Bosque recebe felinos ameaçados de extinção

Entre os adjetivos mais comuns a serem relacionados aos felinos estão elegantes e enigmáticos. Eles desafiam não somente aqueles que dividem seu sofá com espécies menores, mas também cientistas que tentam descobrir as origens e a história evolutiva de seus primos maiores.

Atualmente, no país, são catalogadas e descritas apenas oito espécies de felinos silvestres que habitam terras de norte a sul. São elas: a onça parda; a onça pintada; o gato-do-mato-pequeno; a jaguatirica; o gato-do-mato; o gato-maracá; o gato-mourisco e o gato-palheiro.

Não há como afirmar que os felinos estão bem representados, pois todas essas espécies integram a Lista Oficial dos Mamíferos Brasileiros Ameaçados de Extinção do IBAMA, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente.

São animais que vivem no território brasileiro e que sofrem o risco de desaparecer devido, principalmente, à fragmentação dos habitats por causa avanço do agronegócio sobre as regiões naturais, o desmatamento e a caça, além do comércio ilegal e outras pressões ecológicas aos predadores de topo de cadeia alimentar.

Os trabalhos dos biólogos e veterinários, especialistas em animais silvestres, vêm de encontro com o crescente número de resgastes realizados, principalmente, pela Polícia Ambiental e pelo Corpo de Bombeiros. A maioria deles, antes de serem devolvidos à natureza, passa por exames minuciosos em centros de preservação. Um dos mais importantes da região é o Bosque Municipal de São José do Rio Preto.

Desde o início do mês, o local recebeu três novos moradores. São dois filhotes de gato-mourisco e um filhote de gato-do-mato-pequeno que estão sob os cuidados da equipe do doutor Ciro Cruvinel, veterinário responsável pelo Bosque Municipal.

O casal de filhotes de gato-mourisco chegou por meio da Polícia Ambiental de José Bonifácio. Eles foram encontrados em um canavial, sem a mãe por perto, recolhidos e encaminhados para atendimento especializado.

De acordo com Cruvinel, os irmãos têm entre 30 e 40 dias e ainda necessitam de alimentação especial a cada duas ou três horas. “Eles chegaram pesando cerca de 250 gramas. Por todo o estresse sofrido pela separação da mãe, eles perderam um pouco de peso, mas já estão recuperando. Já estão pesando 260 gramas cada um. Agora nós estamos fazendo um acompanhamento de crescimento, o que chamamos de biometria. Toda semana eles são pesados e medidos para avaliarmos a curva de crescimento”, explicou o veterinário.

Na avaliação do crescimento são consideradas as medidas da cabeça, das patas e do corpo, além do ganho de peso e da aparência e quantidade de fezes, como explicou o veterinário. “Os irmãos chegaram muito pequenos, completamente dependente da mãe. Para os felinos defecarem, por exemplo, é necessário o estímulo da mãe e, caso isso não fosse feito nestes filhotes, eles poderiam morrer”, disse.

O biólogo Samuel Villanova Vieira trabalha a parte de comportamento com os animais e explica que as chances dos filhotes voltarem à natureza são muito pequenas. “A ideia é tratá-los como animais selvagens que são, não como animais domésticos. Por isso não damos nomes. Quanto menores os filhotes chegam aqui, menores também são as chances de voltarem para a natureza. Em relação aos gatos-mourisco, vai ser muito difícil reintroduzi-los. Eles não aprenderam o básico para sobrevivência com a mãe e nós, seres humanos, não temos como ensinar”, explicou Villanova.

Já o filhote de gato-do-mato-pequeno chegou por meio do Corpo de Bombeiros de Olímpia depois de ter sido capturado em uma casa. Ele é um macho que pesa em torno de 450 gramas e deve ter em torno de três meses de idade.

Segundo o doutor Ciro Cruvinel, o animal está saudável e se alimentando bem. “Ele já se alimenta de carne, como os felinos adultos, e já defeca sozinho, sem precisar do estímulo da mãe. Por isso evitamos contato. Se ainda estivesse na natureza, ele estaria se alimentando da caça que a mãe leva para o ninho, que são pequenas aves e roedores”, disse Cruvinel.

Apesar de já ter sido desmamado pela mãe, Villanova explicou que ele ainda era dependente para alimentação e deve ter saído do ninho enquanto a mãe caçava. “É um filhote mais velho e menos dependente, se comparado com os filhotes de gato-mourisco, no entanto, não deixa de ser um animal que precisa da mãe por perto. A hipótese mais provável é que ele tenha saído do ninho enquanto a mãe caçava e tenha se perdido”, explicou o biólogo.

Ainda de acordo com Villanova, o filhote do gato-do-mato-pequeno tem mais chances de voltar à natureza. “Ele tem um comportamento esperado para animais silvestres. Já sabe demonstrar defesa e não precisa mais de leite da mãe. Já é um indivíduo mais fácil de ser reintroduzido e voltar a ter uma vida normal como todos os animais silvestres”, completou.

Os filhotes de felinos silvestres estão na sede administrativa do bosque e não estão em exposição para o público. Ainda não se sabe o futuro deles, no entanto, o importante é que estão saudáveis e bem cuidados.

 

Gato-do-mato-pequeno ou jaguatirica

Quando o gato-do-mato-pequeno foi capturado, o Corpo de Bombeiros de Olímpia informou que era um filhote de jaguatirica. Já no bosque, a confusão foi desfeita e a equipe fez a classificação correta da espécie.

“A diferença é muito sutil entre a jaguatirica e o gato-do-mato-pequeno. Além da diferença no tamanho, uma vez que a jaguatirica é bem maior que o gato-do-mato-pequeno, também existe a diferença do tipo de pintas. No gato-do-mato-pequeno as pintas são mais parecidas com as de uma onça pintada, enquanto que na jaguatirica elas são mais alongadas. Em algumas jaguatiricas parecem até listras”, explicou o veterinário.

Outra informação importante a respeito do filhote é que a espécie da qual faz parte é recém-descoberta pelos pesquisadores, o Leopardus guttulus.

“Os pesquisadores acreditavam que era apenas uma espécie de gato-do-mato que habitava o Brasil. Diante de testes genéticos, ficou provado que a espécie Leopardus guttulus é mais frequente nas regiões sul e sudeste e a espécie Leopardus tigrinus, nas regiões norte e nordeste. Apesar de a espécie recém-descoberta ser a L. gattulus, é a que mais tem estudos e informações”, explicou o doutor Ciro.

De acordo com o estudo publicado pelo periódico Current Biology (Biologia Atual, em tradução livre), pela aparência é quase impossível distinguir as espécies. As observações apontam que o L. tigrinus tem pelagem um pouco mais clara e manchas menores e a cauda parece ser mais peluda no Sul e mais comprida no Nordeste. No entanto, deixa claro que a análise não é estatística.

Por Bia MENEGILDO

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