamentares, empresários e representantes da área técnica”, disse o prefeito. Fato é que, em 3 de setembro daquele mesmo ano, Edinho prorrogou até 2035 o contrato do Grupo Libra. Em depoimento prestado à PF no dia 29, ouvido como declarante, o prefeito negou que conhecesse ou tivesse qualquer tipo de relação com o coronel Lima. E que, portanto, o possível encontro do dia 12 de agosto com a direção do Grupo Libra não teria sido intermediado diretamente pelo coronel com ele. Além de Celina, o ministro do STF Luís Roberto Barroso determinou a prisão dos demais sócios do Grupo Libra – Rodrigo Torrealba, Ana Carolina Torrealba e Gonçalo Torrealba (o mesmo que teria acertado uma reunião com Edinho por intermédio do coronel Lima). Os mandados contra os três, porém, não foram cumpridos no dia 29.

A prisão da cúpula do Grupo Libra, na Operação Skala, tem a ver com doações feitas pela empresa à candidatura do então vice-presidente Michel Temer, em 2014, no valor total de R$ 1 milhão. A Polícia Federal desconfia que esse dinheiro seria contrapartida pela MP dos Portos, de 2013, e também pela garantia de que o contrato do Grupo Libra seria estendido até 2035. Entre os detidos até agora dentro do inquérito dos portos, apenas esses dois personagens – Lima e Celina – teriam alguma ligação com a passagem de Edinho pelo ministério. Dependendo do que for dito, o prefeito de Rio Preto pode se ver livre de qualquer saia-justa envolvendo a investigação da PF. Ou pode ser que sua situação fique ainda mais delicada.

 

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