Aumentam as vítimas de câncer que optam por congelar gametas para preservar a fertilidade

Preservar a fertilidade? A frase parece estranha, mas a ação é cada vez mais comum. Com o sucesso dos tratamentos oncológicos, pacientes que serão submetidos a quimioterapia e radioterapia tem uma outra preocupação: podem ficar inférteis. Só em Rio Preto e região, nos últimos cinco anos, centenas de pacientes procuraram ajuda em centros de reprodução humana assistida com o intuito de congelar seus gametas e, assim, terem uma chance a mais de serem pais após a luta contra o câncer. No Centro de Reprodução Humana de Rio Preto a procura pela congelação de gametas com o intuito de preservar a fertilidade aumentou cerca de 50%.

O aumento, de acordo com o especialista em Reprodução Humana Assistida Edilberto de Araújo Filho, diretor do CRH Rio Preto, não é proporcional ao aumento de casos de câncer, e nem significa que mais pessoas são vítimas da doença, mas sim que oncologistas estão conscientizando cada vez mais seus pacientes, assim como a mídia. O assunto já é pauta de congressos há muitos anos, e a literatura mostra que os tratamentos são altamente prejudiciais às funções reprodutivas, pois alteram progressivamente a qualidade do sêmen e do óvulo.

De acordo com o médico, os pacientes precisam fazer a coleta dos gametas antes de serem submetidos ao tratamento contra o câncer. “Muitos pacientes chegam ao consultório quando já realizaram algumas sessões de quimioterapia ou radioterapia. Às vezes não temos tempo hábil ou o tempo que temos antes de ele iniciar o tratamento é muito curto. No caso do homem, é mais simples, pois temos que colher amostras de sêmen e congelar. O processo pode ser realizado no prazo de uma semana se forem congeladas três amostras. Quando o paciente chega até nós sem este tempo, conseguimos congelar pelo menos uma amostra no prazo de 24 horas”, explica Araujo Filho.

O médico ressalta que no caso das mulheres há uma complicação referente ao tempo, pois é preciso realizar a estimulação ovariana com hormônios, fazer a aspiração dos óvulos e, então, congelá-los pelo processo de vitrificação. Todo esse processo pode durar de 12 a 15 dias. “Muitas mulheres quando descobrem o câncer não sabem desta possibilidade e, quando ficam sabendo, não dá mais tempo”, lamenta.

De acordo com a embriologista da clínica, Lígia Fernanda Previato Araujo, chefe de laboratório do CRH Rio Preto, a vitrificação possibilita uma taxa de sucesso no descongelamento bastante alta. A tecnologia está evoluindo muito. No caso dos espermatozoides é muito tranquilo. Temos uma excelente taxa de sobrevivência no processo de criopreservação de sêmen – a taxa de sobrevivência ao descongelar é de praticamente 100%, com a técnica que temos. No caso da preservação de óvulos também evoluímos. Hoje temos uma técnica mais avançada, que traz mais resultados: a vitrificação dos óvulos. Com a técnica anterior cerca de 50% dos óvulos congelados eram perdidos devido a formação de cristais de gelo, que danificavam o óvulo no momento do descongelamento. Já com a vitrificação a taxa de sobrevivência destes óvulos descongelados é de 90%.

“Os gametas podem ficar congelados por tempo indeterminado, pois ficam armazenados em containers com nitrogênio a -196°C, onde as células estão com toda a sua arquitetura celular preservada para ser descongelada e utilizada no momento que for necessário”, afirma Ligia Previato, ressaltando que quando o paciente resolver descongelar os gametas para tentativa de gravidez terá que passar, no caso das mulheres com óvulos congelados, por um procedimento de Fertilização In Vitro.
“Já no caso dos homens dependerá do número de amostras congeladas e da qualidade do sêmen. Mas é sempre mais seguro fazer a Fertilização In Vitro, porque no caso da fertilização vamos usar um espermatozoide para cada óvulo. Já no caso da inseminação, precisamos de mais de um milhão de espermatozoides viáveis para a inseminação”, afirma a embriologista. “A chance de gravidez é maior por tentativa de Fertilização In Vitro”, explica Araújo Filho, acrescentando que após o tratamento de câncer, a mulher pode desenvolver a gestação corretamente, desde que o útero não seja afetado pela quimioterapia e radioteparia.

Importância da conscientização – O avanço nos tratamentos de cura do câncer tem permitido a cura em muitos pacientes jovens e em idade fértil. Nos últimos 10 anos, as estimativas apontam que as taxas de sobrevida ao câncer testicular, hematológico, mamário, e outros, têm variado entre 90 e 95%, quando diagnosticados em estágio inicial. Não existe a certeza de que este paciente irá ou não ficar infértil. A medicina apenas encontrou na área da reprodução humana assistida uma maneira de preservar e correr um risco menor.

Histórico – O primeiro relato de sêmen congelado foi na Universidade de Iowa, em 1949. No Brasil, o primeiro relato de sêmen congelado foi em 1993, no Hospital Albert Einstein. Já as tentativas para congelamento de óvulos tiveram início em 1980, sendo que a primeira bem sucedida aconteceu só em 1986, na Austrália. “Inicialmente o objetivo do congelamento de sêmen era a preservação dos espermatozoides para casos de doação e para uso posterior. O congelamento de óvulos é que veio, na verdade, com indicação para casos de câncer na tentativa de preservação da fertilidade”, explica Ligia Previato.

 

Da REDAÇÃO

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